ONU teme nova crise de refugiados após início da batalha por Mossul

Na cidade controlada pelo Estado Islâmico, há cerca de um milhão de civis que estão proibidos de sair e que o grupo terrorista pode transformar em escudos humanos. Cem mil podem fugir para a Síria e para a Turquia, diz ACNUR

Abu Maher esperava este dia há meses e contou por telefone à agência Reuters como fortificou uma sala de casa com sacos de areia e removeu tudo o que é inflamável ou perigoso, à espera dos bombardeamentos. A maior parte do dinheiro que tinha foi usado para comprar comida, leite de bebé e outras coisas que a família poderá precisar durante a batalha pela reconquista de Mossul, a segunda maior cidade iraquiana que está há mais de dois anos nas mãos do Estado Islâmico. A ofensiva começou ontem, mas deve demorar semanas ou até meses, e os civis - as estimativas mais altas falam em 1,5 milhões de pessoas - estão proibidos pelo grupo extremista de sair. As Nações Unidas temem uma nova crise de refugiados.

O Alto Comissariado da ONU para os Refugiados (ACNUR) acredita que cem mil iraquianos poderão fugir para a Síria e ou para a Turquia, de forma a evitar os combates que já estão às portas de Mossul e serem transformados em escudos humanos pelo Estado Islâmico. Por isso, a agência lançou um apelo de mais 61 milhões de dólares (elevando para 196 milhões os pedidos) para garantir a compra de tendas, fogões e outros bens necessários para enfrentar o inverno. Atualmente, já há três milhões de deslocados internos no Iraque (quase um em cada dez habitantes).

"Anuncio o início das operações heroicas para vos libertar do terror e da opressão do Daesh", disse o primeiro-ministro iraquiano Haider Abadi, numa declaração televisiva, usando o acrónimo em árabe do Estado Islâmico. "Vamos encontrar-nos em breve no terreno em Mossul para celebrar a vossa libertação e a vossa salvação", referiu. Mas o caminho que os mais de 40 mil militares iraquianos e aliados têm pela frente é complicado.

A segunda maior cidade do Iraque, Mossul caiu às mãos do Estado Islâmico em junho de 2014 e, pouco depois, a partir da Grande Mesquita da cidade, o líder do grupo, Abu Bakr al-Baghdadi, declarou a criação de um califado no território iraquiano e sírio entretanto conquistado. A perda de Mossul seria um golpe para o grupo extremista sunita, que perderia a sua principal base no Iraque e ficaria apenas com a cidade de Raqqa, na Síria. "Este é um momento decisivo na campanha para dar ao ISIL uma derrota duradoura", indicou em comunicado o secretário da Defesa dos EUA, Ash Carter, usando outra sigla para designar o Estado Islâmico. Os norte-americanos reforçaram o contingente no país, além de ajudarem com os ataques aéreos.

A defender Mossul haverá entre quatro mil e oito mil combatentes e, a avaliar pelo que aconteceu em Tikrit ou Ramadi (reconquistadas em março de 2015 e fevereiro de 2016), minas e bombas espalhadas pelos principais acessos. O grupo também usa atiradores furtivos, que podem ter como alvo os militares mas também os próprios civis que tentem fugir - há postos de controlo para evitar que tal aconteça.

Problemas sectários

A batalha de Mossul envolve vários atores que, muitas vezes, têm interesses divergentes: o exército iraquiano, forças de elite antiterroristas, a polícia federal e local, as milícias xiitas apoiadas pelo Irão e as milícias curdas peshmerga que têm o apoio dos norte-americanos. Há ainda tropas turcas numa base no norte do Iraque à espera de poder atuar para libertar Mossul, apesar de Bagdad exigir a sua retirada. Ancara quer participar para limitar o crescimento dos curdos (que reclamam parte do território turco) e procurar alargar a sua influência à região.

Para evitar problemas na recuperação da cidade de maioria sunita (noutras cidades houve denúncias de violações dos direitos humanos por parte das milícias xiitas), o primeiro-ministro já indicou que só o exército e a polícia iraquianos entrarão nas cidades. A norte e leste, os peshmerga anunciaram ontem ter controlado as nove aldeias previstas no primeiro dia de ofensiva, com o apoio dos ataques dos militares iraquianos a partir do sul - o que será a primeira vez que ambos cooperam contra o Estado Islâmico.

Os curdos vão ficar também responsáveis por fazer uma triagem dos civis que consigam fugir de Mossul. Isto para garantir que não há combatentes entre eles, havendo relatos de residentes de que alguns estão a cortar as barbas para poderem escapar.

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