Ruth Bader Ginsburg. A juíza feminista, ícone liberal e estrela pop

Juíza tinha 87 anos e sofria de cancro do pâncreas. Era tida como o último "tampão" da onda conservadora no mais alto tribunal dos EUA, onde se decidem assuntos como a legalidade do aborto ou o casamento gay.

A juíza do Supremo dos Estados Unidos Ruth Bader Ginsburg morreu esta sexta-feira à noite, aos 87 anos, na sua casa em Washington, dc, noticiam os media internacionais.

Ginsburg sofria de cancro no pâncreas, que se tinha metastizado. No início do ano, tinha regressado aos tratamentos, após um agravamento da doença.

A mais velha juíza do Supremo em funções, Ginsburg esteve 27 anos em funções. Uma vocal feminista, era tida como a figura de proa dos interesses progressistas no mais alto tribunal judicial dos EUA, a única capaz de travar a onda conservadora que tem tomado a instituição.

O Supremo Tribunal norte-americano decide sobre questões que definem a sociedade americana como o aborto, a saúde, o casamento homossexual, discriminação de género, mas também financiamento das campanhas ou quem é o presidente, como quando em 2000 os juízes decidiram parar a recontagem de votos na Florida, dando a vitória ao republicano George W. Bush sobre o democrata Al Gore.

Juiz do Supremo é um cargo vitalício. A morte de Guinsburg a poucos meses das eleições presidenciais de novembro irá abrir o debate sobre a nomeação do próximo juiz. Poderá Trump ainda colocar um seu escolhido no seu lugar? Se tal acontecer, ficará o Supremo com uma maioria conservadora de seis contra três, e tal significará, desde logo, uma mais que certa reversão da histórica decisão da despenalização do aborto no país...

Judia de Brooklyn

Joan Ruth Bader nasceu em Brooklyn, a 15 de março de 1933. Os pais, Celia e Nathan, viviam no bairro de Flatbush. Ela emigrou de Odessa, na atual Ucrânia, então parte do império russo, ele da Áustria. Apesar de não serem muito religiosos, os Bader fizeram questão de que a filha frequentasse a sinagoga e aprendesse os rituais judaicos.

Aluna dedicada, foi na universidade de Cornell, em Nova Iorque, que Ruth (como havia muitas Joan na turma quando era miúda, foi a mãe que sugeriu à professora chamar-lhe Ruth) conheceu Marty Ginsburg. Tinha 17 anos mas não teve dúvidas: "Conhecer o Marty foi de longe a melhor coisa que me aconteceu na vida", confessa a juíza no documentário RBG. O casamento durou 56 anos, até à morte dele em 2010, e está agora no centro do enredo do filme Uma Luta Desigual, sempre com Marty a aceitar ficar na sombra enquanto a mulher apostava na carreira.

De juíza centrista a ícone pop

Nomeada em 1980 pelo presidente Jimmy Carter para o Tribunal de Recurso do Distrito de Columbia, onde fica a capital, Washington, Ruth Bader Ginsburg ganhou fama de centrista, votando muitas vezes ao lado dos conservadores. Uma postura que manteve nos primeiros anos no Supremo, onde chegou em 1993 por nomeação de Bill Clinton. Segunda mulher nomeada para a mais alta instância judicial dos EUA, à medida que os anos passaram as suas decisões viraram à esquerda.

Já doente, muitos questionaram-se porque não se reformou enquanto Obama estava no poder, dando hipótese ao presidente de escolher um juiz liberal para a substituir. Mas ela foi muito clara: "Enquanto conseguir fazer o meu trabalho, estarei por aqui."

E ali, no edifício de colunas brancas do Supremo, junto ao Capitólio, fez amigos. Até os mais improváveis. Como o entretanto falecido Antonin Scalia, o juiz conservador com o qual partilhou a paixão pela ópera.

A sua defesa da igualdade de direitos, o estoicismo com que argumentava, as longas pausas e o ódio à conversa fiada tornaram Ruth Bader Ginsburg uma figura adorada na América progressista. Mas a fama mundial só chegou com o meme da "Notorious RBG". Criado no Tumblr em 2013 pela estudante de Direito Shana Knikhnik, mais tarde transformado em blogue e depois em livro, este levou Ginsburg até uma nova geração de feministas, fascinadas com a paixão da juíza. "Há pessoas de todas as idades excitadas por verem uma mulher num cargo público que mostrou que, mesmo aos 85 anos, pode ser inflexível na sua dedicação à igualdade e justiça", disse à BBC Irin Common, coautora do livro Notorious RBG.

Atualmente a imagem da juíza está por todo o lado. Nos fatos de Halloween, em canecas, em T-shirts. A sua vida, inclusive a sua rotina no ginásio, inspirou o documentário RBG, nomeado para os Óscares. Do último filme da Lego aos The Simpsons, são muitas as referências pop a Ruth Bader Ginsburg.

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