O camaleão Tsipras: da luta antiausteridade ao 3.º resgate em 12 meses

Crise dos refugiados e um líder da oposição popular são os desafios do primeiro-ministro grego um ano após chegar ao poder.

Numa espécie de presente de aniversário antecipado para o primeiro-ministro Alexis Tsipras que amanhã celebra um ano no poder, a Standard & Poor subiu na sexta--feira a nota da Grécia de CCC+ para B-. A agência financeira está convencida de que "até finais de março", Atenas vai cumprir as condições para o terceiro resgate. Uma vitória política para Tsipras, depois de um ano cheio de voltas e reviravoltas e num momento em que o governo do Syriza está em causa devido a outra crise: a dos refugiados.

"Os credores percebem que Tsipras se está a agarrar ao poder. E não querem voltar ao braço-de-ferro com a Grécia", explicou à AFP o analista Jesus Castillo, do banco de investimento Natixis, acrescentando que têm "outros motivos de preocupação". A começar pela crise dos refugiados, com 80% do milhão dos que entraram na Europa em 2015 a terem feito a travessia por mar entre a Turquia e a Grécia. O governo de Tsipras tem sido acusado de não conseguir lidar com este fluxo que chega todos os dias às ilhas do Egeu, mas cujo sonho é chegar ao Norte da Europa. Uma tarefa difícil, sobretudo quando os países vizinhos, como a Macedónia, decidem fechar a fronteira, deixando os refugiados encurralados em solo grego.

2016, ano da surpresa

Foi com o seu sorriso constante e com a habitual camisa branca sem gravata que Tsipras se sentou esta semana entre líderes mundiais, como os primeiros-ministros francês, Manuel Valls, e holandês, Mark Rutte, em Davos. No Fórum Económico Mundial, o chefe do governo grego garantiu mais tarde à Bloomberg que "2016 será o ano em que a Grécia vai surpreender a comunidade económica mundial". E acrescentou estar "confiante de que todos os nossos parceiros querem uma revisão [do terceiro programa de resgate grego] bem-sucedida e atempada porque percebem que o tempo faz parte da nossa estratégia". Para Tsipras, "se conseguirmos cumprir as nossas obrigações mais depressa deixaremos o círculo vicioso e voltaremos ao crescimento".

2016 será o ano em que a Grécia vai surpreender a comunidade económica mundial

A 25 de janeiro de 2015, Tsipras conseguia uma vitória histórica levando o Syriza e a esquerda radical pela primeira vez ao poder na Grécia. Tudo graças a uma mensagem antiausteridade e ao cansaço dos eleitores por uns partidos tradicionais manchados por nepotismo e corrupção. Aliado aos Gregos Independentes de Panos Kammenos, um partido de direita nacionalista, Tsipras acordava um prolongamento do segundo programa, dando mais tempo a Atenas para apresentar medidas que permitiriam aos credores libertar a última fatia do resgate.

Passados meses de negociações e inúmeras idas de Tsipras - e do seu entretanto famoso ministro das Finanças Yanis Varoufakis - a Bruxelas, junho viu o primeiro-ministro grego mudar de pele e romper o diálogo e convocar um referendo às medidas propostas pelos credores. A 5 de julho, seis dias depois de Atenas ter falhado um pagamento ao Fundo Monetário Internacional (FMI) os gregos davam uma vitória inequívoca ao Não (o oxi, que se lia nos cartazes dos manifestantes na praça Syntagma e nas primeiras páginas dos jornais de todo o mundo.

Investido de nova legitimidade, mas já sem a influência de Varoufakis (que se demitiu no dia 6), Tsipras voltava a Bruxelas para novas negociações, sob pressão como nunca de uns parceiros europeus cada vez mais decididos a empurrar a Grécia para fora da União Europeia se um acordo falhasse.

Na noite de 13 para 14 de julho, o camaleão Tsipras voltava a sofrer uma transformação. Após 14 horas de maratona negocial saía de Bruxelas com o acordo para o terceiro resgate que jurara nunca aceitar. 86 mil milhões de euros que obrigam a Grécia a novas medidas de austeridade, mas injetam uma lufada de ar fresco nas contas de Atenas.

Então ficou tudo bem, certo? Não. É que a última reviravolta de Tsipras não agradou a todos, sobretudo dentro do próprio Syriza, onde a ala mais à esquerda decidiu rebelar-se e votar contra o terceiro resgate, aprovado graças aos votos da oposição. Decidido a acabar com a dissidência no seu partido, Tsipras demite-se e convoca eleições antecipadas.

Com tantas mudanças de rumo, seria de esperar que os mesmos gregos que pouco mais de dois meses antes haviam votado oxi no referendo não voltassem a dar a sua confiança a Tsipras. Muitos não deram, mas apesar de tudo o Syriza vencia as eleições de 20 de setembro. Repetia a aliança com os Gregos Independentes e começava a trabalhar nas medidas de austeridade exigidas pelo terceiro resgate.

Oposição com novo líder

Com uma curtíssima maioria parlamentar (153 dos 300 deputados), Tsipras sabe que não pode voltar a aceitar dissidências se quer manter-se no poder. Aos 41 anos, o líder do Syriza pode ter conseguido uma folga dos credores, mas está sob fogo a nível interno. Agricultores nas ruas, reformados descontentes com os cortes que se avizinham e um novo líder da oposição decidido a dificultar-lhe a vida.

Eleito para a liderança da Nova Democracia a 10 deste mês, Kyriakos Mitsotakis promete fazer frente ao "populismo de um governo ineficiente". Aos 47 anos e representante de uma dinastia política grega (o pai, Konstantinos, foi primeiro-ministro nos anos 1990), o ex-ministro da Reforma Administrativa conseguiu pela primeira vez num ano pôr a Nova Democracia à frente do Syriza numa sondagem. O estudo da Metron Analysis mostra a direita com 23,6% das intenções de voto, contra os 19,9% da esquerda radical. Outra sondagem, da Universidade da Macedónia para a televisão Skai, revela que 85% dos inquiridos não estão satisfeitos com a atuação do governo. E também em termos de popularidade, Tsipras surge atrás de Mitsotakis. Mas o primeiro-ministro já provou antes que as sondagens se enganam.

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