"Não houve uma Reforma, houve muitas"

Teólogo protestante e historiador, Friedrich Wilhelm Graf, esteve em Portugal a participar numa série de conferências organizada pelo Instituto Goethe e pelo Centro de Investigação em Teologia e Estudos de Religião da Universidade Católica Portuguesa.

Ao DN falou do impacto e da herança da ação de Martinho Lutero ao afixar há 500 anos, a 31 de outubro de 1517, as 95 Teses, gesto na origem do movimento de contestação ao papa e à Igreja Católica conhecido como Reforma.

O tempo em que Lutero viveu foi um tempo de mudança de algum modo como se verifica hoje. É possível falar de um paralelismo?

Diria que há similitudes. Uma delas é a revolução nos media. Diria mesmo que o protesto de Lutero não teria tido sucesso sem a existência da máquina de impressão. No início do século XVI, numa pequena localidade como Wittenberg havia quatro editores; 15 anos depois, era um centro de impressão de dimensão mundial, com mais de 40 casas editoras. De algum modo, o sucesso de Lutero é sinónimo do sucesso da indústria editorial, com as suas teses a chegarem a toda a parte da Europa, com exceção de Portugal e Espanha. Há uma segunda similitude: as pessoas, então como hoje, levam as questões religiosas muito a sério. A fé e as ideias religiosas têm grande importância na vida de muitas pessoas. Alguns sociólogos afirmam que a modernidade é sinónimo de secularismo e pluralismo, o que não deixa de ser verdade até certo ponto. Mas, ao mesmo tempo, muitas pessoas mantêm a sua fé e defendem que a única forma de a sua vida ter um sentido é ser piedoso e crente. Podemos ainda considerar outra semelhança: a Universidade é um lugar de inovação e de discussão. É possível discutir novas ideias e estas acabam por ter consequências políticas...

Como sucedeu com a Reforma...

Sem dúvida. Há ainda outro fator a realçar: é que foi um movimento urbano. Hoje, as grandes mudanças surgem a partir dos centros urbanos. Há diferenças também, elementos novos. Por exemplo, temos hoje um conhecimento muito diferente de nós próprios em comparação com os contemporâneos de Lutero; temos um maior conhecimento, diria, um conhecimento global do mundo, somos muito mais influenciados pelos desenvolvimentos da ciência. E temos a herança do Iluminismo.

E com ele vieram, pelo menos nas sociedades ocidentais, os movimentos secularistas e antirreligiosos.

É verdade. No que respeita à religião nas sociedades europeias, temos uma enorme diversidade. Temos sociedades onde os católicos são a maioria, outras onde convivem católicos e protestantes e outras, como as escandinavas, que são protestantes. Assim, também não há uma só tendência secularista, há muitas. Todos pensamos que a política não se deve confundir com a religião e que esta não tem lugar no Estado, este deve manter-se neutral em questões de moral e de conceção do mundo. Aqui é importante sublinhar que esta distinção é uma das consequências da Reforma. Lutero disse que devia verificar-se a separação do Estado e das questões políticas e mundanas das questões de religião. Deve haver uma clara separação entre as diferentes da área da vida, que é uma ideia importante na reforma protestante. Para esta, certos tipos de secularismo são legítimos, são importantes e devem até serem apoiados.

Por exemplo?

O casamento é só uma instituição do mundo, para os protestantes.

O teólogo e historiador protestante Benjamin Hasselhorn afirmou recentemente que "Lutero é a razão principal pela qual temos hoje tantas denominações protestantes". Esta realidade estava no ADN original da Reforma?

Sim, estava. Não houve um movimento da Reforma, houve muitos movimentos. Começou em Wittenberg, mas houve também em Genebra, Zurique, Estrasburgo e noutras cidades. Houve movimentos locais com ideias teológicas diferenciadas. A diversidade foi um elemento importante de todo o movimento da Reforma desde o início.

Hasselhorn disse também que Lutero não teria querido fenómenos como a secularismo e o Iluminismo. Se fosse possível imaginá-lo hoje entre nós, que diria ele destas realidades?

Não tenho a certeza do que pensaria sobre o Iluminismo. Era cético sobre a razão nas questões religiosas, mas nas questões da educação considerava a razão fundamental. Os protestantes fundaram escolas, deram grande importância à educação e à formação de professores. Na Alemanha, pelo menos, o Iluminismo foi um movimento apoiado pelos teólogos e pela classe média culta protestante. Quanto ao secularismo, penso que Lutero também o aceitaria. Ele separava as questões da religião dos deveres mundanos e considerava que os cristãos os deviam levar muito a sério. Ou seja, não deem só o exemplo nas questões de religião, deem-no também nos deveres para com a sociedade e como estão nela.

Que lugar para o islão na Europa? É um problema? Um desafio?

É um desafio. Não é um problema. Mas não sei se deva falar de islão na Europa. Temos de ter presente a existência de muitos tipos de islão na Europa. A situação em França, na Grã-Bretanha, na Holanda é muito diferente da alemã. Em França, por exemplo, a maioria dos muçulmanos tem ainda uma ideia muito presente do colonialismo francês, a sua identidade é fortemente influenciada pela experiência colonial. O mesmo na Holanda e na Grã-Bretanha. Na Alemanha, a comunidade muçulmana não tem experiência histórica de um passado colonial e tem origens mais diversificadas...

Mas há já uma geração ou mais nascidas na Europa. Isso é novo.

Sim. Não devemos esquecer que durante muito tempo as sociedades europeias não aceitaram a ideia de serem sociedades de imigração, mas acabaram por se tornarem pluriétnicas e multi-religiosas quase sem darem por isso. Após um período em que não se pensou no que fazer, agora é preciso fazer perguntas difíceis, como "o que significa integração?". E tem de se criar metas de integração, como aprender a língua do país de acolhimento, a necessidade de as pessoas terem um emprego, compreenderem que têm de seguir regras da sociedade onde estão, a ordem legal secular, que tem de ser obedecida por todos os cidadãos do país. Isto é a base e não pode ser negociável. Ora, em algumas sociedades europeias sempre houve áreas legais onde comunidades religiosas podem aplicar os preceitos da sua religião, designadamente em questões de direito da família. Por exemplo, na Grã-Bretanha, isto está previsto para a comunidade judaica. E foi um antigo arcebispo de Cantuária, Rowan Williams, a defender que o mesmo se podia fazer para a comunidade muçulmana. Não considero isto adequado. É preciso defender e aplicar a ordem legal Estado. Caso contrário, estamos a criar aquilo que se pode chamar de contra-sociedades, de contra-forças sociais.

Um teólogo protestante convertido ao catolicismo, Scott Hahn, escreveu após a conversão que os católicos "são ignorantes sobre os ensinamentos da sua igreja e sobre a Bíblia". Este diagnóstico aplica-se ou não aos protestantes?

A maioria dos cristãos na Europa no início do século XVI, não podiam ler a Bíblia, que estava em latim, não compreendiam o significado de um serviço religioso, seguiam rituais, viam imagens, símbolos, e o clero era um grupo muito afastado do quotidiano das suas vidas. Neste quadro, dizer às pessoas que tinham direito a ler a Bíblia é um ato de emancipação, vai obrigá-las a aprender a ler, e dá-lhes autonomia nas questões de religião. Isto obrigou a Igreja Católica a imitar a sua contraparte protestante, pelo menos, na Alemanha e noutras partes da Europa onde a Reforma ganhou influência. E, respondendo à pergunta: talvez os protestantes estejam mais bem preparados.

Nos anos 60, o filósofo e cientista político Eric Vögelin deu uma série de conferências em Munique onde analisou as "condições espirituais" que permitiram a ascensão do regime nazi e onde escreve que "os sentimentos humanos mais básicos, bem como qualquer sentimento de humanidade, de natureza temporal, desapareceram das igrejas alemãs". E, para as igrejas protestantes, com exceções obviamente, refere uma situação de "corrupção moral". Como se explica esta realidade?

Não se deve falar de 1933 a 1945 sem se falar do período da República de Weimar [1919-1933] e porque é que esta não teve sucesso. E isto tem a ver com a igreja protestante. A maioria dos pastores protestantes, à volta de 60% pelo menos, apoiavam os movimentos anti-Weimar, antidemocráticos e nacionalistas...

Incluindo os nacional-socialistas?

Não. Os nacionalistas e conservadores, os antiliberais e anticatólicos. É importante salientar que as igrejas alemãs luteranas, em particular, tinham dificuldade em aceitar a democracia liberal e, por isso, muitos em 1933 pensaram que a revolução nazi era uma forma de chegar a uma sociedade cristã, absolutamente protestante...

Como é isso possível, tendo presente o neopaganismo nazi?

Concordo. Mas, se ouvirmos os discursos de Hitler em 1933 e 1934, ele recorre sempre a linguagem cristã, fala sempre da Alemanha como nação cristã. Portanto, não creio que se esteja perante uma falha moral, por que essas pessoas acreditavam que estavam do lado certo, que iria haver uma nova união das igrejas e do Estado, do cristianismo e da nação. Por outro lado, muitos teólogos e pessoas nas igrejas protestantes tinham um entendimento muito autoritário do Estado, ideias não democráticas, ideias antiliberais, mas que não é nada específico da Alemanha e em especial na época em questão. E mesmo o elemento antijudaico não é algo específico da Alemanha ou dos protestantes, existia também no catolicismo...

Esse é um aspeto superado nas igrejas protestantes? Pergunto isto por causa dos escritos antissemitas de Lutero na última fase da vida.

Está absolutamente ultrapassado.

Houve uma evolução da teologia protestante desde Lutero até hoje?

É necessário identificar os elementos fundamentais. Um deles é o da autonomia do crente individual e da sua relação individual com Deus. Este é um conceito central nos protestantes. Segundo elemento, o mandato no mundo, a ética protestante para estar nas sociedades e atuar nas questões mundanas. E aqui é preciso ter presente as diferenças entre luteranos e calvinistas e também nas igrejas evangélicas americanas. Assim, como constante, sem dúvida, a autonomia do crente individual. Como mudanças, se pensarmos que há cem anos o cristianismo era visto como um fenómeno ocidental, europeu, hoje, a maioria dos cristãos vive no "Sul global"...

As periferias do Papa Francisco?

Sim. E temos toda uma nova tipologia de igrejas protestantes: as igrejas carismáticas, evangélicas, bíblicas. Um tipo de protestantismo muito dinâmico e em crescimento.

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