O sonho das borboletas sírias

Três milhões de refugiados no seu território fazem hoje da Turquia o país com mais deslocados de uma guerra sem fim à vista. Prestes a entrar no sétimo ano, a crise síria deixou marcas profundas, no corpo e no ânimo, de muitas vidas destroçadas. De braço dado com os vizinhos turcos e as organizações humanitárias, os refugiados recomeçam do zero, enquanto rezam pelo amanhã, sempre com a Síria no coração

A estrada não chega à casa de Abu Ali. Mesmo os todo-o-terreno da ONU avançam devagar, aos solavancos, pelo descampado de prédios inacabados. Há andaimes, cordas, escadotes, sinais de obras nas fachadas, mas à medida que a distância encolhe, percebemos que são afinal, casas habitadas. Os rostos de três crianças aparecem detrás das grades de uma janela, no rés-do-chão, mal a comitiva abranda junto a um conjunto de casas baixas. Acenam, curiosos, excitados, estridentes. São os primeiros sorrisos que encontramos em Eyüpkent, na província de Sanliurfa, a cerca de 60 kms da fronteira com a Síria. Aqui, vivem mais de 400 mil refugiados sírios, que representam 22% da população - a maior concentração de refugiados na Turquia. Escolhem Sanliurfa (ou Urfa) por ficar junto à fronteira e pelo árabe ser uma língua comum. Foram as razões que trouxeram Abu Ali para Eyüpkent, quando decidiu sair de Alepo com a mulher e os quatro filhos. Na Síria, ficaram os corpos do cunhado e de um primo, vítimas da guerra.

Abu Ali, 35 anos, fala pouco no passado. Saúda-nos ao cimo da estreita escada de pedra, de um prédio que parece parado a meio da construção. No pequeno quarto onde dorme toda a família, há apenas pequenos colchões e tapetes, iluminados pela luz ténue de uma janela alta. A mulher de Abu Ali, Fatma, está coberta por um niqab. Só lhe vemos os olhos, enquanto permanece em silêncio, com o filho de um ano e meio ao colo. Os irmãos, de oito, seis e quatro anos, seguem a conversa com ar assustado. Abu Ali divide a casa com um primo, era a única forma de conseguir pagar a renda de 350 liras turcas (cerca de 100 euros). Não tem emprego, faz apenas trabalhos ocasionais de construção, e por isso, encaixa no perfil dos beneficiários do ESSN, o maior programa de assistência humanitária da União Europeia (UE). A família de Abu Ali foi uma das que estreou em fevereiro, o ESSN, através do cartão Kizilay, carregado com 100 liras por pessoa (ver texto secundário). Depois de pagar a renda, sobrou dinheiro para comprar arroz, açúcar e batatas.

O Kizilay funciona como um cartão multibanco e no final de janeiro apoiava 121 mil refugiados sírios. Para Kamila Mustafá, 46 anos, o Kizilay foi uma tábua de salvação. A antiga professora de Educação Cívica saiu de Raqqa, em junho de 2016, com os três filhos, para arranjar passaportes em Damasco. A família não aguentava a opressão e o custo de vida na cidade. Kamila estava impedida de levantar o salário, "o Daesh fechou todas as escolas, só duas em Deir ez-Zor, continuaram a funcionar na área controlada pelo regime. Depois das escolas, cortaram os telefones. A última coisa que fizeram foi tirar as televisões. Vieram às nossas casas, levaram as televisões e queimaram tudo". Com a cidade cercada, os preços subiam todos os dias e por vezes "só comíamos pão". Para não ser recrutado pelo Daesh, o marido ficou à espera da família em Raqqa, mas após uma semana em Damasco, Kamila percebeu que as economias de 23 anos de trabalho não chegavam para pagar os passaportes e as passagens. Vendeu tudo, exceto a aliança de casamento, e na noite de 29 de junho, apenas com os documentos, o dinheiro e a roupa do corpo, deu início à fuga clandestina rumo a Urfa, onde tinha família. Por duas vezes foram apanhados pelo Daesh e pela troca de tiros. "As balas voavam dos dois lados", lembra Kamila, "e no nosso grupo, uma mulher foi atingida na perna. Ela tinha 70 anos e o filho teve de a levar às costas". Ao nascer do dia, chegaram a uma zona controlada pelos rebeldes, onde se depararam com o primeiro traficante. Pedia 350 dólares por pessoa. Kamila pagou 1400, por si e pelos três filhos. "Só querem dólares e mais dólares. É uma máfia", recorda irritada, depois de se ter cruzado com vários traficantes. O grupo de 50 adultos e muitas crianças seguiu amontoado em duas carrinhas lotadas até às montanhas na fronteira com a Turquia. A escalada a pé e em jejum, em pleno Ramadão, deixou-os exaustos e com feridas nas pernas. Chegaram a Urfa a 3 de julho, duas semanas depois de terem saído de Raqqa, onde Kamila viu o marido pela última vez.

Os três filhos de Kamila nunca foram à escola. Em Raqqa, a antiga professora dava-lhes lições em casa, para evitar a "lavagem ao cérebro" nas madrassas controladas pelo Daesh. Em Urfa, as aulas continuam no apartamento que Kamila divide com a irmã, também ela com três filhos. Os oito pagam uma renda de 500 liras (175 euros), mas sem trabalho, as irmãs Mustafá dependem da ajuda dos vizinhos e agora das 800 liras do cartão Kizilay. "A vida aqui é muito difícil", afirma Kamila, que decidira voltar para Raqqa antes de receber o cartão, mas com o Kizilay, decidiu "ficar e seguir o caminho de Deus".
As dificuldades de quem chega a um novo país, de mãos vazias e alma estilhaçada, levaram a família de Omaima Alnasser a regressar ao campo de refugiados de Akçakale, encostado à fronteira com a Síria. Já lá tinham estado durante dois anos, quando chegaram de Alepo, em 2011. Professora primária, Omaima deu aulas no campo de refugiados até ser contratada como assistente de reabilitação num dos três centros de cuidados primários (PHC) do Corpo Internacional Médico, em Urfa. Mas, sem trabalho, o marido quis voltar para Akçakale, onde se sente mais seguro. "Lá somos todos sírios e onde vivíamos não tratavam muito bem a minha família. Por isso, decidimos voltar", conta Omaima, enquanto cuida de Batoul Alahmad. Atingida com três tiros, dois no estômago e um na perna, a jovem de 22 anos veio de Alepo para a Turquia, em busca de tratamento médico.

A clínica PHC, onde a maioria dos trabalhadores é síria, atende diariamente 250 refugiados. As perturbações mentais sãos os casos mais frequentes: desde depressão, stress pós-traumático e ataques de pânico nas crianças, quase todos estão traumatizados. O assistente psicossocial Mustafá Aloush lembra-se de um menino de 8 anos, de Raqqa: "Ainda tinha medo do barulho dos aviões, mesmo aqui, onde não há perigo. O som continuava a voltar às suas memórias. Tinha ataques de pânico e incontinência urinária." Outros casos vêm da equipa de reabilitação. "São crianças amputadas, com ferimentos graves, que desenvolvem problemas como depressão, luto pela perda dos pais e familiares", explica Mustafá. O antigo engenheiro numa companhia petrolífera em Deir Ez-Zor gostaria de ter um psiquiatra a tempo inteiro na PHC. Nesta altura, há apenas um para as três clínicas em Urfa, para uma estimativa de 30 mil sírios com distúrbios mentais.

A saúde reprodutiva é outro pilar destas clínicas gratuitas, mas as mulheres sírias têm reservas em ser observadas por médicos turcos. Por isso, a Organização Mundial de Saúde e a UE lançaram um programa de treino de médicos, enfermeiros e tradutores sírios. Os primeiros 50 estão a acabar a formação. Entre eles, Imad Ahmed confessa que "estava prestes a arriscar a vida e a dos meus filhos no mar", quando o programa lhe veio dar esperança de voltar a exercer medicina. Natural de Deir ez-Zor, Imad andou um ano entre a Jordânia, o Iraque, o Líbano e a Arábia Saudita, antes de chegar à Turquia há 4 anos. Sem emprego, ajuda a mulher num centro da UNICEF frequentado por 470 crianças sírias. "Abrimos a madrassa em Batman em janeiro de 2014 e quando uma das crianças entrou na sala, começou a abraçar a secretária. Foi muito triste, abracei esta criança e prometi-lhe: "com a vontade de Deus, vamos levar isto até ao fim". Estas são as nossas crianças. É um peso que está nos ombros dos sírios mais qualificados, da Turquia e da UE. Elas vão ser a futura geração na terra síria, os pilares de uma nova nação".


500 mil crianças sírias não frequentam a escola. É o caso de Aisha, nome fictício, que encontramos no centro Al-Farah, em Istambul, um dos cinco centros de apoio às crianças e famílias sírias criados pela UNICEF e pela Associação de solidariedade com os requerentes de asilo e migrantes (ver entrevista). Aisha não saía de casa na Síria. Não tinha amigos e com 12 anos, não sabe ler nem escrever. Em Istambul, foi às aulas durante uma semana, até se esgotar o dinheiro para o autocarro. Antes de descobrir o centro Al-Farah, ajudava a mãe a vender vegetais e a tomar conta dos três irmãos. Agora, participa nas atividades de grupo, enquanto sonha andar na escola e ser advogada, "para trazer justiça para todos". Aisha tenta não pensar na guerra, que a assustava em Alepo e lhe matou uma tia. Mas sem notícias do pai há 4 anos, não hesita quando lhe perguntamos do que sente mais falta: "de o abraçar".


Na livraria Pages, no bairro antigo de Fatih, Gulnar Hajou também se recorda de uma menina que "começou a chorar, porque sentia falta do pai que tinha morrido". A diretora da Pages, que escreve e ilustra livros infantis, saiu de Damasco, em 2011, com as filhas e o marido, um crítico feroz do presidente Bashar Al-Assad. Em Istambul, abriram a primeira livraria árabe da cidade. O espaço acolhedor tornou-se um ponto de encontro da comunidade síria, com aulas de música, concertos e workshops infantis. Gulnar convida os mais novos a ouvir histórias e apanhar sonhos. "Alguns querem ser borboletas, pássaros, médicos, mas também há muitos miúdos que se recusam a sonhar, porque estão tristes". A estes, a escritora lembra que "o povo sírio está aqui. Estamos vivos, amamos a vida, a cultura, a arte. Por isso, peço a todos os políticos, a todos os governos, que pensem mais na Síria. Acabem com a guerra, com as mortes, os assassínios". Como Gulnar Hajou, as crianças sonham escrever o futuro na Síria. "Todos gostamos do nosso país. Quero voltar, para ajudar a consertar e reconstruir o meu país", partilham Mohamed e Ali, ambos de 11 anos, no centro Al-Farah. Em seis meses, foram aqui atendidas cerca de 20 mil pessoas. Mais de metade eram crianças, com idades a partir dos quatro anos. Na sala de atividades, os mais pequenos, como Mohamed, Ali e Aisha, brincam, sonham e, por momentos, esquecem a guerra com um dos seus jogos favoritos: dar asas a borboletas e voar.

Em Sanliurfa e Istambul
(Turquia)

Jornalista da TSF.
Viajou a convite do Centro Europeu de Jornalismo e Comissão Europeia

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