O modo de vida dos pigmeus da RD Congo está a morrer

Afastados da floresta lutam contra a miséria: "Antes tínhamos tudo o que precisávamos para uma vida simples e feliz"

Em Idjwi, a maior ilha da República Democrática do Congo, há um modo de vida que está a morrer. Os Bambuti, um dos vários grupos de pigmeus do Congo, estão entre as mais antigas populações da África central. Durante milénios viveram como caçadores-recoletores, sobrevivendo à base de plantas da floresta, pássaros e macacos.

No meio do lago Kivu, Idjwi foi poupada à devastação das guerras no Leste do Congo. Desde 1996 já morreram milhões de pessoas, principalmente de fome e vítimas de doenças várias. Mas, para os indígenas, foi o crescimento de uma outra cultura que se revelou devastador. Os Bambuti, assim como outros grupos de pigmeus da África central, incapazes de as reclamar legalmente, foram expulsos das suas terras natais - neste caso para ceder lugar para uma população de etnia Bantu, em rápida expansão demográfica, que neste momento representa 95% dos 280 mil habitantes de Idjwi.

Os Bambuti alegam que por volta de 1980 foram expulsos da floresta pelas autoridades locais e pelos chefes indígenas dos Bahavu, um povo Bantu. As terras para cultivo e construção de habitações ficaram também na posse dos Bahavu. Os Bambuti perderam assim o seu modo de vida. Com poucos ou nenhuns bens, sem educação e sem experiência de se sustentarem em ambientes estranhos, a comunidade definhou.

"Na ilha não somos mais do que sete mil, realojados em terras impossíveis de cultivar, espalhados pela costa em campos improvisados nos arredores das aldeias, a viver na miséria absoluta", lamenta Charles Livingstone, o chefe dos pigmeus de Idjwi. A maioria não sabe ler nem escrever e não tem forma de enviar as crianças para a escola. "Antes, na floresta, tínhamos tudo o que precisávamos para uma vida simples e feliz: comida, abrigos, medicamentos e roupas", diz Habimana, uma mulher Bambuti com 45 anos. "A nossa natureza é viver assim."

Adolphine Byaywuwa Muley, chefe de um grupo local para a emancipação das mulheres pigmeu, reconhece que houve poucos avanços concretos desde que ela se tornou ministra da Agricultura e do Ambiente para a província de Kivu do Sul, em 2013, e diz que a falta de terras é a raiz do drama dos Bambuti. As autoridades indígenas de Ijdwi asseguram que os Bambuti venderam as terras. Muley, por seu turno, sublinha que Kivu do Sul era "uma província com disputas de terras por toda a parte e que, por isso, a resposta é sempre que nada pode ser feito".

Gervais Rubenga Ntawenderundi, o chefe indígena Bantu na zona norte da ilha - onde vivem os Bambuti -, rejeita que haja problemas entre os dois grupos étnicos. "Os pigmeus nunca foram expulsos da floresta e sempre viveram desta forma perto das aldeias." Outros Bantu argumentam que a enraizada discriminação contra os pigmeus é uma herança do tempo colonial.

A nível nacional, o Parlamento da República Democrática do Congo inicialmente discutiu uma lei para proteger os direitos dos pigmeus em 2007, mas a proposta continua à espera de ser votada. Enquanto a situação não evolui, os Bambuti ganham a vida na limpeza de campos para os proprietários Bahavu - que frequentemente os tratam com desprezo - e como carregadores. Habimana arranca as ervas das terras onde um empresário Bahavu está a construir um hotel, mas ganha apenas um terço do que recebem os restantes trabalhadores. Tem assim que vender peças de olaria no mercado para ganhar mais algum dinheiro. "Estou habituada", diz. "Somos tratados como sub-humanos."

No campo de Kagorwa, onde cerca de 300 pigmeus originários da floresta Nyamusisi foram realojados, nada cresce do chão e as crianças são esquálidas e subnutridas, subsistindo à base de "sombe" - folhas de mandioca cozidas em água sem sal e sem óleo. "É a única comida que temos em quantidade suficiente", diz Adele, líder do campo. "Já não há pássaros, nem cobras nem macacos." Os pescadores que em canoas saem a navegar lago adentro também não têm mais sorte. No regresso trazem apenas uma mão-cheia de pequenos peixes.

Manguist, um pescador de 24 anos, já desistiu da velha existência Bambuti: "A nossa vida de outrora acabou, mas não merecemos esta miséria. Quero deixar a ilha, ir para a cidade, viver numa casa de tijolo e educar os meus filhos." A ministra Muley acredita que através de pacientes e persistentes chamadas de atenção a compreensão sobre a situação dos Bambuti está a crescer. E explica que o facto de os próprios pigmeus acreditarem que era normal serem discriminados contribuiu para a ideia de que a sua vida tinha menos valor do que a dos Bantu. "Mas os povos indígenas foram ganhando consciência de que têm tantos direitos como todas as outras pessoas."

Jornalista da Reuters

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG