Qatar já respondeu às exigências sauditas. O que vem a seguir?

Arábia Saudita e aliados vão analisar documento amanhã no Cairo. Donald Trump já falou com os líderes da região

O Qatar entregou ontem ao Koweit, que está a servir de mediador, a resposta oficial às exigências feitas por Arábia Saudita e aliados que cortaram relações com Doha no início de junho. Esta resposta surge um dia antes do final do prazo dado por Riade a Doha e será discutido amanhã pelos chefes da diplomacia dos quatro países que impuseram o bloqueio.

O documento foi entregue pelo ministro dos Negócios Estrangeiros do Qatar, xeque Mohammed ben Abderrahmane Al-Thani, ao emir do Koweit, xeque Sabah al-Ahmad Al-Sabah, menos 24 horas depois de a Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos e Bahrein terem decidido prolongar por mais dois dias o ultimato feito ao Qatar para responder à lista de exigências. O prazo do ultimato tinha terminado às 24.00 de domingo.

O conteúdo da carta não foi revelado, mas adivinha-se que o Qatar tenha dado uma resposta negativa, tendo em conta o que o ministro dos Negócios Estrangeiros qatari já havia dito no sábado. "A lista de exigências foi feita para ser rejeitada. Não foi feita para ser aceite ou para ser negociada", afirmou Al-Thani, adiantando que o Qatar estava disposto a encetar novas negociações "nas condições adequadas".

O documento será discutido amanhã durante uma reunião no Cairo, a capital do Egito, entre os ministros dos Negócios Estrangeiros dos quatro países que cortaram relações com o Qatar.

A Arábia Saudita e os seus três aliados apresentaram uma lista de 13 exigências que o Qatar deveria aceitar para que lhe fosse levantado o bloqueio imposto desde 5 de junho. Entre essas exigências estão o corte de relações com o Irão, bem como com organizações terroristas que estes dizem que Doha financia - especificamente a Irmandade Muçulmana, o Estado Islâmico, al-Qaeda e o Hezbollah -, encerrar a televisão Al-Jazeera e todos os meios de comunicação social financiados pelo Qatar, pôr fim à presença militar da Turquia no país e a todas as operações conjuntas entre os dois países no estrangeiro.

Aceitando a lista de exigências, o Qatar teria ainda de cessar contactos com a oposição destes quatro países, pagar indemnizações por perdas de vidas ou financeiras causadas pelas políticas do país nos anos mais recentes, consentir auditorias mensais no primeiro ano após o acordo, que passariam a trimestrais no segundo ano e anuais na década seguinte.

Fontes dos Emirados Árabes Unidos adiantaram à BBC que depois do novo prazo dado a Doha expirar, que termina amanhã, e em caso de uma resposta negativa às exigências feitas, as sanções políticas e económicas aplicadas temporariamente ao Qatar tornar-se-ão permanentes. Já a Reuters avança que os bancos de Arábia Saudita, Emirados e Bahrain poderão receber ordens oficiais para retirar os seus depósitos e empréstimos interbancários do Qatar.

No domingo, o presidente dos Estados Unidos falou em separado com os líderes da Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Qatar para discutir as suas "preocupações sobre a disputa em curso", disse a Casa Branca, sublinhando que Donald Trump reiterou a importância "de parar o financiamento do terrorismo e desacreditar a ideologia extremista".

Ontem soube-se ainda que o rei Salman da Arábia Saudita decidiu não comparecer à reunião do G20, que se realiza sexta-feira e sábado na cidade alemã de Hamburgo.

O monarca vai enviar o ministro das Finanças, Mohammed Al-Jadaan, para representar os interesses sauditas na cimeira, segundo a agência noticiosa alemã DPA.

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