Pai de aluna teria ligações ao assassino do professor Paty

Investigação prossegue após quatro dias do ataque ao docente. Ilegalização de associações islamistas a caminho, antes de uma lei que vai reforçar a laicidade do Estado e atacar o separatismo.

Quatro dias após o choque causado pelo assassínio do professor de História e Geografia Samuel Paty, em Conflans-Sainte-Honorine, nos arredores de Paris, a investigação policial concentra-se nas circunstâncias da morte. Os investigadores encontraram um nexo entre o assassino e o pai de uma aluna.

Uma fonte próxima do caso disse à AFP que entre as 16 pessoas sob custódia policial cinco são alunos. A polícia acedeu às mensagens trocadas no WhatsApp entre Abdullakh Anzorov, o checheno russo de 18 anos que decapitou o docente, e o pai de uma aluna de 13 anos que tinha apelado à ação contra Paty. Este pai, Brahim Chnina, estava acompanhado pelo militante islamista Abdelhakim Sefrioui quando foi à escola falar com a direção e exigir a suspensão do professor e ameaçar com uma ação judicial contra o estabelecimento.

"Um velho defensor do islamismo em França", um "agit-prop islamista, pode ser tão associado à extrema-direita antissionista como aos salafistas", é como Bernard Godard, ex-especialista em islamismo do Ministério do Interior, classifica Sefrioui ao Le Monde.

O vespertino recorda que este islamista, em atividade desde o final dos anos 1980, foi responsável por manifestações contra imãs com posições moderadas. Pró-palestiniano extremista, Sefrioui fundou o Collectif Cheikh Yassine (em homenagem ao fundador do movimento terrorista Hamas). Na terça-feira, o próprio presidente, Emmanuel Macron, anunciou que aquela associação iria ser encerrada.

A investigação também está a tentar compreender como é que Anzorov identificou o professor, isto é, se foi "indicado" ao terrorista por um ou mais alunos, e se a troco de dinheiro. O círculo familiar de Anzorov também se encontrava detido e a ser interrogado pela polícia.

Onze dias até ao atentado

No dia 5, Samuel Paty dá uma aula sobre liberdade de expressão e laicidade a uma das suas turmas e mostra-lhes uma caricatura do profeta, do Charlie Hebdo. Pouco antes, sugere a quem não quiser para desviar o olhar, independentemente da religião.

No dia 6, o professor dá a mesma aula a outra turma. A filha de Brahim Chnina, o homem que vai queixar-se num vídeo a pedir a exclusão de Samuel Paty, faz parte desta classe, mas ela não foi à aula.

No dia 7, a direção da escola decidiu suspender a rapariga por dois dias por razões disciplinares não relacionadas com a aula de Samuel Paty, a que ela não tinha assistido.

Chnina disse estar convencido pela sua filha de que o professor tinha pedido aos estudantes muçulmanos que abandonassem a sala de aula, e que a sua filha se recusou a fazê-lo, o que teria originado a sua suspensão, e publicou uma mensagem no Facebook a pedir a expulsão do professor.


No dia 8, o pai foi à escola, acompanhado por Abdelhakim Sefrioui, que o tinha contactado na noite anterior, após o seu post no Facebook, para o acompanhar nos seus esforços.

O pai apresentou uma queixa por distribuição de imagens pornográficas a menores. Publica um vídeo no Facebook no qual dá a sua versão distorcida dos factos.

No dia 9, um inspetor foi enviado à escola para se encontrar com o professor e a direção. Todos estavam preocupados com a difusão do vídeo, bem como o conteúdo de alguns dos comentários.

No dia 12, Samuel Paty confidenciou a alguns colegas da escola que se sentia ameaçado. Nesse dia, foi publicado um segundo vídeo, desta vez por Abdelhakim Sefraoui.

No dia 13, Samuel Paty apresentou uma queixa por difamação pública.

Na sexta-feira, 16, o terrorista Anzorov vai a Conflans-Sainte-Honorine. Um estudante conta que por volta das 14.00, nos arredores da escola, o homem deu-lhe dinheiro em troca da identificação de Samuel Paty. Às 16.57, o terrorista publica uma mensagem com uma fotografia a mostrar Samuel Paty decapitado e a ameaçar o presidente Emmanuel Macron.

Guerra contra os inimigos da república

O ministro do Interior Gérald Darmanin prometeu liderar "uma guerra contra os inimigos da república" e lançou uma série de operações contra o islamismo.

Na segunda-feira anunciou que tinha pedido ao prefeito do departamento de Seine-Saint-Denis para fechar a mesquita de Pantin, que tinha transmitido na sua página do Facebook um vídeo a condenar as aulas de Samuel Paty.

A mesquita estará encerrada pelo menos durante seis meses e junta-se a uma outra operação realizada em Bobigny, perto de Pantin, no dia 8. Uma escola corânica, ou madraça, clandestina, foi encerrada. Entre as dezenas de crianças que estavam a ser "escolarizadas" em árabe e na religião maometana estavam os filhos do imã. "As crianças de 2 a 6 anos usavam o véu islâmico, não tinham recreio, nem janelas, nem professores", disse o ministro.

Desde o início do ano foram encerradas 73 mesquitas ou madraças ilegais em França.

Darmanin disse ainda que 51 associações próximas do "islamismo radical" estavam na mira do governo e anunciou que várias delas seriam dissolvidas pelo Conselho de Ministros, caso do Collectif contre l'Islamophobie en France (CCIF) e a BarakaCity.

"Temos de deixar de ser ingénuos e enfrentar a verdade: não há lugar para o islamismo radical", disse Darmanin.

O fundador e líder da organização de caridade BarakaCity, Idriss Sihamedi, foi detido na semana passada.

Em 2014 a BarakaCity foi suspeita de financiar grupos terroristas na guerra da Síria através da operação Perle d'Espoir. Mas em 2019, a investigação foi encerrada.

A associação BakaraCity anunciou que vai contestar em tribunal a medida, enquanto a CCIF rejeitou ter transmitido mensagens que circulavam sobre Paty antes do seu assassínio.

"O ministro do Interior é louco, e está a aproveitar-se da emoção suscitada pela tragédia de Conflans para tirar partido do facto de não ter encontrado nada contra a nossa ONG", contra-atacou a organização BarakaCity no Facebook.

Na terça-feira de manhã, os diretores em França das principais redes e plataformas sociais reuniram-se com a ministra para a Cidadania, Marlène Schiappa, para encontrar formas de melhor combater o "ciberislamismo".

A este propósito, os colegas de Samuel Paty expressaram, numa declaração, a sua "profunda preocupação com o impacto das redes sociais". "A rapidez com que a informação é divulgada ao maior número de pessoas, e a sua natureza irreversível, são um verdadeiro flagelo no exercício da nossa profissão", disseram os professores.

Entretanto, as homenagens continuaram em memória de Paty, com uma marcha organizada na terça-feira em Conflans-Sainte-Honorine, em frente ao colégio onde ensinava. O Pparlamento observou um minuto de silêncio enquanto o Tribunal Criminal Especial de Paris, onde 14 pessoas estão a ser julgadas pela ligação aos atentados de janeiro de 2015 (Charlie Hebdo e supermercado Hyper Casher), prestava homenagem ao professor de História e Geografia.

Iluminismo contra obscurantismo

Na quarta-feira, na presença do chefe de Estado francês, Samuel Paty vai ser objeto de uma homenagem nacional no pátio da Universidade Sorbonne. Irá receber a Ordem das Palmas Académicas, o mais alto galardão que distingue professores franceses, e a medalha da Ordem Nacional da Legião de Honra.

A universidade escolhida, representativa dos iluministas franceses e da educação, "é emblemática do que Samuel Paty representa hoje", assinalou o ministro da Educação, Jean Michel Blanquer. "A Sorbonne encarna a importância do que acontece neste momento, isto é, o conhecimento, a transmissão do saber e de valores", disse à BFMTV..

No domingo, dezenas de milhares de pessoas já se tinham reunido em toda a França para defender a liberdade de expressão e dizer não ao "obscurantismo".

Mais do que agir contra esse obscurantismo, Emmanuel Macron anunciou no início do mês uma nova lei contra o "separatismo". Cinco dias depois, o ministro do Interior corrigiu a mira e disse que o projeto de lei é de reforço da laicidade e dos princípios republicanos. "A ideia era de facto lutar contra o principal separatismo que é o islamismo radical, mas este não é o único alvo do texto que se dirige a todos os cultos, contra todos os movimentos sectários, e impõe neutralidade política e religiosa", justificou Darmanin.

O reforço da lei da laicidade, datada de 1905, prevê, por exemplo, a proibição de fazer política nos locais de culto, e o seu desrespeito terá sanções penais. Os dirigentes de associações religiosas estarão obrigados a um cadastro limpo no que respeita a radicalização, apologia ou cumplicidade no terrorismo. O projeto de lei irá a Conselho de Ministros no dia 9 de dezembro.

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