"Os evangélicos visam conquistar a presidência"

Coautora de quatro livros sobre a relação entre política e religião, Christina Vital da Cunha, professora na Universidade Federal Fluminense, fala da estratégia dos pentecostais para 2018, da sua agenda conservadora, a propósito da eleição de Marcelo Crivella no dia 30 de outubro.

A notícia de que um bispo da IURD venceu as eleições municipais do Rio assusta quem observa a realidade do Brasil no exterior. É caso para tanto?

Mesmo com o estabelecimento do Estado laico no Brasil, a partir da primeira Constituição republicana em 1891, a Igreja Católica esteve próxima do poder. Vários dos presidentes brasileiros foram católicos. No Brasil, parte do incómodo com o crescimento dos evangélicos a partir dos anos 1990 deriva de um sentimento de invasão. Somado a isso, o comportamento de evangélicos na política vem causando indignação porque legislam muitas vezes a favor da imposição de valores cristãos. Ora, mesmo num país de maioria cristã, a defesa desses valores muitas vezes confronta direitos de minorias. A preocupação de muitas pessoas é também com o tipo de gestão: favorecimento das elites, gentrificação, neoliberalismo. Por outro lado, alguns setores das telecomunicações no Brasil estão preocupados com a ascensão da IURD porque eles detêm meios de comunicação [rede Record] que rivalizam com emissoras já consolidadas [como a Globo, por exemplo]. Há muitos interesses que se somam na antipatia ao crescimento de Crivella. Mas uma camada significativa da população quer apenas o que ele prometeu na campanha: cuidado e gestão eficiente.

Acusações de que Crivella tem apoios no crime organizado e nas milícias têm justificação?

Temos de considerar que as milícias [grupos de cidadãos armados que combatem o crime mas compostos em muitos casos por criminosos] se localizam sobretudo em localidades nas quais predominam aqueles que se declaram evangélicos, e vale lembrar ainda que os moradores de favelas e periferias que não se declaram evangélicos são aderentes a uma gramática evangélica, permitindo-nos falar em "cultura evangélica" nessas localidades. Sendo assim, não é de se estranhar que milicianos e traficantes que moram e atuam aí tenham apoiado Crivella, mesmo sem uma aliança direta com o comando da campanha.

Há muitas lideranças evangélicas. Crivella, Pastor Everaldo, 5.º classificado nas presidenciais em 2014, Celso Russomanno, 3.º nas municipais de São Paulo, Marcos Feliciano e Jair Bolsonaro, potenciais candidatos em 2018, têm um projeto político comum ou são rivais entre eles?

A ascensão da IURD vem consolidando no meio evangélico uma oposição entre "nós" e "eles" no qual o "eles" é a IURD e o "nós" todos os outros - isto em termos das lideranças, pois os fiéis no seu dia-a-dia estão pouco preocupados com isso. Mas, muito recentemente, desde 2014 principalmente, estamos vendo a organização de evangélicos em torno de um projeto que visa o alcance de executivos nos níveis municipal, estadual e federal, ou seja, a presidência da República.

O primeiro investimento evangélico foi no legislativo - a poderosa Bancada da Bíblia. Agora será o executivo. E depois, o judicial?

Não há como controlar o judicial. A independência entre os poderes é um facto. Mas os evangélicos entenderam, como outros setores da sociedade que disputam o poder no Brasil, que assumir o executivo é um meio eficiente de influenciar o judicial.

Lula, Dilma e Temer procuraram o apoio do PRB, do Bispo Crivella. Os partidos tradicionais precisam cada vez mais dos evangélicos?

O associativismo religioso é muito forte e os candidatos buscam-no. Querem reunião de pessoas para se apresentarem a elas. Quanto mais coeso este grupo, melhor para os políticos porque a probabilidade de adesão aos seus nomes via indicação das lideranças é muito grande. Mas todos os especialistas sabem que a dinâmica do voto não é tão rastreável e evidente. As pessoas na hora de votar, sobretudo as de menores rendimentos, votam menos conforme convicções ideológicas e mais conforme o que acham que será melhor para as suas vidas quotidianas. Se houvesse uma relação imediata entre religião e voto, ou Crivella já teria ganho na primeira eleição, porque seria um candidato cristão, ou nunca seria eleito, porque os evangélicos não são maioria nem no Rio de Janeiro nem no Brasil.

A influência evangélica na sociedade brasileira é só negativa, como se sente no estrangeiro, ou tem pontos positivos?

Não há nada em termos sociológicos que seja somente negativo. Os evangélicos têm uma capacidade muito positiva de organização. Atuam oferecendo assistência social e psicológica a presidiários e presidiárias, aos moradores de favelas e periferias. Fizeram pelas camadas mais pobres o que o Estado no Brasil se negou a fazer. Por outro lado, o crescimento dos evangélicos e o lugar que assumem na vida pública vem revelando o segredo público nacional da histórica relação entre poder e religião no Brasil. Antes, isso passava despercebido porque era constitutivo das relações sociais, culturais e da própria configuração do poder. Agora não. Eles também querem o seu quinhão.

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