"ONU e NATO continuam a ter um papel fundamental"

Fernando Chaves, analista de risco da consultora Marsh & McLennan Companies, uma das empresas responsáveis pelo relatório "The Global Risks Report 2017", apresentado em cada edição do Fórum Económico Mundial de Davos, destaca a importância de perceber como vai atuar a administração de Donald Trump para entender o que vai suceder ao longo do ano.

O futuro da União Europeia e as relações dos EUA com o resto do mundo vão ser fatores determinantes no curto e médio prazo na conjuntura internacional?

A curto e médio prazo é, de facto, muito importante perceber que promessas eleitorais Trump irá pôr em prática, perceber o efeito brexit e os resultados das próximas eleições nalguns dos países da União Europeia (UE). Mas não podemos esquecer o papel crucial de outros atores como a Rússia e a China neste xadrez. Devemos ainda observar, com atenção, o que ocorrerá na região do Médio Oriente, seja nos países em guerra, como a Síria, seja noutros, como a Turquia ou os países árabes, seja pelo seu peso geoestratégico e/ou pela relação direta com o comércio internacional, infraestruturas e indústria do petróleo e gás. Também não podemos ignorar o peso que os riscos ambientais assumiram no top 5 deste ano do "Global Risks Report", assumindo-se não só como fator de destruição e de perdas económicas, mas também de influência nas vagas migratórias e no declínio da qualidade e da quantidade de água potável disponível.

Há real fundamento para fenómenos referidos no relatório, como o populismo e a polarização em certas sociedades, quer em termos culturais e ideológicos?"

Sem dúvida. Não podemos ignorar os factos. As pessoas estão a enviar uma mensagem clara aos líderes políticos: sentem-se dececionadas e exigem mudanças. Sentem também que passaram a ter o poder de influenciar através das redes sociais. Por outro lado, devemos notar que os agentes políticos já perceberam esse fenómeno e exploram-no cada vez melhor. Mensagens populistas, ataques cibernéticos e manipulação de informação são cada vez mais uma realidade do nosso dia-a-dia. Estes fenómenos são geradores de surtos de instabilidade social e política e têm tido o potencial de criar interrupções na atividade empresarial, distúrbios civis e ataques terroristas, ou até mesmo reversões de políticas governamentais e mudanças de regime.

Donald Trump tem dito que a NATO é uma organização "obsoleta". Tendo como referência esta questão, é o momento indicado para rever toda a arquitetura internacional, tendo presente que projetos como a União Europeia ou a ONU e a NATO surgiram no final da II Guerra Mundial e início da Guerra Fria, quadro que se alterou nas últimas décadas?

O mundo que conhecemos não vai mudar de um dia para o outro só porque alguém o possa ter classificado de obsoleto. Mas não podemos, igualmente, deixar de entender o sinal que nos deixaram os milhões que votaram nesses ideais, seja por profunda crença seja por protesto contra o statu quo. Organizações como as Nações Unidas e a NATO continuam a ter um papel fundamental na ordem mundial. A título de exemplo, o "Global Risks Report" aponta os desafios que a inteligência artificial nos traz. Não é apenas mais um elemento de ficção científica, mas uma realidade que chegou à indústria do armamento e que mudará a forma como as guerras serão travadas. Desde 2014, a comunidade internacional começou a debater a utilização de armas autónomas letais ("robôs assassinos"), na Convenção da ONU sobre Armas Convencionais. Este é apenas um dos exemplos da importância da ONU no equilíbrio de forças, a nível mundial.

Fenómenos como a Quarta Revolução Industrial, o envelhecimento das populações em certos pontos do mundo, a pressão demográfica de populações jovens noutros pontos ou ainda a crescente urbanização são desafios a exigir respostas para as quais as elites, as próprias sociedades e os centros de decisão estão preparados para enfrentar e resolver de forma adequada?

A Quarta Revolução Industrial é, de certa forma, tema recente, tendo a expressão nascido há cerca de cinco anos e surgido no "Global Risks Report" apenas em 2016. Já a pressão demográfica de populações jovens, em contraste com o envelhecimento da população, o desemprego ou subemprego e a tendência para a automação são desafios que se analisam há mais tempo no Fórum de Davos. São dois dos principais aspetos que desafiam as nossas sociedades e os centros de decisão, para os quais não estamos bem preparados, sendo tão complexos os efeitos que podem ter as múltiplas medidas que possam vir a ser tomadas.

A dependência crescente das tecnologias e a dimensão do "mundo digital" podem originar novas formas de fragilidade nas sociedades, tornando-as alvo de terrorismo informático?

Mais do que uma expectativa ou previsão, essa é uma realidade com a qual nos deparamos diariamente, através de um número cada vez maior de notícias. O "Global Risks Report" conclui, avaliando os riscos associados à forma como a tecnologia está a modelar ou remodelar as infraestruturas, que há uma crescente interdependência entre diferentes redes e que isso está a aumentar a amplitude das falhas sistémicas, nomeadamente a partir de ataques cibernéticos.

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