Reunificação de Chipre: ONU diz que é agora ou nunca

Líderes cipriota-grego e cipriota-turco de volta ao diálogo. Guterres preside a conferência a cinco, quinta-feira, em Genebra. Acordo seria histórico. Após 43 anos de divisão

É agora ou nunca. Foi assim que o enviado da ONU para a questão de Chipre, Espen Barth Eide, ontem descreveu a janela de oportunidade para se chegar a um acordo sobre a reunificação da ilha, numa altura em que os líderes cipriota-grego e cipriota-turco estão reunidos em mais uma ronda de negociações em Genebra. O objetivo é chegar a quinta-feira com um acordo que tenha o aval da ONU e dos três chamados Estados garante: Reino Unido, Turquia e Grécia. É esse o objetivo da conferência a cinco que será presidida nesse dia pelo novo secretário-geral das Nações Unidas António Guterres, o qual falou em oportunidade histórica.

"Os líderes estão a demonstrar uma grande coragem e vontade. Vai ser difícil mas é possível. Estamos no momento da verdade", declarou ontem aos jornalistas em Genebra o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros da Noruega, que foi nomeado para acompanhar as negociações sobre Chipre ainda por Ban Ki-moon (antecessor de Guterres na liderança da ONU). Os líderes cipriota-grego e cipriota-turco estavam cautelosos. "Perguntem-me no fim", disse em Genebra o presidente da República de Chipre Nikos Anastasiades. "Não estamos pessimistas, mas não há necessidade de expectativas demasiado exageradas. Espera-nos uma semana difícil", afirmara na véspera o presidente da autoproclamada República do Norte de Chipre, Mustafa Akinci.

A ilha de Chipre tornou-se independente em agosto de 1960, após um acordo entre as comunidades grega e turca sobre uma nova Constituição e a promulgação dos Tratados de Aliança e Garantia, que fixaram três Estados garante da convivência entre ambas: Reino Unido, Turquia, Grécia. Em 1974, após breve golpe de Estado pró-helénico a Turquia ocupou o Norte de Chipre para, diz, assegurar os interesses dos cipriotas-turcos. Estes proclamaram, em 1983, a República Turca de Norte de Chipre, só reconhecida pela Turquia (que tem lá 33 mil militares). A divisão levou à intervenção da ONU, que tem na ilha uma das mais antigas missões de paz.

A haver um acordo agora, ele teria de ser referendado em simultâneo pelas duas comunidades. Uma tentativa prévia, em abril de 2004, uma semana antes de Chipre aderir à União Europeia (UE), falhou, com os cipriotas-gregos a rejeitarem a proposta do plano Annan por 76% dos votos e com os cipriotas-turcos a aceitarem a mesma por 65%. A proposta resultou de um plano apresentado pelo então secretário-geral da ONU Kofi Annan. 12 anos passados o que mudou para haver agora esta esperança num acordo?

A primeira grande diferença é que os esforços têm sido feitos a partir de dentro e não impostos de fora pela ONU ou pela UE. Anastasiades e Akinci defenderam ambos, perante os seus eleitorados, a importância da reunificação. Alguma consonância existe já em relação a temas como a harmonização das leis do Norte de Chipre com a UE, a avaliação das reclamações feitas por pessoas que perderam propriedades depois serem forçadas a fugir e a constituição de um governo federal à semelhança do da Bélgica. Os cipriotas-turcos querem que a presidência do país seja rotativa, algo que o líder cipriota-grego poderia aceitar se conseguisse redesenhar a fronteira entre as duas partes.

Theresa May e Alexis Tsipras, líderes britânica e grego, indicaram que irão a Genebra quinta-feira se houver acordo. Recep Tayyip Erdogan, líder turco, ainda não esclareceu o que fará. A Turquia, palco de golpe falhado, alvo de atentados do Estado Islâmico, poderia aumentar o seu potencial de levar gás natural à UE através de Chipre. E a UE, a braços com o brexit, o crescimento dos populismos e o terrorismo, também beneficiaria de um Chipre reunificado num Mediterrâneo extremamente desestabilizado.

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