Abbous Amoud, pastor de um rebanho de 30 ovelhas na Cisjordânia
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Médio Oriente

Como um rebanho na Cisjordânia explica as eleições em Israel

Visto da Cisjordânia, não importa assim tanto se Netanyahu ganha as eleições de hoje. Israel já tem o apoio de Trump e o silêncio da Europa. Os palestinianos esperam um novo apartheid.

Há por estes dias uma piada entre os empregados de mesa dos restaurantes de Jerusalém Oriental. Quando um cliente lhes pergunta se o vinho que pediram é israelita, eles respondem: "Se ainda não é, vai ser em breve." As encostas dos Montes Golan, onde se recolhe uma boa parte da produção vinícola da região, são território ocupado por Israel. E quando o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu disse na semana passada que pretendia anexar partes da Cisjordânia ao país, a anedota espalhou-se: é apenas uma questão de tempo até a Palestina perder o que lhe sobra de vinha.

Tony Batrawi ri para não chorar. É palestiniano de passaporte azul, o que significa que vive em Jerusalém - e por isso tem o privilégio de entrar e sair quando quer. A maior parte da sua família tem passaporte laranja, vive na Cisjordânia, e não lhe faltam amigos com identificação vermelha, os que são de Gaza. Os primeiros demoram em média três horas para chegar a Israel, os segundos raramente conseguem passar a fronteira. "Estamos cada vez mais espremidos, e estas eleições só estão a piorar as coisas", diz enquanto serve uma garrafa de Cabernet Sauvignon no Wine and Cheese, casa famosa no Levante da cidade. A sua teoria é a de toda a gente: "Agora que Trump mudou a embaixada americana para aqui, o governo israelita sente que pode fazer o que bem entender."

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Viriato Soromenho Marques

Madrid ou a vergonha de Prometeu

O que está a acontecer na COP 25 de Madrid é muito mais do que parece. Metaforicamente falando, poderíamos dizer que nas últimas quatro décadas confirmámos o que apenas uma elite de argutos observadores, com olhos de águia, havia percebido antes: não precisamos de temer o que vem do espaço. Nenhum asteroide constitui ameaça provável à existência da Terra. Na verdade, a única ameaça existencial à vida (ainda) exuberante no único planeta habitado conhecido do universo somos nós, a espécie humana. A COP 25 reproduz também outra figura da nossa iconografia ocidental. Pela 25.ª vez, Sísifo, desta vez corporizado pela imensa maquinaria da diplomacia ambiental, transportará a sua pedra penitencial até ao alto de mais uma cimeira, para a deixar rolar de novo, numa repetição ritual e aparentemente inútil.

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Maria do Rosário Pedreira

Agendas

Disse Pessoa que "o poeta é um fingidor", mas, curiosamente, é a palavra "ficção", geralmente associada à narrativa em prosa, que tem origem no verbo latino fingire. E, em ficção, quanto mais verdadeiro parecer o faz-de-conta melhor, mesmo que a história esteja longe de ser real. Exímios nisto, alguns escritores conseguem transformar o fingido em algo tão vivo que chegamos a apaixonar-nos por personagens que, para nosso bem, não podem saltar do papel. Falo dos criminosos, vilões e malandros que, regra geral, animam a literatura e os leitores. De facto, haveria Crime e Castigo se o estudante não matasse a onzeneira? Com uma Bovary fiel ao marido, ainda nos lembraríamos de Flaubert? Nabokov ter-se-ia tornado célebre se Humbert Humbert não andasse a babar-se por uma menor? E poderia Stanley Kowalski ser amoroso com Blanche DuBois sem o público abandonar a peça antes do intervalo e a bocejar? Enfim, tratando-se de ficção, é um gozo encontrar um desses bonitões que levam a rapariga para a cama sem a mais pequena intenção de se envolverem com ela, ou até figuras capazes de ferir de morte com o refinamento do seu silêncio, como a mãe da protagonista de Uma Barragem contra o Pacífico quando recebe a visita do pretendente da filha: vê-o chegar com um embrulho descomunal, mas não só o pousa toda a santa tarde numa mesa sem o abrir, como nem sequer se digna perguntar o que é...

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Maria Antónia de Almeida Santos

"O clima das gerações"

Greta Thunberg chegou nesta semana a Lisboa num dia cheio de luz. À chegada, disse: "In order to change everything, we need everyone." Respondemos-lhe, dizendo que Portugal não tem energia nuclear, que 54% da eletricidade consumida no país é proveniente de fontes renováveis e que somos o primeiro país do mundo a assumir o compromisso de alcançar a neutralidade de carbono em 2050. Sabemos - tal como ela - que isso não chega e que o atraso na ação climática é global. Mas vamos no caminho certo.