O padre jesuíta que aprendeu a ter medo na Síria

Entrevista ao padre Gonçalo Castro Fonseca, jesuíta português que está a viver em Damasco. Diz que na Síria aprendeu a ter medo.

O padre Gonçalo "é um homem do mundo", como diz ser qualquer jesuíta. É de Lisboa, vive na Síria desde setembro, mais concretamente em Damasco, onde é o responsável por um centro para crianças. Trata-se de uma escola informal "para dar futuro" aos filhos dos deslocados. São uma gota entre os 6,6 milhões de deslocados internos num país de onde 5,6 milhões simplesmente fugiram. Ele ficou, apesar dos bombardeamentos. Foi quando conquistou definitivamente a população, mas aprendeu a ter medo, a saber o que significa um frio no estômago.

A imagem que se tem da Síria é de um país destruído.
É verdade, mas não é tudo.

O que é que falta nesta imagem?
É um país em ruínas, mas com vigor para se reconstruir. Quando digo em ruínas não tem a ver só com o espaço físico, tem também, a ver com vidas, vidas arruinadas. Qualquer sírio tem uma história de perda, alguém que morreu, que teve de fugir. Mas iria pôr a tónica na reconstrução.

Fala no passado, mas ainda é presente.
É verdade, infelizmente é presente para muitos. Sei que em várias povoações, sobretudo junto às fronteiras, o combate continua ativo. Mas na cidade de Damasco, nas grandes cidades, onde a guerra esteve muito forte, já não está.

Conseguem trabalhar, ir às compras, recuperar rotinas?
A guerra começou há oito anos. Nos primeiros anos, ao que parece, ninguém saia de casa com medo, estava tudo fechado. A sociedade paralisou à espera que a guerra terminasse, só que a guerra não terminou e as pessoas começaram a vencer medos. Recomeçaram a fazer a vida normal, sempre com a guerra à porta. No início de 2017, com a ofensiva do exército sobre Guta e Al-Hajar al-Aswad [sul de Damasco], cidades que estavam ocupadas pelos rebeldes, voltaram aos primeiros anos de guerra. A cidade parou novamente, foi mais ou menos até à Páscoa. Agora, voltaram ao normal, ao trabalho, à escola. Ultimamente, até estão a tirar os sinais de guerra, as barricadas, os militares. Mas o grande sinal de guerra são as feridas, por mais que as pessoas procurem viver na normalidade, as consequências são muito fortes.

6,6 milhões de deslocados internos

Milhões de pessoas estão fora de casa.
É outra agravante de Damasco; os deslocados, a população com quem trabalhamos. Vieram de povoações que foram dizimadas e procuraram refúgio na cidade, que está sobrepovoada, sobretudo os bairros da periferia por serem mais acessíveis. Vivem em muito más condições, numa divisão podem viver quatro famílias.

Vivem do quê?
Os sírios são muito criativos, facilmente encontram maneira de se sustentar. Não há trabalho e muitas destas famílias vêm sem pai, sem um homem. São as crianças, rapazes de 9 ou 10 anos, que trabalham para sustentar a casa.

Que tipo de trabalho?
No nosso centro, muitos dos nossos miúdos vão aos lixos - às lixeiras, algumas ruas transformadas em lixeiras -, recolher plástico. Vendem pelo que responderá a menos de um euro e com isso sustentam a família.

Não foram à escola

O que é que fazem no centro para crianças?
A nossa aposta neste momento são os serviços educativos, tentar proporcionar às crianças aquilo que perderam nestes anos, muitos não foram à escola, e o sistema não está preparado para acolher crianças de 12 anos na primeira classe. Ou tem esta possibilidade de compensação ou crescem sem saber ler nem escrever.

Têm colaboradores sírios para ensinar árabe?
Sim, eu sou o único estrangeiro. O meu trabalho não é de educação direta com as crianças, faço a gestão do espaço, onde o meu inglês e o pouco árabe que sei é suficiente. Mas estou muito envolvido com as crianças e as famílias.

5,6 milhões de refugiados em outros países

Muitas pessoas têm familiares que saíram?
Sim, saíram para a Europa. Têm esta ilusão da Alemanha, como o paraíso dourado,

Continuam a querer sair?
Sim, os mais jovens querem muito sair, não sentem que tenham futuro na Síria.

Há muitas crianças sem família?
Sem pai, muitas.

Quem é que fica na Síria?
Os mais pobres dos pobres, os que não querem deixar a família,

Qual é a capacidade do centro?
Temos capacidade para acolher 120 crianças por dia, há uma lista de espera enorme, Estamos a construir um novo edifício, o JRS Síria vai fazer uma campanha para angariar fundos, para albergar 400 crianças e ainda haverá lista de espera. Parece imenso, mas é mínimo.

E colaboradores?
Nos quatro centros - Damasco (1), Aleppo (2) e Homs (1) - temos 220 colaboradores, que também viveram e vivem a guerra. Há um envolvimento muito forte, estão a ajudar as crianças e as famílias, mas também se sentem ajudados.

Como é que se conseguem gerir essas emoções?
Tenho aprendido que os sírios têm muito mais forças do que eu, a vida ensinou-lhes a ter força e a ter ânimo. Como se gere isto? Estando lá e procurando viver o que eles vivem. Tem muito a ver com amizade, em primeiro, e o acreditar, em segundo. Na altura pior dos conflitos, podia ter vindo embora e não vim. Isso marcou-os muito.

Porque é que não veio embora?
Não me passou pela cabeça, não os podia deixar sozinhos. Não é por ser herói, para mim, é muito natural pensar: "este é o lugar para estar neste momento".

Como padre jesuíta?
Como jesuíta respondi a um apelo, um apelo interior em primeiro lugar. E, em segundo, a um apelo muito concreto: "É preciso jesuítas nesta região". Foi uma resposta muito trabalhada, muito discernida, muito clara e total. Sempre senti que estava onde devia estar, por mais difícil, exigente e arriscado que fosse. Claro, que sempre tive a preocupação da família, dos amigos.

A mãe e o pai telefonaram a pedir para regressar?
A mãe. Sim, foi-lhe muito difícil, não tanto pela distância, está habituada a que esteja distante, mas por estar numa situação em que não sabia o dia de amanhã. Mas tem sido uma aprendizagem muito grande.

Em Damasco, pode-se circular por todo o lado?
Sim, há zonas interditas mas não é por razões de combate. Até abril/maio era um risco andar na rua, quando percebíamos que os bombardeamentos se intensificavam, fechávamos o centro. Ficar em casa ou no centro tinha o mesmo o perigo, o problema era fazer o caminho, os miúdos ou os colaboradores podiam ser atacados no caminho. Nunca ninguém muito próximo perdeu a vida, mas foram atingidos pelas bombas e ficarem feridos.

Aprender a ter medo

Conseguia pensar a prazo nesses dias?
Não conseguia planear, ainda que tentasse, mas nunca me foi tirado o horizonte, pensava sempre que os bombardeamentos iam acabar. Mas a imprevisibilidade é um drama.

Teve medo?
Aprendi a ter medo, não me acho um corajoso, mas a experiência do frio no estômago, não tinha. Agora, não estava a ver pela televisão, estava lá, no meio da destruição.

O que é que se faz?
Na primeira vez, bloqueei. Depois, garantir que tinha o mínimo de segurança e, em seguida, ver no que é que podia ajudar.

Andou em psicologia, sente-se mais padre ou psicólogo?
Não gosto de me ver como psicólogo, não tenho os instrumentos todos, mas a minha abordagem como padre tem o seu quê de psicologia. Tal como sinto que acontece com os refugiados aqui, sinto que precisam desse apoio. E, nesta fase, a experiência psicológica ainda é de choque.

Quem é que mais facilmente consegue recuperar desse choque?

Tenho pensado muitas vezes nisso. A nossa missão é com as crianças, mas os nossos colaboradores são jovens. Depois, há as famílias das crianças. De algum modo, lidamos com três gerações. Se a guerra terminasse agora, iria ser mais fácil de recuperar para os mais velhos, mais de metade da vida deles foi boa, é voltar atrás nas memórias. Os mais jovens têm boas memórias da infância, mas terão mais dificuldades porque o melhor da vida lhes foi retirado. Estão com 20 anos, com responsabilidades de gente crescida, mas ainda têm horizonte. Vejo muito mais dificuldade nas crianças, não conheceram outra realidade, não têm outra memória, não se podem agarrar a nada, não conhecem outra realidade.

Um caderno é o sonho

O que é que respondem quando se lhes pergunta: quais são os teus sonhos?
Quando chegam, uma das perguntas que lhes fazemos é essa. E as respostas são muito semelhantes, há quem responda "ter um caderno e uma mochila para aprender melhor". O maior sonho de uma criança é ter um caderno, uma caneta e uma mochila. Nasceram na guerra, não tem outras referências.

Qual é o objetivo do vosso trabalho?
Não damos educação formal, não tem equivalência, fazemos atividade de bases educativas para facultar às crianças os ensinamentos básicos de ensino. Até há dois anos, os principais projetos eram de resposta à emergência. Agora, porque já satisfizeram essas necessidades ou porque outras instituições respondem às questões de emergência, a ideia é dar-lhes futuro. Ainda precisam de emergência mas há quem lha dê e também precisam de futuro. Um prato de sopa não lhes dá futuro, é importante, dá força para o dia, mas eles precisam de futuro.

Fazem o mesmo em Homs e Aleppo?
Em Homs já se passou para esta resposta de continuação, em Aleppo ainda damos uma resposta de emergência. Temos uma cozinha, onde oferecemos refeições a cerca de oito mil pessoas por dia, uma clínica, mas são projetos que vão fechar.

Quando fala em ter futuro, fala no imediato?
O imediato ainda é de grande esforço e luta. Mas acredito que tenham um futuro a médio e longo prazo, se calhar, sou um ingénuo, vim de fora, vejo que acredito mais do que eles.

Quem terá razão?
Se calhar, um ano nesta experiência não foi suficiente para influenciar o meu modo de ver as coisas, E eles, de uma maneira geral, habituaram-se a sobreviver cada dia, sem saber o que vai acontecer no dia de amanhã, Vou estar cá? A minha casa vai estar inteira? Oito anos, em guerra, é muito tempo, está incorporado no modo como vivem. .

Vale o Ronaldo

Como é que o veem, faz diferença ser português?
Portugal não é conhecido, vale-me o Ronaldo, mesmo com os miúdos. Apresentava-me: sou de Portugal e, logo a seguir, do país do Ronaldo. Abre imensas portas na conversação e, por isso, não hesitava em dizer: sou do país do Cristiano Ronaldo. Há muito tempo que não vêm estrangeiros. Existe um grupo de estrangeiros que pertencem às Nações Unidas, mas é muito trabalho de escritório, são super protegidos, andam acompanhados, de carro. Eu ando de transportes públicos, públicos é uma maneira de dizer.

Tem a vantagem de fisionomia, passam por sírio.
Sim, mas quando falo, percebem que sou estrangeiro. Fisicamente e da maneira como me visto, não sou uma figura estranha para eles. Há duas dimensões que lhes dá muita confiança: ser padre, o que também passa por estar no terreno e não só no púlpito a falar; a outra, e isso marcou muito os mais jovens, é o facto de ter ficado quando podia ter vindo embora. Marcou-os mais do que ter ido. Podia ter ido à aventura, mas fiquei.

Embaixadas da UE, só a da Polónia e Bulgária

Há outros portugueses?
Não sei. Escrevi para a representação portuguesa a dizer que estava lá, que não se importassem comigo porque estava protegido pela Igreja, mas para saberem da minha presença. E perguntei se havia mais alguém. Não recebi resposta. Em termos das embaixadas da UE, há a da Polónia e da Bulgária.


O que é que podemos fazer que não está a ser feito?
Em Portugal, podemos ajudar financeiramente, mas temos de perceber que há uma comunidade, que são os refugiados, a quem temos de dar voz, são testemunhos. Fazer-lhes a pergunta que me fez. A nível do indivíduo, cada um de nós deve aprender que não podemos dar nada por garantido.

Também aprendeu isso na Síria ou já sabia?
Já sabia, mas ali vivi na pele. Não podemos ter nada por garantido, a roupa que tenho não sei se a vou ter daqui a momentos, chegar a este nível. Genuinamente, o que sinto é que nos falta generosidade, E generosidade não é dar só o que me sobeja, é dar o que nos custa.

Como vê quando se fecham as portas aos refugiados?
Não estão a ser generosos, estão a ver só do lado deles. Custa-me ouvir nas notícias "a crise dos refugiados" quando há ali um povo a sofrer, aquilo sim, é que é crise. Não chamemos crise ao facto de ter mais alguém à comer um prato de sopa à mesa. É da obrigação colocarmo-nos do outro lado, não permitir que essas pessoas percam a dignidade.

Fronteiras abertas?
Não sei se são fronteiras abertas mas permitir uma maior facilidade e melhor gestão. É tempo de sacrifícios. O JRS (Serviço Jesuíta aos Refugiados), e eu, defendemos que se deve ir à origem. Os governos, agora, estão muito interessados nisso mas para se defenderem "da crise dos refugiados". A ação é ótima, a motivação é que é errada. E é preciso reconciliação. A Companhia de Jesus, o JRS, temos projetos para ser uma ação em nome da reconciliação. Sentimos que não é o tempo, mas já começámos a trabalhar nesse sentido.

Aproveitam para fazer catequização?
Não lhe chame catequização. O nosso trabalho não é exclusivo para cristãos ou para muçulmanos, é para quem precisa. Digo, com pena, que somos das poucas instituições confessionais que tem este acolhimento universal. Há muitas igrejas que fazem um trabalho ótimo, mas unicamente para cristãos. E muitas organizações religiosas muçulmanos trabalham só para muçulmanos. A estudar, à mesa, temos muçulmanos e cristãos. Respeitamos, e celebramos, as festas tanto dos cristãos como dos muçulmanos. No nosso trabalho a reconciliação está muito presente, não só entre os povos, como da própria pessoa. E isto nos jovens dá muito trabalho.

Estão muito revoltados?
Muito. Não é uma revolta de angústia, é de tristeza. É um povo muito alegre, aprendo a ser alegre com eles, mas há uma tristeza, tiraram-lhes algo muito importante.

Perfil

- Gonçalo Castro Fonseca tem 45 anos, é oriundo de uma família de Lisboa.

- Tirou Relações Internacionais na Universidade Autónoma e andou em psicologia no ISPA (Instituto Universitário de Ciências Psicológicas, Sociais e da Vida).

- Entrou para a Companhia de Jesus aos 24 anos. Fez o noviciado em Coimbra, estudou filosofia em Braga, teologia em Roma (Itália), especializou-se em teologia estética em Boston (EUA).

- Ordenado padre em 1987

- Ofereceu-se para ser enviado para o Médio Oriente, viagem que iniciou no verão de 2017.

- Passou pelo Egito e viveu três meses no Líbano antes de chegar à Síria.

- Está em Portugal para participar, segunda-feira, na conferência "Não esquecemos a Síria". Ele e o diretor da JRS (Serviço Jesuíta aos Refugiados), o padre Fouad Nakhla, vão apresentar o trabalho desenvolvido. A iniciativa visa, também, pedir apoios monetários para, a construção um edifício em Damasco, um novo centro de dia para crianças.

- Regressa à Síria em meados de agosto.

Outras Notícias

Outros conteúdos GMG