Protestos sobem de tom. "Tirem a Supremacia Branca da Casa Branca"

Milhares gritaram contra a nomeação de Steve Bannon para estratega chefe de Trump, na sétima noite de manifestações.

Um dos polícias destacados para controlar a multidão em mais uma noite de protestos em Los Angeles perguntava, quase em surdina: "quem é este Steve Bannon?" Desta vez, os cartazes e as vozes dos manifestantes apontavam baterias a um nome até aqui desconhecido da maioria. Bannon foi escolhido como principal estratega do presidente eleito Donald Trump na Casa Branca, o que deixou a América intelectual à beira de um ataque de nervos. Mas a maioria, como o polícia que franzia o sobrolho, não tem ideia de quem se trata.

"Ele não é uma figura conhecida, e as pessoas não sabem que tem ligações estreitas ao nacionalismo branco", resume Esteban Benson, 34 anos, dono de uma pequena empresa e com um tom de pele demasiado escuro para os gostos do novo estratega e companhia. Steve Bannon é ex-CEO do Breitbart, provavelmente o site noticioso mais controverso e abertamente racista dos que tiveram um papel ativo na campanha presidencial. Declarou a intenção de o tornar na plataforma por excelência da Alt-right, a direita alternativa - uma designação simpática para a extrema-direita norte-americana, que poderia ser chamada neonazi dadas as semelhanças ideológicas. O seu objetivo, segundo o manifesto publicado no Breitbart, é tornar a América um país para brancos (apenas por referência, os portugueses não são considerados brancos). Richard Spencer é o "líder intelectual" da Alt-right e viu a sua conta de Twitter suspensa esta semana por discurso de ódio. Em entrevista à rádio NPR, disse que o ideal era voltar a ter comunidades segregadas na América.

"Há porções desta nação que estão em negação. Talvez seja o último suspiro para tornar claro que o problema é bem maior do que muita gente pensava", comentou Esteban.

Ao cair da noite, já se juntavam mais de duas mil pessoas em frente à câmara de Los Angeles, gritando novas palavras de ordem - "Alt-right is not all right", "I reject the president-elect", "Love, not hate, makes America great". Havia adolescentes e jovens, seniores, brancos, negros, hispânicos, asiáticos. Surpreendentemente, sentia-se no ar menos raiva e mais otimismo do que em protestos anteriores. Estes americanos encontraram a sua voz. Têm urgência de mostrar ao mundo que não assistirão calados à ascensão do nacionalismo branco à Sala Oval que explicou ao DN Jennifer Aley, escritora de 45 anos, branca e de olhos claros, para quem o mais importante agora é não regressar ao quotidiano como se nada fosse. "Vai ser muito importante nos próximos quatro anos que toda a gente veja que não estamos todos por detrás dele, que não se pode definir a América com o Trump, e que o voto popular mostra que mais gente discorda dele do que o apoia." Acha que é preciso perceber a raiva que levou muitos americanos, não necessariamente maus ou racistas, a votar em Trump. "Estamos a chegar a um ponto, em especial com a internet, em que as divisões serão menos por geografia e mais por ideologia. Precisamos que todos os que acreditam nos direitos humanos no mundo se apoiem. Temos de nos juntar para lutar contra estes extremistas."

A eloquência de Jennifer é contrabalançada pela inocência de Isaiah Demery, negro de 16 anos que estava no protesto com colegas da escola e alguns professores. "Não sou religioso, mas o meu pai é muçulmano." Sabe que a Califórnia é um estado democrata, empenhado em defender os direitos da sua população diversa, mas mesmo assim tem receio. "Se forem passadas certas leis contra muçulmanos, a minha família vai ser afetada." Ainda assim, fala de esperança e otimismo, do poder que estes protestos podem ter. "É a primeira vez em muito tempo que vejo toda a gente unir-se. Por isso, tenho esperança."

Aquilo a que Isaiah se referia pode ser descrito como um fio invisível que tem unido as pessoas neste sentimento entre a repulsa e a vontade de lutar. Othman Ramadan, um professor que votou em Hillary Clinton, acredita que em toda esta energia também há um grande sentimento de culpa. Muitos dos que agora protestam não votaram, votaram nulo ou escolheram um candidato que não podia ganhar para darem uma lição ao partido Democrata. "Cometemos um erro em 2008. Elegemos o Obama e achámos que o nosso trabalho estava feito", examina. O presidente Obama, a quem restam dois meses na Casa Branca, lançou em 2012 o programa DACA - de forma a proteger 1,2 milhões de imigrantes que foram trazidos ilegalmente em bebés ou crianças. A administração Trump quer rasgar essa proteção de imediato. E Aneth Quiñonez, mexicana de 17 anos que foi criada nos EUA, pode ser uma das afetadas. "Os meus pais não têm esperança, acham que nada pode ser mudado, mas eu discordo." Não tem dinheiro para pagar a advogados que acelerem o seu processo, mas acredita na força do povo: "A história ensinou-nos que tudo foi conseguido através de protestos, não violência etc. E se fizermos isto de forma consistente talvez consigamos algo."

Tal não parece tocar o presidente eleito e a sua equipa mais próxima, que descreveu os manifestantes como desempregados, rufiões e "profissionais" pagos para andarem nas ruas. Mas para Timothy Cellars, músico de 48 anos, protestar é uma das poucas opções - senão a única - após a derrota eleitoral. Pediu para passar a mensagem em Portugal: "Digam-lhes que vamos lutar contra isto tanto quanto pudermos. Não deixem que isto vos aconteça."

Em Los Angeles

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