Papa usa a palavra proibida e pede perdão aos rohingya

No penúltimo dia da sua viagem oficial, que passou primeiro pela Birmânia, Francisco ouviu as histórias de 16 refugiados

Um a um, os 16 refugiados dos campos de Cox’s Bazar (430 km a sudeste de Daca), que fugiram da perseguição na Birmânia, aproximaram-se ontem do Papa no final da reunião inter-religiosa na capital do Bangladesh para lhe contar as suas histórias. Francisco ouviu-os com atenção e no final disse-lhes que “a presença de Deus hoje também se chama rohingya”, usando pela primeira vez esta palavra na sua visita oficial à Birmânia e ao Bangladesh. O líder da Igreja Católica pediu-lhes ainda “perdão” em nome de todos os que “os magoaram”.

Até agora, o Papa tinha seguido o conselho dos colaboradores mais próximos e do representante da hierarquia da igreja birmanesa, o cardeal Charles Bo, que pediram que não usasse a palavra “rohingya” quando abordasse a questão da minoria muçulmana perseguida na Birmânia. Na passagem por esse país, onde se encontrou com a governante de facto, Aung San Suu Kyi, Francisco destacou a importância de não haver “exclusão alguma”, por motivos étnicos ou religiosos, no processo de reconciliação nacional, mas evitou usar o termo.

O vocábulo rohingya é usado pelos muçulmanos de Rakhine (Norte da Birmânia) para se designarem a si próprios e o seu uso representa a identificação do Papa com este grupo étnico-religioso, que perdeu o direito à nacionalidade birmanesa no início dos anos 1980. Em Roma, e em mais do que uma ocasião, Francisco usou o termo - “os nossos irmãos e irmãs rohingyas vítimas de perseguições e violência” - para se referir à presente crise.

Desde agosto, mais de 600 mil rohingyas fugiram de Rakhine para o Bangladesh, perseguidos por milícias nacionalistas budistas e pelas forças de segurança, que acusam os muçulmanos de ações terroristas. Nações Unidas, EUA, União Europeia e organizações de direitos humanos, como a Amnistia Internacional ou a Human Rights Watch, têm denunciado a perseguição aos rohingyas como “limpeza étnica”.

“A vossa tragédia é muito dura, muito grande, mas tem um lugar no nosso coração”, afirmou o Papa, após o encontro com os 16 refugiados. “Para aqueles que vos fizeram mal, em particular na indiferença do mundo, peço-vos perdão”, acrescentou Francisco. “Uma tradição da vossa religião diz que Deus no início pegou num pouco de sal e lançou-o na água, que é a alma de todos os homens. Cada um de nós carrega em si um pouco do sal divino. Estes irmãos e irmãs carregam com eles o sal de Deus”, indicou, fustigando o “egoísmo” do mundo. “Continuemos a fazer o bem e a ajudá-los, continuemos a agir para que os seus direitos sejam reconhecidos”, apelou. “Não vamos fechar os nossos corações, não vamos olhar noutra direção. A presença de Deus hoje também se chama rohingya”, concluiu.

Antes do encontro com o Papa, uma das mulheres tinha dito à Reuters: “Os militares birmaneses capturaram-me e a algumas das outras mulheres, torturaram-nos. Ainda sangro, sinto dor na minha barriga, as minhas costas doem, tenho dores de cabeça. Os medicamentos não me ajudam muito.” Quatro dos refugiados que falaram através de intérpretes com Francisco eram mulheres e duas usavam niqab (véu completo que só deixa os olhos à mostra), levantando-o junto ao Papa. Alguns refugiados choraram ao ouvir as palavras de Francisco.

Antes, o líder da Igreja Católica tinha participado num encontro inter-religioso e ecuménico em prol da paz: “Um espírito de abertura, aceitação e cooperação entre os crentes não é simplesmente mais um contributo para uma cultura de harmonia e de paz; é o seu coração pulsante”, disse. “Quanto necessita o nosso mundo que este coração bata com força, para contrastar com o vírus da corrupção política, as ideologias religiosas destrutivas, a tentação de fechar os olhos às necessidades dos pobres, dos refugiados, das minorias perseguidas e dos mais vulneráveis!”

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