Rio Tinto pede desculpa por destruir cavernas aborígenes com 46 mil anos

A empresa mineira admite que destruiu cavernas pré-históricas que eram locais de culto para os aborígenes australianos. Os danos aconteceram com o recurso a explosivos para expandir minas.

A empresa mineira anglo-australiana Rio Tinto reconheceu ter provocado danos irreversíveis em cavernas pré-históricas habitadas por aborígenes há mais de 46.000 anos, durante trabalhos com explosivos para expandir uma mina de ferro na região de Pilbara.

Representantes da comunidade aborígene australiana denunciaram que a caverna Juukan Gorge, na Austrália Ocidental - um dos locais mais antigos conhecidos ocupados por aborígenes na Austrália - tinha sido destruída, classificando esse ato de "devastador" para a comunidade.

Os explosivos foram utilizados perto do local arqueológico a 24 de maio, de acordo com as autorizações emitidas pelo governo do estado sete anos atrás, disse a Rio Tinto em comunicado.

"Pedimos desculpa ao povo Puutu Kunti Kurrama e Pinikura (PKKP). Lamentamos o sofrimento que causamos. O relacionamento com o PKKP tem muita importância para a Rio Tinto, pois trabalhamos juntos há muitos anos", afirmou a Rio Tinto.

"Continuaremos a trabalhar com o PKKP para aprender com o que aconteceu e fortalecer a nossa parceria. Com urgência, estamos a rever os planos de todos os outros locais na área do desfiladeiro de Juukan."

"Em 2013, a Rio Tinto recebeu aprovação oficial para realizar atividades nas minas de Brockman 4 que afetaram as cavernas Juukan 1 e Juukan 2", disse ainda um porta-voz da companhia.

A empresa afirma que o plano passava por proteger o património histórico. "A Rio Tinto trabalhou de forma construtiva com o povo PKKP em várias questões relacionadas com o património no âmbito do acordo e, onde possível, modificou as atividades para evitar danos. Também procurou proteger locais de importância cultural".

Apenas um ano após a aprovação do uso de explosivos, escavações arqueológicas num dos locais relevaram o exemplar mais antigo conhecido de uma ferramenta na Austrália - um osso de canguru afiado que remonta a 28.000 anos - e uma trança de cabelo de 4.000 anos, que teria sido usada como cinto.

Testes de DNA do cabelo mostraram uma ligação genética com os ancestrais dos povos indígenas que ainda vivem na área.

As escavações em 2014 também permitiram encontrar um dos exemplares mais antigos de pedra para afiar já descobertos na Austrália.

O governo estadual da Austrália Ocidental está a rever as leis de mineração como parte de um processo iniciado em 2018.

O ministro dos Assuntos Indígenas, Ken Wyatt, disse que a "destruição não deveria ter acontecido", acrescentando que tinha conversado pessoalmente com os proprietários tradicionais da terra.

"É muito importante que isto não aconteça novamente. O governo precisa garantir que os processos legislativos e de aprovação protegem a nossa herança cultural indígena. Parece bastante claro que, neste caso, a legislação falhou", disse Wyatt.

O ex-primeiro-ministro Kevin Rudd, o primeiro líder do país a pedir desculpas a gerações de crianças aborígenes, retiradas à força dos seus pais por australianos brancos no século passado, disse que a "arrogância corporativa da Rio Tinto roubou todos os australianos".

"Os abrigos de Juukan Gorge são nove vezes mais antigos que Stonehenge, 23 vezes mais antigos que o Coliseu e 75 vezes mais que Machu Picchu", comentou na sua conta oficial no Twitter.

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