O que é que um espelho, uma espada e uma gema tem a ver com a coroação do novo imperador do Japão?

A tradição dura há séculos mas existe um grande mistério em volta dos três objetos. O que significam? Onde estão? Será que ainda existem? Ainda importam?

O imperador japonês, Akihito abdicou do trono esta terça-feira e terminou com a era imperial "Heisei", que significa conclusão da paz. Na quarta-feira, dia 1 o príncipe Naruhito irá ascender ao lugar do pai e iniciar uma nova era, conhecida por "Reiwa", que significa bela harmonia.

As cerimónias que se seguem - abdicação de Akihito e coroação de Naruhito - serão feitas de acordo com os rituais xintoístas e três símbolos que as acompanham há séculos. Um espelho, uma espada e uma joia são três objetos essenciais para proceder à mudança de imperador.

Conhecidos como Tesouros Imperiais ou Regalia, a população acredita que estes objetos permitem manter uma ligação com o passado imperial. Acredita-se que os objetos provêm dos deuses que decidiram entregá-los aos seus descendentes direitos, os imperadores japoneses, logo é uma parte essencial para realizar a mudança de uma era imperial.

Os tesouros atuam como símbolo do poder do novo imperador. Em vez de uma coroa, como nas monarquias, o imperador é "corado" com os Tesouros Imperiais. Os objetos são considerados tão preciosos que os originais nem sequer serão utilizados na coroação. Recorre-se a réplicas do espelho, da espada e da joia que nem sequer serão vistas. Os verdadeiros objetos encontram-se espalhados por santuários de todo o país e nem o imperador teve a oportunidade de os ver.

Yata no Kagami ou espelho de oito lados - espelho sagrado

O único objeto que não esteve presente na última cerimónia em 1989, quando Akihito foi corado, é considerado o objeto mais precioso do trio, de acordo com afirmações de Shinsuke Takenaka do Instituto da Moralogia - um corpo japonês que pesquisa ética e moralidade, à BBC. Acredita-se que o espelho tem o poder divino de revelar a verdade e é representativo da sabedoria do imperador.

Segundo o livro mais antigo da história do Japão, conhecido como Kojiki, o registo escrito da história e lenda japonesa, o Yata no Kagami foi feito pela divindade Ishikoridome. Conta a história que depois de uma luta entre a deusa do sol, Amaterasu e o deus do mar e das tempestades, Susanoo, a deusa fechou-se numa caverna e levou toda a luz do mundo consigo.

Susanoo organizou uma festa para atrair a sua irmã com o intuito de resolverem as coisas e fazer a luz regressar ao mundo. A deusa do sol ao chegar ficou deslumbrada por ver o seu reflexo no espelho e tudo acabou por voltar ao normal.

O Yata no Kagami acabou por ser transmitido pela deusa do sol ao seu neto, Ninigi que é conhecido no Japão por ser o bisavô do primeiro imperador do Japão em 660 a. C. Quando lhe entregou o objeto sagrado, Amaterasu pediu-lhe para servir o espelho como se fosse a alma da deusa e da mesma forma que ele sempre a serviu "de mente e corpo limpos".

Apesar de não haver uma data certa para a primeira vez em que o objeto foi utilizado, acredita-se que o espelho sagrado tenha mais de mil anos e que se encontre no Ise Grande Shrine, em Mie mas não é certo.

Kusanagi no Tsurugi - a espada sagrada

A espada é conhecida por representar a bravura do imperador. Segundo conta a lenda, a espada sagrada cresceu na cauda de uma serpente com oito cabeças enquanto esta devorava as filhas de uma família rica.

Com apenas uma filha viva, o pai das crianças pediu ajuda ao deus do mar e das tempestades e prometeu que se este o ajudasse casaria a jovem. Susanoo respondeu ao pedido do pai desesperado, embebedando a serpente, cortou-lhe a cauda, onde encontrou uma espada. O objeto ficou com Susanoo durante algum tempo, mas acabou a ser usada também para a reconciliação com a sua irmã Amaterasu.

Acredita-se que a espada sagrada se encontra no Santuário Atsuta, em Nagoya mas alguns duvidam da sua existência, visto ser um dos objetos sobre os quais se sabe menos. No período Edo - entre o século 17 e 19 - um padre acabou por ser banido por ter confessado ter visto a espada sagrada, o que pode ter gerado um receio ainda maior de falar do objeto e do seu paradeiro.

Alguns rumores afirmam que o objeto foi perdido no mar durante uma batalha do século 12, mas Takenaka do Instituto de Moralogia defende que pode ter sido uma cópia e que existe outra cópia do objeto sagrado a ser utilizada nas coroações.

Yasakani no Magatama - a joia sagrada

Magatama significa "joia em forma de gancho" e apareceu no Japão por volta dos 1000 anos a. C. A joia verde representa a benevolência que é exigida por um imperador.

Segundo a lenda, o Yasakani no Magatama fazia parte de um colar feito por Tamanooya-no-Mikoto e foi utilizado pela deusa da alegria, Ame-no-Uzume. A deusa desempenhou um papel importante na história de Amaterasu e Susanoo, que fez a deusa do sol voltar a iluminar o mundo. Uzume realizou uma dança extravagante, usando as contas, para comover e atrair a atenção da deusa do sol durante a festa.

Dos três objetos este é o único de que a existência e a localização são certas. A joia encontra-se no palácio imperial de Tóquio.

Os japoneses acreditam nos tesouros?

A opinião da população japonesa encontra-se dividida: enquanto muitos continuam a acreditar no poder divino dos três objetos, muitas pessoas olham para eles apenas como um ornamento, como a coroa nas monarquias.

Segundo o professor Kawanishi, o espelho, a coroa e a joia mostram "o mistério do imperador" e são considerados um símbolo representativo da história e do sistema japonês que se mantém há séculos. Já Takenaka defende outra teoria. O homem acredita que os objetos representam a fusão dos grupos indígenas japoneses antigos com os recém-chegados e mostra que o imperador deve unir os grupos étnicos sem discriminação.

Nos dias de hoje, os imperadores japoneses não se consideram deuses e admitem-no publicamente. Esta mudança e o passar dos séculos tem vindo a alterar a mentalidade de muitos japoneses e a expressão "três tesouros" já não é tão associada ao espelho, à espada e à joia mas sim a objetos do dia-a-dia, sem os quais não podem viver - a máquina de lavar roupa, a televisão e o frigorífico.