O problema não é os 20 km do míssil russo, são os mísseis chineses

Parece impossível um tratado trilateral, pois a China não aceitará tratamento desigual, apesar de ter bastante menos ogivas que Estados Unidos e Rússia.

Reagan morreu há 15 anos e mesmo que Gorbachev esteja ainda vivo e fale agora do risco de nova corrida aos armamentos, o tratado INF assinado pelos dois estadistas e que os atuais líderes americano e russo ontem rasgaram pertencia a uma época que já não existe. Quando o INF, que proíbe mísseis nucleares de alcance intermédio, nasceu estávamos a caminho do fim da Guerra Fria, com a supremacia dos Estados Unidos sobre a União Soviética a ser óbvia e Gorbachev esforçando-se por um entendimento com Reagan que lhe permitisse alguma margem em casa para tentar salvar o comunismo. Nesse ano de 1987, só para mostrar como foi há uma eternidade, a China já tinha começado as reformas económicas, mas contava tão pouco no plano mundial que as superpotências nem pensaram nela quando negociaram o INF, apesar de ter a arma nuclear desde a era de Mao.

Trump tinha falado já de abandonar o INF há meses, mas a ameaça de rutura remonta a Obama. Putin, a partir de certa altura, declarou que também denunciaria o tratado que visava impedir que mísseis com alcance entre 500 e cinco mil quilómetros fossem instalados na Europa, palco potencial de uma Guerra Fria transformada em Guerra Quente. Os americanos insistem que os russos estão a desenvolver um tipo de míssil que viola o INF, estes negam dizendo que o 9M729 só voa 480 quilómetros.

Seja ou não Gorbachev apocalíptico, seja ou não Guterres exagerado quando, em nome da ONU, fala do fim de um travão à guerra nuclear, a verdade é que seria ridículo que EUA e Rússia, herdeira do arsenal nuclear soviético, se desentendessem por causa de 20 quilómetros. Na realidade, embora os sinais de competição entre a Casa Branca e o Kremlin tenham aumentado desde a crise da Crimeia em 2014, é na China que os sucessores de Reagan e Gorbachev estão a pensar. A América, mais transparente, já mais do que uma vez insistira na necessidade de estender o INF à China, mas sem qualquer sinal positivo do país liderado por Xi, e com justificação.

Nestas mais de três décadas, a ascensão chinesa tem sido impressionante do ponto de vista económico. E do ponto de vista militar deixou de ser o anão que era em 1987, quando além da arma nuclear só contava com o número de soldados. Hoje a China é uma potência militar de respeito, e se o seu orçamento de Defesa ainda é um terço do americano, por outro lado, é três vezes o da Rússia, sua aliada de conveniência nesta era de desafio à supremacia global dos Estados Unidos, mas tradicional rival geopolítico.

Sem restrições, a China tem reforçado a sua capacidade com mísseis de alcance intermédio, vitais em futuros conflitos no mar do sul da China e proximidades. Poderá ou não estar a armá-los com ogivas nucleares, mas isso é desconhecido. O INF não proibiu os mísseis em aviões, navios ou submarinos, e tanto americanos como russos tinham-nos. Mas agora, mais do que na Europa, talvez estes mísseis de alcance intermédio terrestres surjam na orla marítima da Ásia Oriental ou na Rússia asiática. Veremos.

Parece impossível um tratado trilateral, pois a China não aceitará tratamento desigual, apesar de ter bastante menos ogivas, e nem os Estados Unidos nem a Rússia estarão dispostos a aceitar a China como um igual nestas matérias.

E no horizonte está já o Novo Start, tratado nuclear ainda mais importante: expira em 2021.