O "facilitador" do diálogo entre o governo e as FARC

Após mais de meio século de violência, a Colômbia vive um momento histórico - o principal grupo guerrilheiro no país depôs as armas e vai tornar-se partido político. Referendo sobre acordo de Havana é no domingo.

"O difícil vai ser a partir de agora", afirmava Henry Acosta Patiño na passada semana numa das entrevistas em que revelou detalhes do seu papel como intermediário nas negociações entre as autoridades de Bogotá e a principal força de guerrilha na Colômbia, as FARC.

O "agora" a que Acosta se referiu é o ciclo político iniciado hoje em Cartagena com a assinatura final do acordo de paz entre o presidente Juan Manuel Santos e o líder das FARC, Rodrigo Londoño Echeverri, conhecido por Timochenko. Domingo, os colombianos devem ratificar o acordo em referendo.

Um referendo em que, aparentemente de forma paradoxal, o ex-presidente Álvaro Uribe, sob cujo mandato se iniciaram os contactos com a guerrilha, defende o não ao acordo. O que se entende se se tiver presente que Uribe, mesmo quando aceitou a negociação com as FARC, sempre pretendeu uma forma de rendição da guerrilha e não a sua integração na vida política colombiana enquanto partido, como sucederá em caso de vitória do sim ao acordo.

A suceder a vitória do sim, este será um momento histórico na Colômbia contemporânea. Embora ainda esteja ativa uma outra guerrilha de extrema-esquerda, o ELN, o abandono da luta armada pelas FARC, que tiveram origem a partir do partido comunista local, assim como o fim das atividades dos grupos paramilitares em 2006, assinala uma transformação qualitativa num país que tem vivido sob constante violência desde a segunda metade dos anos 40 do século XX. Uma violência associada à guerrilha mas também aos cartéis da droga, em especial entre as décadas de 70 e 90.

Acosta afirmou na passada semana à Rádio Caracol que nunca se preocupou como iria ser visto enquanto "facilitador" do diálogo, como prefere catalogar-se a si próprio, mas a realidade é que o economista de 67 anos, nascido em novembro de 1948, vai passar à história por um envolvimento de 15 anos de contactos que culminaram nas negociações governo-FARC, em que ele funcionou como canal de comunicação direta entre Santos e Timochenko, mas sem envolvimento direto nestas.

O primeiro contacto de Acosta com a guerrilha foi no final dos anos 90 quando se encontrava numa área rural da província de Valle del Cauca como conselheiro num projeto cooperativo para deslocados internos. Detido pelas FARC, foi levado para uma casa onde foi interrogado e conheceu um dos dirigentes da guerrilha, Pablo Catatumbo (Jorge Torres, de seu nome), que será mais tarde o seu contacto nas negociações. Os dois homens começaram a falar às nove da manhã e às 11.00 da noite ainda conversavam. Catatumbo, licenciado em História, pediu a Acosta para voltar e e lhe "levar livros". Os contactos tornaram-se frequentes com as conversas a incidirem sobre livros e o conflito no país. Acosta recorda que costumava dizer a Catatumbo, sempre vestido à civil e desarmado (algo raro entre os líderes das FARC), que a paz começa por pequenos gestos, "com uma flor, um poema".

A primeira tarefa de Acosta como "facilitador" do diálogo entre as autoridades e as FARC sucedeu em 2002 após a guerrilha ter raptado 12 deputados da província de Valle del Cauca. O economista conseguiu negociar a libertação de três eleitos, mas a guerrilha acabaria por recuar e, em 2007, assassinaria os reféns; no entanto, Acosta e Catatumbo estreitavam a relação e a confiança mútua. Em 2009, durante a presidência de Uribe, o governo propõe um encontro direto com a guerrilha, que responde pela positiva em março de 2010, mas aquele estava em fim de mandato e nada se concretizou. Após a eleição de Santos, em julho de 2010, Acosta escreveu-lhe referindo a abertura das FARC para negociar. Um mês depois, o presidente responde afirmativamente. Na tomada de posse, Santos declarou que a "porta do diálogo não está fechada à chave".

Em outubro, as FARC confirmam a intenção negocial e "assim começaram as reuniões preparatórias, em 2011, para preparar a ida da delegação das FARC a Cuba". A primeira foi entre dois representantes do presidente e dois da guerrilha, na fronteira colombo-venezuelana; a segunda na ilha venezuelana de La Orchila e uma terceira de novo na fronteira entre os dois países.

Falando à revista Semana, a propósito da escolha de Cuba - "foram analisados 32 países" -, Acosta revela que Havana "estava disponível para ajudar" e Fidel Castro teria explicado aos líderes das FARC que "não iriam existir mais países socialistas nas Américas", os "gringos não o consentirão. Esqueçam isso", a luta armada para chegar ao socialismo. Além de Fidel, o "facilitador" destaca o papel de Hugo Chávez: "começar não teria sido fácil" sem a intervenção do antigo presidente da Venezuela. A luz verde final veio do então líder das FARC, Alfonso Cano, morto pelo exército em novembro de 2011, que designou Timochenko como negociador-chefe pela guerrilha, pouco antes de ser morto. Segundo Acosta, Cano acreditava que a solução do conflito chegaria pelo diálogo. Numa das entrevistas dos últimos dias, o "facilitador" fez questão de considerar Cano como um dos "grandes artífices" do acordo.

Mas, nota Acosta, as FARC, pelos sucessivos revezes sofridos no terreno, estavam forçadas a um pragmatismo crescente nas negociações. Estas iniciaram-se em 2012 na capital cubana, com o "facilitador" a permanecer no mais absoluto silêncio e anonimato. Só assim podia ser escutado pelas duas partes, como sucedeu em novembro de 2013, "quando todos estiveram prestes a desistirem", e "em março deste ano" num outro momento de crise. Mas ninguém desistiu em nenhuma das duas circunstâncias, e o acordo foi assinado em junho em Havana. Agora, falta o voto dos colombianos.

Quanto a Acosta, estes tenciona dedicar mais tempo à sua esposa de sempre, Julieta, aos filhos do casal, às questões do cooperativismo e "economia solidária", e à sua outra paixão: o tango.

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