O frigorífico do planeta está com a porta aberta

A temperatura do mar tem vindo a aumentar e o gelo está a perder espessura, com valores nunca antes vistos nos últimos 1.500 anos

O solo do Ártico está a descongelar a uma velocidade preocupante - o norte da região está a aquecer duas vezes mais rápido - e as consequências do fenómeno estender-se-ão ao mundo inteiro.

O relatório anual, de 93 páginas, divulgado esta terça-feira pela Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos da América (NOAA) e elaborado por 85 cientistas, revelou que a temperatura da água do mar tem vindo a aumentar e o gelo está a perder espessura, com valores nunca antes vistos nos últimos 1.500 anos.

A investigadora da NOAA Emily Osborne, citada pelo The Guardian, afirma, na apresentação do estudo, que cerca de 79% do gelo do Ártico é fino e com apenas um ano. Em 1985, 45% do gelo era espesso e mais antigo.

Estas alterações trouxeram um "novo normal" ao Ártico, mas as implicações estão à vista. Muitas comunidades estão a ter dificuldades em adaptarem-se e acompanharem as novas mudanças no clima, "especialmente na região Ártica da América do Norte, criando os primeiros refugiados das alterações climáticas", afirma o Diretor da Administração do Programa de Investigação do Ártico, Jeremy Mathis, citado pela BBC.

Para além disso, as alterações poderão influenciar a pesca e aumentar a probabilidade de incêndios em regiões de altitudes elevadas. "O que acontece no Ártico não fica no Ártico, afeta o resto do planeta", refere o responsável da NOAA, Timothy Gallaudet, "O Ártico tem uma grande influência no mundo em geral".

E não é coincidência que os números apareçam numa altura em que os níveis de dióxido de carbono no ar têm vindo a aumentar, "Foi apenas preciso um bocadinho de mudança induzida pelo ser humano para ativar este processo de avalanche; um bocadinho de gelo a derreter, que levou a um bocadinho de aquecimento, que levou a que mais gelo derretesse, traduzindo-se, assim, em mais aquecimento", avança o investigador Jeremy Mathis, que conclui que "O Ártico tem sido, tradicionalmente, o frigorífico do planeta, mas a porta ficou aberta."

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