NATO lança operação naval de combate ao tráfico de refugiados

Portugal manifestou apoio político à operação da força naval aliada mas não ofereceu quaisquer meios para a reforçar.

A decisão política da NATO em apoiar as guardas costeiras da Turquia e da Grécia no Mar Egeu foi muito rápida. Quem ficou com as castanhas nas mãos foram os militares, com 24 horas para planear a operação naval de vigilância e monitorização das rotas usadas pelos traficantes que exploram migrantes em busca de refúgio na Europa.

"Tivemos uma muita rápida tomada de decisão [política] e agora temos de fazer algum trabalho militar" para definir uma missão no Mar Egeu que "foi literalmente posta em marcha nas últimas 20 horas", afirmou ontem de manhã, em Bruxelas, o comandante supremo aliado da NATO na Europa (SACEUR), general Philip Breedlove.

Com dúvidas por esclarecer em torno da missão debatida e aprovada ontem pelos ministros da Defesa aliados a pedido da Alemanha, Grécia e Turquia, a NATO decidiu apoiar - com a força naval destacada no leste do Mediterrâneo (SNMG2, sigla em inglês) e sob comando alemão - as Guardas Costeiras da Grécia e da Turquia na luta contra as redes de traficantes que exploram as centenas de milhares de migrantes à procura de refúgio na Europa.

A Aliança aprovou também o envio de aviões AWACS de reconhecimento para operar ao longo da fronteira entre a Síria e a Turquia, em apoio da coligação internacional que combate o Estado Islâmico - além de pedir "aos Estados que têm um papel contraproducente na luta contra" aquele grupo terrorista e no processo de paz sírio "para terem uma ação mais construtiva", lê-se na declaração final da reunião dedicada ao tema.

António Martins da Cruz, antigo embaixador de Portugal junto da NATO, qualificou a decisão dos aliados como "um sinal de tranquilidade para os portugueses e todos os europeus".

"Trata-se de mostrar a bandeira, de dizer "Atenção, a NATO está na zona"", observou o diplomata, após assinalar que "o Mediterrâneo é atualmente uma das zonas mais explosivas do mundo" e onde a Rússia é vista como foco de tensão. Martins da Cruz realçou ainda que a "missão de cooperação" aliada "é um sinal às potências da região e às que estão envolvidas" de que a Aliança "começa a preocupar-se com o que se está a passar na região".

O vice-almirante Cunha Lopes, antigo comandante geral da Polícia Marítima (presente na missão da Frontex no sul da Grécia), assumiu que "é preciso combater o fluxo de migrantes mas não justifica uma operação militar. Vejo o apoio da NATO no sentido de ajudar as autoridades competentes da Grécia e da Turquia a combater este flagelo".

Nuno Pereira da Silva, especialista em assuntos militares europeias, enfatizou: "É importante que a NATO vá para a região, porque Turquia não pertence à UE e isto poderá ser o princípio de uma guerra mundial. A NATO está a posicionar-se na zona crítica."

Para o coronel do Exército, a entrada da NATO na crise dos refugiados "justifica-se porque um dos três países que pediu ajuda [a Turquia] não pertence à UE" e, ainda, porque essa missão de combate ao tráfico humano e pirataria "está no conceito estratégico" da organização. Assumindo também que "não se trata de uma operação militar", Nuno Pereira da Silva sublinhou que "a parte mais difícil" cabe agora ao SACEUR: fazer os planos militares da operação para concretizar os objetivos políticos, definindo "as regras de empenhamento."

"Como fazer só guerra ao tráfico e à pirataria é difícil", pois importa saber "quando é que se dispara, quando é que se prende, o que se faz... tudo isso tem de ficar muito bem escrito", frisou Pereira da Silva, referindo que a missão da SNMG2 "não é para mandar embarcações para trás. É apenas impedir que haja tráfico humano e capturar esses traficantes", dando "informação crítica para [os] combater e atuar em cooperação com as guardas costeiras nacionais e a agência Frontex".

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