"Momento fundador" ou "fraude à cidadania". O referendo visto por colunistas espanhóis

Como os colunistas e editorialistas da imprensa espanhola assinalam o primeiro aniversário do referendo independentista de 1 de outubro.

"Um momento fundador"

O colunista e editorialista do La Vanguardia Francesc-Marc Álvaro fala num "aniversário com discórdia". Lembrando um ano que passou "muito depressa e muito lento à vez", explica como a "brutal violência policial transformou o referendo unilateral de independência noutra coisa", falando "num momento fundador de algo que custa concretizar".

Na sua opinião, o independentismo conseguiu três coisas: "o triunfo moral, mais atenção internacional que nunca e o apoio circunstancial de catalães não independentistas (e não partidários daquele referendo unilateral) ". Para Francesc-Marc Álvaro, o referendo irá influenciar "poderosamente, como todas as memórias traumáticas, na mentalidade coletiva" que ainda é cedo para avaliar.

"Custará visitar o passado, enquanto a discórdia domina o debate sobre o futuro", escreve. "Também comprovamos, uma vez mais, o complicado que é a coabitação do independentismo institucional (que deve governar) e o independentismo que defende a desobediência."

"O maior erro político de Rajoy"

O diretor de conteúdos do site dojornal catalão La Vanguardia, Jordi Juan, escreve que o referendo foi "o maior erro político de Mariano Rajoy e um presente para os partidários da independência".

"O referendo era ilegal, mas muitos catalães quiseram participar para forçar a negociação política, da mesma forma que o 9-N [referendo de autodeterminação de 2014] foi uma grande jornada reivindicativa. Mas o que aconteceu naquele dia foi uma reação do Estado tão desmesurada que causou que muitos catalães fizessem 'clique' para desligar-se totalmente de Espanha", escreve, falando numa "rutura mental, mas também sentimental".

Para Jordi Juan, "as imagens da repressão dos agentes ficaram gravadas na memória de muitos catalães e por isso são tantos os que hoje não querem ouvir falar de outra coisa que não seja a separação da Espanha", avisando que será preciso muito tempo para apaziguar a situação. "Hoje é impossível fazer qualquer tipo de autocrítica porque as feridas continuam abertas e não se quer dar argumentos ao outro lado", refere.

O responsável diz que existe atualmente "um governo da Generalitat em crise em busca de uma identidade", falando "num governo que administra uma autonomia, mas faz discursos como se vivesse numa República". E acusa o presidente da Generalitat, Quim Torra, da "falta de liderança". E se "a mudança de inquilino do Palácio da Moncloa aliviou o clima política", a verdade é que "se está ainda longe de um acordo entre as duas partes".

Uma "fraude"

No El País, o jornalista catalão Xavier Vidal-Floch, escreve que um ano após o referendo "não há outro remédio a não ser esclarecer" se "foi heroico ou fraudulento". E conclui: "Foi os dois. Um heroísmo de cidadãos catalães que, sabendo o que estavam a preparar, correram o risco de defender as suas convicções ao participar." Mas foi "uma fraude dos dirigentes do processo, que os usaram [aos cidadãos] como carne de canhão".

"Não há nenhuma conquista política para celebrar. O governo não só conduziu os seus fiéis ao matadouro como, em plena matança, os abandonou. Carles Puigdemont jogou ao gato e ao rato, trocando de carro num túnel, sem se atrever a ir ao seu colégio eleitoral", escreveu, criticando também o ex-ministro do Interior, Juan Ignacio Zoido, e a atuação policial. "Foi o seu melhor presente para o processo."

Vidal-Floch diz que "os líderes independentistas continuam a enganar os eleitores, que usaram como escudos humanos" mas, conclui, "tudo isto não oblitera a política. Ou seja, o diálogo. Os eleitores do 1-O [o referendo de 1 de outubro de 2017] merecem."

"Um engano à cidadania"

Outro catalão, o jornalista e escritor Jordi Amat, autor de Longo processo, sonho amargo, escreve também no El País: "Desde que através das redes sociais e dos telemóveis começaram a aparecer as imagens da polícia a agredir as pessoas que resistiam para votar (...), ficou claro que a violência repressiva transformaria essa mobilização em 'lugar de memória' para o vasto movimento social que apoia o movimento de independência", indicou, falando na "construção do mito para sustentar o slogan falacioso do mandato democrático".

"Hoje, a densidade desse mito, redobrada pelo processo judicial aberto contra os líderes do processo (tão exagerada por tantos aspetos, começando com a prisão preventiva e terminando na acusação de rebelião), continua a dificultar a descrição realista do significado daquele dia".

Amat fala de "um engano não dirigido a uma parte da população que não tinha sido convocada a participar no referendo de autodeterminação (como se o futuro do seu país não fosse com os partidos que os representam), mas à cidadania que tinha elegido esse governo. Essa parte da cidadania que, confiada, arriscou envolver-se num processo ilegalizado porque acreditava que sim, que era um referendo, e que sim, chegada a hora, exerceu a desobediência civil: colocou-se pacificamente diante dos bastões e das balas de borracha para defender a dignidade política da nossa comunidade nacional que estava a ser usurpada pelos seus líderes".

"Não só colapsou o consenso catalão e o Estado das autonomias acordado durante a Transição. Na ausência de normalização institucional, o sistema democrático espanhol continua a corroer-se, sobrepondo-se à precariedade do projeto da União Europeia. Presos como estamos diante de um espelho que reflete o degradado labirinto decadente, hoje a única coisa que é certa são as consequências desse duplo engano", concluiu.

Rutura da "hegemonia social"

"Recordem o 1 de outubro" é o título da coluna de Pablo Simón, professor de Ciências Políticas na Universidade Carlos III de Madrid, no El País, avisando que "para meditar nos passos que devemos dar no futuro, tenhamos bem presente o que passou a 1 de outubro e o quão próximo estivemos de estatelar-nos naquela curva". Para Simón, "a polarização daqueles meses rompeu definitivamente a hegemonia social do catalismo político, transversal, tecido durante décadas e que tinha a simpatia de setores da esquerda espanhola. Destruída a ideia de um 'só povo', agora a Catalunha tem dentro de si duas nações que cada vez se sentem mais distantes entre si".

"Corrigir uma política de apaziguamento"

"É séria e preocupante a incompetência demonstrada pelo governo para garantir a segurança e restringir as fações mais extremas do secessionismo, as mesmas em que o governo catalão se apoiou para perpetrar o golpe", lê-se no editorial do El Mundo. "Não pode acontecer que a administração que representa esta comunidade se iniba quando se trata de preservar o direito a manifestar-se por parte de polícias e guardas civis", numa referência aos confrontos do fim de semana. "E não pode ser que o governo de Sánchez permaneça mudo enquanto o independentismo continua o seu desafio à estrutura constitucional", acrescenta.

"O governo [espanhol] está obrigar a travar os partidos que alentam a violência, o que exige corrigir uma política de apaziguamento que não fez mais do que fazer concessões estéreis quando se trata de restaurar a legalidade e a convivência na Catalunha", escreveu.

"Não estou certo de que em dez anos se resolva o problema"

Félix Ovejero, professor de Ética e Economia da Universidade de Barcelona, discute no El Mundo as questões de retórica política, dizendo que palavras como "federalismo, autogoverno, mudança, reforma constitucional ou diálogo" são expressões de que todos gostam, mas que "cada político entende como quer, se é que entende". Ovejero pergunta "Soluções políticas para quem?"

"O governo voltou a por em circulação uma piada já usada: "Procurar soluções políticas para o conflito catalão. Em cinco palavras, duas ambiguidades e um perímetro errado", escreve, dizendo que a primeira é "a descrição do conflito", que segundo alguns "é resultado de não responder às exigências nacionalistas" e a segunda é que "a descrição do problema decide a solução", já que não resta outra solução que a nacionalista - "Uma solução para os nacionalistas, não para a Catalunha", escreve. A terceira imprecisão é que "o perímetro do problema não é a Catalunha, mas Espanha", indicando que "a aceitação por parte de todos do relato nacionalista degradou a qualidade da democracia espanhola".

"O governo não pode comprar o relato de conflito de quem quer destruir o Estado, correndo o risco de pôr em perigo a nossa democracia", escreve Ovejero, que diz que "o problema da Catalunha é de liberdades".

"O problema, por precisar, é o nacionalismo. A tensão e a deslealdade são as suas maneiras de estar na política. O nacionalismo é o problema que se apresenta como solução a problemas que recria e dos quais se alimenta", acrescenta.

"Não estou certo de que em dez anos se resolva o problema. Do que estou certo é que a solução não consiste em voltar a repetir o que nos levou até onde estamos, a caminho de desmontar o Estado", conclui o professor.

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