PSOE acusa oposição de não ser capaz de negociar como acontece em Portugal

"António Costa chegou a um acordo programático com os outros partidos, que é a proposta que fazemos nós para conseguir fazer as reformas que o país precisa. Mas para isso precisamos que a oposição seja capaz de atender aos interesses gerais do Estado e não aos seus próprios", diz Adriana Lastra, vice-secretária-geral do PSOE

Após a vitória socialista em Portugal, a um mês das eleições legislativas em Espanha, o PSOE insiste na sua proposta de governar sozinho com acordos programáticos com as outras forças políticas de esquerda.

Olhando para o país vizinho, na sede do partido liderado por Pedro Sánchez acredita-se que, em Espanha, uma solução à portuguesa não chegou a acontecer "pela falta de capacidade de negociação dos partidos da oposição", sublinhou a porta-voz do PSOE no Parlamento, Adriana Lastra, em resposta a uma pergunta do DN, num encontro realizado esta quarta-feira com correspondentes estrangeiros em Madrid.

"António Costa chegou a um acordo programático com os outros partidos, que é a proposta que fazemos nós para conseguir fazer as reformas que o país precisa. Mas para isso precisamos que a oposição seja capaz de atender aos interesses gerais do Estado e não aos seus próprios", sublinhou Lastra, criticando a Unidas Podemos e o seu líder, Pablo Iglesias, com quem os socialistas estiveram a negociar e chegaram a ter uma proposta em cima da mesa, que foi rejeitada.

O que vai mudar agora, depois de mais umas legislativas antecipadas, a 10 de novembro? "Vamos apresentar-nos às eleições e tudo indica que vamos ser a primeira força política a ganhar por muito, vamos ter a confiança de uma maioria de espanhóis. Vamos sentar-nos com o resto das forças políticas para chegar a acordos e reformas que o nosso país precisa para seguir em frente com um projeto coerente liderado pelos socialistas", afirmou a também vice-secretária-geral do PSOE.

Em seu entender, por causa da instabilidade política em Espanha, "não se consegue levar a cabo as reformas necessárias". E agora é tempo, refere, de falar de um sistema de reformas que dê segurança aos idosos, é hora de acabar com a precariedade laboral, de fazer a a transição ecológica, de tratar da economia. "Já falámos disto tudo na [outra] campanha [para as eleições de 28 de abril]. Já apresentámos um programa eleitoral e para isso queremos a confiança dos cidadãos. E queremos que estas reformas sejam as reformas de todas as forças políticas", acrescentou a dirigente socialista, de 40 anos.

Os novos partidos e o bloco de bloqueio

Sete meses depois das últimas eleições antecipadas, existe o risco de, a 10 de novembro, os resultados serem semelhantes aos de 28 de abril. Adriana Lastra lembrou que os socialistas ganharam as eleições "mas houve um bloco, o bloco do bloqueio, que não nos deixou governar".

No PSOE sublinha-se que a vitória não podia ter sido mais clara, "a dobrar em votos e deputados ao partido a seguir [o PP], e não havia alternativa possível a um governo de Pedro Sánchez porque a direita não somava [apoios suficientes]". O cenário então foi o pior possível. "O resto das forças políticas, num exercício de irresponsabilidade, decidiram bloquear" o partido do primeiro-ministro em funções.

Por isso, agora, antes das novas eleições, "estamos a explicar aos cidadãos porque estamos aqui e qual é a responsabilidade de cada ator político. Uma direita que prefere negociar com a extrema-direita e nega o acordo com o PSOE e uma esquerda à esquerda do PSOE que decidiu não entrar no Governo", explicou a porta-voz parlamentar do PSOE, Adriana Lastra.

Na sua opinião, desta vez não há outra hipótese a não ser chegar a acordo e, por isso, com a esperada vitória socialista, "vamos sentar-nos com a esquerda para chegar a acordos programáticos nos aspetos mais importantes do país e com as forças da direita para chegar a acordos em temas fundamentais".

Adriana Lastra também foi bastante crítica quando se referiu ao contributo dos novos partidos, como o Podemos e o Ciudadanos de Albert Rivera, para a política espanhola. "Trouxeram instabilidade política, bloqueio, incapacidade de fazer acordos", afirmou. "À nossa frente encontrámos partidos que não percebem, exigem coisas e não podemos chegar a acordos", sublinhou.

A sentença do processo dos líderes catalães

Em plena contagem decrescente para as eleições legislativas em Espanha, deve ser conhecida antes do dia 16 de outubro a sentença do Supremo Tribunal sobre os políticos presos por causa do referendo ilegal sobre a independência da Catalunha. "Acompanhamos esta sentença com preocupação pela atitude de alguns líderes independentistas que estão a apelar à desobediência civil", indicou Lastra, naquele encontro com os jornalistas estrangeiros.

"Espanha é um Estado de Direito e a política não pode estar acima da lei, os políticos não podemos estar acima", esclareceu. Neste sentido, o governo está preparado para o que possa acontecer e a resposta estará em concordância com a reação dos independentistas, estando em aberto a possibilidade de aplicar de novo o Artigo 155.º da Constituição espanhola [que retira a autonomia à Catalunha e a devolve ao Estado espanhol]. O governo central quer dar segurança ao povo catalão, porque, refere a vice-secretária-gerald o PSOE, "a sociedade catalã está a ser a mais prejudicada. Este é um problema fundamentalmente de convivência. O independentismo fraturou a sociedade catalã até quase parti-la pela metade e isto tem que ser solucionado".

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