Quem sucede ao sultão que não tem filhos ou irmãos? A resposta está no envelope

O sultão Qaboos bin Said regressou mais cedo a Omã depois de ter feito um tratamento na Bélgica, desencadeando rumores de que aos 79 anos e após quase meio século no poder poderá estar às portas da morte.

O sultão de Omã tem 79 anos e luta desde há cinco contra um cancro no cólon. Depois de ter regressado mais cedo do que o previsto da Bélgica, onde esteve em tratamentos, há quem diga que a sua morte está próxima e que em breve ficará desfeita a grande dúvida: quem será o seu sucessor?

Qaboos bin Said, herdeiro da dinastia Al Said que governa Omã desde meados do século XVIII, chegou ao poder em 1970, após liderar um golpe sem violência no qual contou com a ajuda dos britânicos para derrubar o pai. Apesar de ter sido casado entre 1976 e 1979 com uma prima, não teve filhos e não tem irmãos, pelo que não tem sucessor direto.

Publicamente o sultão nunca revelou o nome de quem gostaria que assumisse as rédeas do sultanato (a ideia é não minar a sua autoridade em vida), mas escreveu-o em dois envelopes: um está no palácio real de Mascate e outro no da cidade de Salalah, no sul do país da Península Arábica. Segundo o The Guardian, no fim de semana foram tomadas medidas para que este último viajasse também para a capital.

De acordo com a lei, a família real tem que escolher um sucessor no espaço de três dias depois da morte do sultão. Se não chegar a um acordo, o Conselho de Defesa, o presidente do Supremo Tribunal e os líderes das duas câmaras do Conselho Consultivo ficam responsáveis por impor a escolha feita por Qaboos, entronizando a pessoa cujo nome estiver no envelope.

Há quem alegue que os familiares vão pedir para ver o nome antes, legitimando assim a escolha que for feita, mas há também quem defenda que pode haver um nome diferente em cada um dos envelopes. Foi o próprio sultão que disse ter escrito dois nomes, também em ordem de sucessão, numa entrevista à revista Foreign Affairs, em 1997. Se for verdade, tal poderia causar problemas.

"Diz-se que Qaboos escreveu várias cartas, com talvez nomes diferentes de sucessores ao trono. Se a família Al Said não chegar a um consenso e múltiplas cartas forem abertas com diferentes nomes, poderá haver uma crise de sucessão", disse há dois anos o cofundador da Gulf State Analytics, Giorgio Cafiero, ao Middle East Eye. Na altura já se discutia o estado de saúde do sultão.

Omã mantém vestígios das fortificações que os portugueses construíram no século XVI (nomeadamente o forte de São João ou Jalali, de Mirani e de Matrah), depois de terem conquistado a cidade de Mascate em 1508. Os portugueses acabaram expulsos pelos otomanos, em 1659, que por sua vez seriam expulsos em 1741, quando teve início a dinastia de Al Said.

Desde 1970 que Qaboos tem liderado a modernização de Omã, que sob a liderança do seu pai era um país fechado mas que ele foi abrindo aos poucos, inclusive ao turismo, já no novo milénio.

Na história mais recente, Omã mantém uma política de "amigo de todos e inimigo de ninguém" que lhe permitiu agir como mediador na região. Foi palco das negociações entre o Irão e os EUA, por causa do acordo nuclear que acabaria por ser assinado em 2015 (e que Washington entretanto já rasgou), assim como das que opõem a Arábia Saudita aos rebeldes hutis, do Iémen.

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