O filho da terra dos dinossauros que a guerra do Vietname levou até San Diego

Nasceu na terra dos dinossauros, Moita dos Ferreiros, Lourinhã, mas emigrou com a família, primeiro para o Canadá, depois para os EUA. A especialização em metais preciosos levou-o até San Diego, na Califórnia, onde trabalhou como soldador de submarinos nucleares durante os anos da guerra do Vietname.

Quarenta e seis anos passaram, mas Barbara Mateus lembra-se bem da noite em que conheceu o marido. "Foi das melhores coisas que aconteceram na minha vida e quando assim é tendemos a lembrar-nos dos pormenores. Foi numa sexta-feira, 6 de agosto de 1971, eu estava num bar de Oceanside [hoje uma zona de surfistas de San Diego] e quase a ir-me embora. Eram 21.30. Mas depois ele chegou e pagou-me uma bebida igual à que eu estava a beber, que era um Screwdriver, que levava vodka e sumo de laranja. Dançámos e no dia a seguir ele levou-me a sair. E foi assim." O que viu em Ermelindo Mateus? A resposta sai pronta e é muito simples: "Apenas gostei dele."

Nessa altura, Barbara, hoje com 69 anos, quase nada conhecia sobre Portugal, o país de origem do marido. "Apenas sabia que era aí que ficava Fátima, pois sou de religião católica", diz ao DN, na marina de San Diego, Califórnia, onde o casal tem atracado o iate Way to Go. Ela prefere expressar-se em inglês, mas Ermelindo, de 72 anos, aproveita a entrevista para treinar o português. "Na altura o que dançávamos eram slows, o twist, swing e rock" n" roll. Agora menos. Se dançássemos mais talvez estivéssemos mais elegantes", afirma o emigrante natural de Moita dos Ferreiros, no concelho da Lourinhã (conhecido pelos fósseis de dinossauros que ali foram descobertos). Barbara, que é natural do estado do Colorado, ficou em San Diego por causa de Ermelindo, pois tinha ido visitar a irmã e pretendia regressar a casa em breve. Ermelindo, por seu lado, tem uma história muito diferente para contar: veio parar a esta cidade californiana por causa da guerra do Vietname.

"O meu pai emigrou em 1953, para Halifax, no Canadá. Só dez anos mais tarde, em 1963, é que nos levou para lá. Eu, a minha mãe e o meu irmão Rui", conta um dos poucos emigrantes que vieram do continente (a grande parte dos portugueses e lusodescendentes que vivem hoje em dia em San Diego são dos Açores ou da Madeira). "Fomos depois para o Quebeque, onde ele trabalhou como operador de comboios nas minas de ferro. Eu e o meu irmão fomos depois estudar metalurgia no Instituto de Tecnologia de Montreal. Especializei-me em metais exóticos, como, por exemplo, o titânio. Como havia a guerra do Vietname, os americanos precisavam de soldadores para os submarinos nucleares aqui em San Diego, na NASSCO, mas não encontravam com facilidade. Então foram lá buscar ao Canadá. Vim eu, o meu irmão e aí mais uns cinco ou seis."

Ermelindo explica que ainda ficou na Marinha dos Estados Unidos "aí durante quase uns nove anos". Foi presidente do sindicato dos trabalhadores metalúrgicos algum tempo. "Quando acabei o contrato no estaleiro, já não continuei lá e fui para instrutor ensinar sobre soldadura de metais exóticos. Isso foi até aos anos 1980." Depois dedicou-se ao imobiliário, que é ainda hoje o negócio em que trabalha. Juntamente com a mulher.

"Ele lida mais com a manutenção e os inquilinos e eu lido mais com os registos e os documentos. Ainda trabalho cinco dias por semana. Se tenho de fazê-lo? Não. Mas quero fazê-lo? Sim. Sempre trabalhei toda a vida. Não me quero reformar. Gosto de tecnologia, de ver qual é o último grito. Gosto de me manter atualizada e de não parar", conta Barbara ao DN. Atualmente têm cerca de 200 apartamentos a alugar na zona de San Diego. Uma renda média para um T2, por exemplo, pode rondar os 1600 dólares (1360 euros).

Além das propriedades imobiliárias, Ermelindo e Barbara têm outros negócios em vários outros sítios. "No Colorado temos um rancho de 350 hectares, chama-se quinta Mateus. Cultivamos lá milho, trigo, alfafa, beterraba. Antigamente tínhamos contrato com a Coca-Cola e eles compravam-nos a beterraba toda para fazer açúcar. Agora produzo mais milho, que é quase tudo para produzir etanol. Na Costa Rica temos uma propriedade de café, vendemos tudo lá através de uma cooperativa que se rege pelos preços do mercado a nível mundial. É como o milho, os preços também variam todos os dias." A isto há ainda a acrescentar o Tesla branco em que se desloca Barbara, o Corvette amarelo conduzido por Ermelindo e o iate Way to Go.

Vai para o mar todos os fins de semana? "No verão sim. Ou quando tenho visitas ou vou pescar. Apanho bacalhau vermelho, atum, apesar disso isto não é um barco de pesca, é só para desporto. Eu sempre gostei muito do mar. A Barbara é que tem mais medo. Quando era pequeno íamos sempre nas férias do verão para a praia da Areia Branca. Acho que todos os portugueses gostam do mar."

Talvez por isso Ermelindo diga que não era capaz de trocar a Califórnia por nenhum dos outros 49 estados dos Estados Unidos da América. E já esteve em todos eles. "Não trocava a Califórnia pela Florida, Michigan, Colorado, Nova Iorque... Todos têm as suas vantagens. Mas sinto-me melhor aqui. É mais parecido com Portugal. O clima. A calma. O meu pai, que faleceu com 85 anos, em 2007, dizia - e eu acho que com razão: Deus fez o mundo em três dias, mas aqui em San Diego esteve um dia e meio." Ermelindo e Barbara têm viajado por muitos países, do Brasil à Venezuela e Nicarágua, passando pelo México ou Panamá. Mas é a Portugal que cultivam a ligação mais forte.

"Vamos a Portugal com frequência, pelo menos duas vezes por ano. Sempre um mês ou cinco semanas. Vamos para Moita dos Ferreiros. Tenho lá casa. Depois vamos para o Algarve. Agora com a autoestrada é mais rápido chegar lá, só demoramos três horas, antigamente demorávamos quase um dia inteiro. Tenho lá um apartamento na Marina de Vilamoura e um barquinho, chamado Mateus", conta ainda o português. Foi em Vilamoura aliás que festejou os seus 70 anos. "Aluguei um barco e convidei todos os meus amigos. Muitos vieram de autocarro de Moita dos Ferreiros."

Na sua terra natal na Lourinhã, Ermelindo e a mulher começaram entretanto a organizar a Festa do Espírito Santo (uma tradição que foram buscar aos emigrantes açorianos nos EUA). "Há cinco anos comecei a fazer lá a Festa do Espírito Santo em Moita dos Ferreiros. Este ano foi no dia 4 de junho. Damos de comer de graça a 400 ou 500 pessoas. São as sopas do Espírito Santo. Organizamos tudo com a igreja de lá e tenho já um grupo de pessoas que me ajuda", vai explicando, enquanto recorda também que ajudou a fundar a banda filarmónica de San Diego. "A União Portuguesa de San Diego tinha madeirenses, açorianos e continentais."

Em Moita dos Ferreiros, explica Ermelindo com orgulho, ele e o irmão contribuíram para a construção de um lar da terceira idade. "É um projeto de que me orgulho muito. Também contribuímos para a manutenção. Temos lá uma pedra com o nosso nome. Continuamos sempre a contribuir para o lar porque os subsídios públicos que têm não são suficientes". Barbara diz: "Dizem que estão a guardar um lugar lá para nós, mas não sabemos, o que vamos fazer no futuro." O casal transportou, de certa forma, para Portugal, o espírito de comunidade que existe muito nos Estados Unidos.

"Aqui há mais esse espírito. Tem muito que ver com a natureza de dar e de partilhar coisas com outras pessoas. É muito interessante. Acho que tem que ver com a cultura americana. Os americanos são um povo mais aberto. Em Portugal ficam surpreendidos quando abraço ou beijo as pessoas", sublinha Barbara Mateus. "Parece que somos mais portugueses fora de Portugal", admite, por sua vez, o marido. Ermelindo refere que as novas gerações de descendentes de portugueses não estão "tão preocupadas com as suas origens ou em manter uma ligação às origens. Preocupam-se mais consigo próprios". Mas não os acusa de egoísmo. "Os mais novos têm mais poder de adaptação do que nós tínhamos na altura ao serem já cidadãos americanos. A internet também fez que o mundo esteja agora mais ligado e o poder de adaptação seja muito superior. Nós tivemos de nos esforçar muito mais para conseguir ter um lugar aqui. Não digo que sejamos melhores ou piores, simplesmente acho que somos diferentes."

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