Netanyahu criticado por esconder dados sobre túneis do Hamas antes da guerra

Primeiro-ministro e responsáveis pela Defesa não informaram gabinete de segurança sobre a ameaça que estas construções representavam antes do conflito de 2014, impedindo também que o exército se preparasse para os destruir

Durante a operação Margem Protetora, entre julho e agosto de 2014, os militantes palestinianos do Hamas usaram vários túneis que ligavam a Faixa de Gaza a Israel para atacar alvos israelitas. Agora, um relatório oficial acusa o primeiro--ministro Benjamin Netanyahu de não ter informado devidamente e com antecedência o gabinete de segurança - que formula estratégias e aprova a atuação militar - sobre a ameaça que esses túneis representavam. Uma acusação que surge numa altura em que Netanyahu já está sob fogo por causa do despejo forçado de colonatos na Cisjordânia e é investigado por corrupção e abuso de poder.

No relatório sobre a guerra de Gaza, o controlador estatal (funciona como supervisor das políticas do governo e como provedor) denuncia uma série de falhas e de falta de estratégia em relação ao conflito que durou 50 dias e causou 74 mortes em Israel (incluindo 11 soldados mortos pelos ataques-surpresa a partir dos túneis) e mais de dois mil mortos no lado palestiniano. Uma das ideias que passa é que o conflito poderia ter sido evitado ou que poderia ter durado menos tempo.

Uma das críticas é de como Netanyahu e outros responsáveis - incluindo o então ministro da Defesa, Moshe Ya"alon, e o na altura comandante em chefe do exército, tenente coronel Benny Gantz - não mantiveram os membros do gabinete de segurança informados. "A decisão ficou nas mãos dos responsáveis pela Defesa e do primeiro-ministro", escreveu Joseph Shapiro no relatório. "Não lhes dar informações mais cedo excluiu os membros do gabinete de discutir possíveis ações em resposta ao ataque planeado [pelo Hamas e que os serviços de segurança conheciam há meses], de decidir com antecedência, não sob pressão dos tambores da guerra, e assim tomar uma decisão pensada", indicou.

Netanyahu disse no Facebook ter informado da ameaça em pelo menos 13 ocasiões. No seu relatório, Shapiro criticou os membros do gabinete de segurança por não terem questionado mais o primeiro-ministro sobre a ameaça que os túneis representavam e exigir um plano ao exército para fazer face ao problema. Segundo o relatório, Netanyahu e os responsáveis militares não asseguraram antes do início do conflito que o exército estava preparado para enfrentar a ameaça "estratégica" que os túneis representavam em zona urbana - improvisando à medida que a guerra se desenrolava; no final, Israel disse ter encontrado e destruído 32 túneis -, 14 deles permitiam cruzar a fronteira.

A guerra de Gaza - o mais longo conflito na história de Israel - foi lançada no seguimento de uma operação na Cisjordânia, após o rapto de três jovens israelitas a 12 de junho de 2014 - os corpos seriam encontrados no dia 30. O Hamas respondeu com ataques de morteiros desde a Faixa de Gaza e a 7 de julho o gabinete de segurança israelita aprovou a operação no terreno. A guerra acabaria a 26 de agosto. Ainda antes de o relatório ser divulgado, Netanyahu disse que os resultados falam por si: "A fronteira de Gaza nunca esteve tão calma desde a Guerra dos Seis Dias [em 1967]. O Hamas sofreu um golpe devastador. As comunidades fronteiriças estão a prosperar."

Apesar de crítico, o relatório não deverá enfraquecer totalmente o primeiro-ministro. "A cobertura de teflon de Netanyahu que há anos o torna invencível irá provavelmente manter-se agora e ele será capaz de sobreviver à crise do relatório", escreveu o jornalista Yossi Melman, no The Jerusalem Post. Mas este é mais um desafio para Netanyahu - que já enfrenta problemas por causa dos colonatos e está ameaçado por investigações judiciais. O primeiro--ministro é suspeito de ter aceitado presentes de empresários ricos e de supostamente ter proposto lançar nova legislação como parte de um acordo secreto com o diretor de um jornal para garantir uma cobertura mediática mais favorável.

As próximas eleições em Israel estão previstas para 2019, mas podem ser antecipadas, e Netanyahu já está envolvido numa luta de poder com o ministro da Educação, Naftali Bennett, líder do partido de extrema-direita Lar Judaico e um dos poucos a denunciar nos últimos dois anos a questão dos túneis. Uma sondagem do instituto Panels de 20 de janeiro coloca o partido na terceira posição (elegendo 13 deputados), atrás do Likud de Netanyahu (23 deputados) e do Yesh Atid (centro, 26 deputados), do ex--jornalista e ex-ministro das Finanças ,Yair Lapid. Ambos tinham assento no gabinete de segurança na altura da Guerra de Gaza.

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