O argentino que achou no contrabaixo a voz grave que a natureza não lhe deu

Alejandro Erlich Oliva, que nasceu a 8 de dezembro de 1948 em Buenos Aires, chegou a Portugal em 1976, numa altura em que a Argentina vivia na ditadura militar

É filho de pianistas, mas para Alejandro Erlich Oliva o piano é apenas uma "máquina de escrever". É nele que se dedica àquela que é a segunda vertente da sua vida artística - a de compositor. Uma vertente que, com o passar dos anos, vai ganhando espaço à de intérprete. O instrumento de eleição deste argentino que chegou a Portugal em 1976, após aceitar uma "proposta perigosa" do então diretor titular da Orquestra Gulbenkian Juan Pablo Izquierdo, é o contrabaixo. "Eu não gosto da minha voz, é uma voz aguda, que não tem relevo, é uma voz qualquer. O contrabaixo tem a voz que eu gostaria de ter como homem: grave, representativa, um pouco paternal. No contrabaixo, fui buscar a voz que a natureza não me deu", conta.

A cultura musical de Alejandro Erlich Oliva vem desde o berço - os pais eram os pianistas e professores Ruwin Erlich e Amélia Oliva de Erlich. De "pequenito" estudou violino, mas foi com a guitarra clássica que começou a carreira em grupos de música popular argentina (Trio Juárez e Anacrusa). Tinha 17 ou 18 anos quando sentiu "a necessidade existencial" de aprofundar a cultura musical e aproximar-se do mundo sinfónico. "Pedi autorização para ir assistir a aulas no conservatório Manuel de Falla. Quando fui ouvir uma aula de contrabaixo do professor Hamlet Grego fiquei sem fala. Fazia com o contrabaixo coisas que eu achava impossíveis de fazer, em técnica e sonoridade, e pensei "é isto que tenho que fazer"", recorda.

Hamlet Grego seria o seu professor e mentor, legando-lhe mais tarde ("foi praticamente oferecido") um Antonio Casini de finais do século XVII. "É o Stradivarius dos contrabaixos", conta, depois de mostrar o instrumento, que apesar de ter quase 40 quilos ainda usa nos concertos. "Estes instrumentos se não se tocam morrem", refere, junto de outro contrabaixo, este de nove quilos, da segunda metade do século XIX, da atual República Checa.

Alejandro Erlich Oliva, que nasceu a 8 de dezembro de 1948 em Buenos Aires, chegou a Portugal em 1976, numa altura em que a Argentina vivia na ditadura militar. "Eu era solista B, na terminologia sinfónica portuguesa, na Orquestra Sinfónica Nacional. Um cargo muito honroso, muito difícil de conseguir, ganho num concurso público." Num contexto de "terrorismo de Estado", com desaparecimentos e muita gente a sair, Izquierdo visita Buenos Aires. "No final do concerto chama-me ao camarim e diz que já tinha reparado em mim."

Portugal tinha acabado de sair do antigo regime e não era um país muito conhecido na Argentina, mas a Orquestra Gulbenkian, de que o maestro chileno Juan Pablo Izquierdo era diretor titular, era muito conhecida no meio artístico. "Pelo prestígio internacional que tinha e pelo excelente músico e maestro argentino, Mario Benzecry, que tinha estado lá como assistente de direção", refere. As condições para vir para Portugal eram difíceis, já que os estatutos só permitiam que o maestro indigitasse uma contratação caso tivesse havido dois concursos formais desertos e essa contratação seria apenas por uma temporada, sendo necessário passar depois por concurso.

O problema é que Alejandro Erlich Oliva estava há apenas três meses na Orquestra Sinfónica Nacional e precisava de estar há três anos para pedir uma licença sabática. Aceitar o convite seria um risco, mas após falar com a companheira (futura mãe dos seus filhos David e Marina), que como artista plástica já começava a sentir os efeitos da censura, resolveram arriscar. "Os deuses do Olimpo estavam a olhar e ao fim dessa temporada consegui, por unanimidade do júri e menção de louvor, ficar no lugar de primeiro contrabaixo solista na Gulbenkian, onde prestei serviço até à primeira semana de 2010."

À carreira sinfónica, juntou-se a de membro do conjunto de câmara Opus Ensemble - junto com o já falecido oboísta italiano Bruno Pizzamiglio, a violetista Ana Bela Chaves e a pianista Olga Prats. Criado em 1980, atuaria até 2012. "Foram décadas de trabalho em todo o mundo, teve uma visibilidade que nenhum outro conjunto de câmara tinha tido até aí em Portugal." No total foram 15 discos, alguns com composições originais de Alejandro Erlich Oliva, que também já compôs para outras formações musicais, como o Quarteto Lopes-Graça, o Duo Contracello, Stravinstrio e Olga Prats. Em abril, vai estrear um recital seu com a soprano sérvia Natasa Sibalic e a pianista Anne Kasa. O trabalho como solista também o acompanha desde sempre. "Fiz muitos recitais de contrabaixo e piano, primeiro com a minha mãe, em vida dela, e desde os princípios dos anos 1980 com a grande Olga Prats."

É enquanto compositor e solista que continua a trabalhar. "Tenho plena consciência, aos 68 anos, de que em cada recital posso decidir que foi o último, porque não quero ir para o palco dar pena. O palco é viciante e queremos sempre continuar. Mas eu quero tocar como sempre toquei e no dia em que sinta que isso não está a acontecer, então ficarei só com a composição", admite. A herança musical está garantida: "O gene da música deu um saltinho e foi parar ao meu neto, o jovem violetista Miguel Erlich."

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