Os exemplos que podem inspirar as FARC a ir das armas à política

Sondagens indicam que colombianos deverão aprovar hoje o acordo de paz entre o governo e a guerrilha. Após o desarmamento e a reintegração, participação política é o desafio

Salvador Sánchez Cerén em El Salvador ou José Mujica no Uruguai. Dois ex-guerrilheiros que chegaram à presidência anos depois de terem deixado a luta armada e da transformação dos antigos movimentos de guerrilha em partidos políticos. São exemplos regionais do caminho que as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) quererão seguir, caso os colombianos aprovem hoje em referendo o acordo de paz que foi assinado na passada segunda-feira, e que põe fim a meio século de conflito. Mas esse caminho não se adivinha fácil, já que os eleitores não esquecem os 220 mil mortos e mais de oito milhões de vítimas da guerra.

Caso o "sim" vença o referendo (é nesse sentido que apontam as sondagens), o novo partido nascerá em maio de 2017, após terminado o processo de entrega das armas que será supervisionado pelas Nações Unidas. Enquanto organizam a estrutura do novo movimento, as FARC terão porta-vozes no Congresso (onde poderão debater os temas, mas não votar). Nas legislativas de 2018 e 2022, o novo partido tem garantida uma representação mínima de cinco deputados e cinco senadores, caso não alcance nas urnas o mínimo necessário de votos (5%).

Os analistas políticos acreditam que, à semelhante do que aconteceu com outros grupos no passado, as FARC possam ter um primeiro resultado eleitoral fraco, melhorando à medida que abandonem um discurso mais radical e comecem a atrair os eleitores que se vão esquecendo do passado. Face a uma esquerda muito fraturada na Colômbia, com posições muito díspares em relação à guerrilha, o futuro partido poderá contudo procurar mais à frente alianças de forma a reforçar a sua posição.

Um problema que o movimento enfrentará, além da falta de apoio entre a população, é a falta de nomes fortes: os seus líderes estão demasiado ligados aos crimes da guerrilha para poderem ser uma opção válida tendo que aparecer uma nova geração. Do lado do governo, e dos outros partidos, é preciso também pôr de lado o passado para encontrar nos ex-guerrilheiros interlocutores válidos.

A 15 de setembro, o presidente colombiano, Juan Manuel Santos, reconheceu a responsabilidade do Estado na morte, nos anos 1980 e 1990, de quase quatro mil membros (entre eles dois candidatos presidenciais) da União Patriótica. Esse partido nasceu em 1985, de um primeiro processo de paz (que viria a falhar) entre as FARC e o então presidente Belisario Betancur.

Existe ainda um outro exemplo na Colômbia de um partido político que nasceu da guerrilha: o Movimento 19 de Abril, liderado pelo Comandante Carlos Pizarro, desmobilizou-se há 26 anos e converteu-se na Aliança Democrática M-19. Pizarro seria assassinado a tiros na campanha presidencial de 1990, mas o partido chegou a ser o segundo mais votado na eleição para a Constituinte de 1991. Acabaria contudo por desaparecer ainda nessa década, com os dirigentes a entrarem para outros movimentos - o ex-guerrilheiro Gustavo Petro chegaria a ser presidente da câmara de Bogotá pelo Movimento Progressistas.

Exemplos na região

Em El Salvador, a Frente Nacional Farabundo Martí para a Libertação Nacional (FMLN, que incluía vários grupos de guerrilha) transformou-se em partido após a assinatura dos acordos de paz de Chapultepec, em 1992, que puseram fim a uma guerra civil de 12 anos. A FMLN seria o principal partido da oposição até 2009, quando ganhou a maioria na Assembleia em janeiro e dois meses depois as presidenciais com Maurício Funes.

O ex-jornalista não estava diretamente ligado à guerrilha, ao contrário do vice-presidente Salvador Sánchez Cerén - que cinco anos depois seria eleito chefe de Estado. Sánchez Cerén esteve na criação das Forças Populares de Libertação Farabundo Martí, a primeira organização armada de esquerda em El Salvador que viria a fazer parte da FMLN.

Apesar do sucesso de Cerén, houve contudo um aspeto negativo da paz em El Salvador - e também na Guatemala, onde a população recusou num referendo em 1999 os acordos de paz negociados com a Unidade Revolucionária Nacional Guatemalteca (partido com fraca representação na Assembleia). Ao contrário do que acontece agora com a Colômbia, onde está previsto um apoio aos ex-guerrilheiros, este não se verificou noutros países da América Central. Os ex-guerrilheiros acabaram por entrar em grupos criminosos, responsáveis pelas elevadas taxas de violência que se registam ainda nesses países.

Outro guerrilheiro a chegar ao poder através das urnas foi José Mujíca, presidente do Uruguai entre 2010 e 2015, que fez parte da guerrilha urbana Movimento de Libertação Nacional-Tupamaros. Passou mais de 15 anos na prisão, só sendo libertado com o regresso à democracia parlamentar, em 1985, quando os Tupamaros deixaram as armas e entraram na luta política. Juntaram-se à Frente Ampla, que chegou pela primeira vez ao poder em 2005 com Tabaré Vázquez (que agora está novamente no poder).

Também o presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, passou das armas para as urnas. A diferença é que chegou pela primeira vez ao poder precisamente após a revolução liderada pela Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN), que derrubou a ditadura dos Somoza, em 1979 - como Fidel Castro, após a Revolução Cubana. Derrotado nas eleições de 1990, após anos a enfrentar a luta armada dos Contras (financiados pelos EUA), Ortega e a FSLN voltariam ao poder em 2006, sendo reeleito em 2011.

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