Obama quebra silêncio para apoiar protestos contra Trump

Ex-presidente pronuncia-se contra interdição de refugiados e imigrantes entrarem no país. Decisão da Casa Branca vai a tribunal.

"A decisão não fará qualquer diferença. Os ataques irão suceder a partir da América, feitos por americanos nascidos na América de pais e avôs americanos". A mensagem é do Estado Islâmico e foi divulgada ontem através da aplicação Telegram em resposta à proibição de entrada nos EUA de nacionais de sete países muçulmanos, decidida pelo presidente Donald Trump a pretexto de serem potenciais terroristas.

O desafio do grupo islamita surgiu no dia em que se intensifica a contestação interna e internacional à medida tomada na passada sexta-feira pelo dirigente americano.

Se os islamitas procuraram ridicularizar a medida de Trump, o ex-presidente Barack Obama divulgou um comunicado a apoiar as manifestações contra a interdição de entrada dos nacionais do Iémen, Irão, Iraque, Líbia, Síria, Somália e Sudão. Rompendo uma tradição seguida pelos anteriores presidentes de não se pronunciarem sobre a atuação daquele que está em exercício - como avisou que o faria quando estivessem em causa "valores centrais" dos EUA - Obama afirmou-se "reconfortado com a mobilização das comunidades pelo país fora". É isso que "se espera quando os valores americanos estão em jogo", sublinha o texto. Onde se lê ainda que o ex-presidente democrata discorda, "no plano dos fundamentos, com o conceito de discriminar pessoas em função da fé ou da religião". A intervenção de Obama sucedeu dez dias após a tomada de posse de Donald Trump.

Horas antes, Trump insistira que a interdição temporária à entrada de refugiados e imigrantes daqueles países é mesmo para aplicar, continuavam as manifestações em muitas cidades e aeroportos dos EUA. A medida foi criticada pelos procuradores-gerais de 16 estados, que põem em causa a sua constitucionalidade. Por seu turno, juízes na Califórnia, Virgínia, Massachusetts e nos estados de Nova Iorque e Washington proibiram as autoridades federais de aplicarem a ordem executiva de Trump e grupos de juristas têm-se deslocado a inúmeros aeroportos para prestarem apoio às pessoas que chegam aos EUA com vistos válidos dos países abrangidos pela ordem assinada por Trump na sexta-feira. Esta interdita a entrada de refugiados sírios por tempo indeterminado e os provenientes do Irão, Iraque, Somália, Sudão, Iémen e Líbia por 120 dias. Os imigrantes estão proibidos de entrar nos EUA por 90 dias. O documento prevê exceções para "minorias religiosas" perseguidas nestes países. Ontem, operou-se uma reviravolta no âmbito de aplicação da ordem presidencial, com o responsável pela Segurança Interna, John Kelly, a anunciar uma exceção para os detentores de autorizações de trabalho válidas (os designados "green cards").

O procurador-geral do estado de Washington, Bob Ferguson, anunciou que vai levar aos tribunais federais a ordem executiva de Trump, pedindo a sua revogação. A ação judicial terá o apoio da Amazon e de várias empresas ligadas ao setor das tecnologias.

O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, criticou, de forma indireta, o encerramento das fronteiras dos EUA, declarando que as "africanas permanecem abertas para aqueles que precisam de proteção quando muitas fronteiras estão fechadas, incluindo as dos países mais desenvolvidos do mundo". Guterres, que falava na cimeira da União Africana a decorrer em Adis Abeba, salientou que os países desta região têm-se mostrado dos "mais generosos" para os refugiados. Também a Organização Internacional para as Migrações e a Agência da ONU para os Refugiados, anteriormente chefiada por Guterres, divulgaram um comunicado conjunto, pedindo "que os EUA continuem a ter um papel de liderança (...) e mantenham a sua longa tradição de proteger aqueles que fogem de conflitos e de perseguições".

As repercussões da medida estão a preocupar a diplomacia americana. Fonte do Departamento de Estado, citado pela Reuters, indicava que estavam a ser recebidos comunicações em Washington, provenientes de embaixadas espalhadas pelo mundo, dando conta de insatisfação e mal-estar entre a maioria dos governos estrangeiros pela medida aprovada por Trump.

Num Twitter, o presidente americano defendeu a suspensão da entrada de refugiados e imigrantes. Garantiu que esta "não tem a ver com religião", o islão e muçulmanos, mas para garantir a "segurança" dos EUA. Referiu ainda que a emissão de vistos será retomada logo que "estejam em vigor políticas de segurança mais fortes". O chefe do gabinete de Trump, Reince Priebus, admitiu que outros países, como o Afeganistão, Arábia Saudita, Egito e Paquistão "podiam ser acrescentados" em nova ordem executiva.

A mesma linha de argumento foi reafirmada pelo secretário de Imprensa da Casa Branca, Sean Spicer, dizendo que a medida procura "prevenir" futuros ataques terroristas. Porque "nunca se sabe quando vão suceder e de onde vêm as pessoas" que os vão realizar.

"Não envergonhem a rainha"

A contestação continua a crescer, com manifestações nos EUA e noutras partes do mundo, em especial no Reino Unido, onde se espera uma visita de Trump, previsivelmente na primavera. Largos milhares de pessoas estiveram nas ruas de Londres, Manchester e outras cidades ao mesmo tempo que circulava um abaixo-assinado, intitulado "Não envergonham a nossa rainha", pedindo a anulação da deslocação. Ao final do dia, ultrapassara os 1,3 milhões de nomes.

O nível de insatisfação sobre aquela que está a ser vista como a mais controversa medida tomada até agora por Trump pode ser avaliado pelo debate de emergência na Câmara dos Comuns, ontem em Londres. O ministro dos Negócios Estrangeiros, Boris Johnson, teve de explicar que os detentores de passaportes britânicos, e de uma segunda nacionalidade, não estão abrangidos pela interdição. E, apesar do alinhamento existente entre Londres e Washington, não deixou de dizer que "esta é uma medida que nós nunca aplicaríamos".

Exclusivos

Premium

EUA

Elizabeth Warren tem um plano

Donald Trump continua com níveis baixos de aprovação nacional, mas capacidade muito elevada de manter a fidelidade republicana. A oportunidade para travar a reeleição do mais bizarro presidente que a história recente da América revelou existe: entre 55% e 60% dos eleitores garantem que Trump não merece segundo mandato. A chave está em saber se os democratas vão ser capazes de mobilizar para as urnas essa maioria anti-Trump que, para já, é só virtual. Em tempos normais, o centrismo experiente de Joe Biden seria a escolha mais avisada. Mas os EUA não vivem tempos normais. Kennedy apontou para a Lua e alimentava o "sonho americano". Obama oferecia a garantia de que ainda era possível acreditar nisso (yes we can). Elizabeth Warren pode não ter ambições tão inspiradoras - mas tem um plano. E esse plano da senadora corajosa e frontal do Massachusetts pode mesmo ser a maior ameaça a Donald Trump.