Militares portugueses na República Centro-Africana são "respeitados e temidos"

Apesar de as condições serem "extremamente adversas", o general Carlos Branco considera que o apoio logístico proporcionado pelas Nações Unidas cumpre a sua missão na República Centro-Africana.

Os militares portugueses em missão na República Centro-Africana (RCA) são "respeitados e temidos", disse à Lusa o general Carlos Branco, salientando que têm efetuado um "excelente trabalho" na área da segurança e proteção de civis.

O general português na reserva foi convidado pelas Nações Unidas para fazer uma inspeção ao apoio logístico proporcionado pela comunidade internacional aos contingentes na RCA, sendo as áreas mais importantes a alimentação, água, combustíveis, comunicações e engenharia, entre muitas outras.

A Missão Multidimensional Integrada das Nações Unidas para a Estabilização na República Centro-Africana (MINUSCA) começou em 2014 e tem no país mais de 12.500 elementos com uniforme, entre militares e polícias, contando com a presença de forças portuguesas.

"A principal missão dos soldados portugueses é proporcionarem segurança e a proteção de civis. Neste domínio, as forças portuguesas têm feito um trabalho excelente, de grande competência e profissionalismo. As forças portuguesas são muito respeitadas e muito temidas por parte dos grupos armados na RCA", disse à Lusa Carlos Branco.

O general afirmou que as forças portuguesas são uma referência no país, lembrando que já tiveram de recorrer ao uso da força no âmbito da sua missão.

A RCA caiu no caos e na violência em 2013, depois do derrube do ex-Presidente François Bozizé por grupos armados juntos na Séléka, o que suscitou a oposição de outras milícias, agrupadas sob a designação anti-Balaka.

O Governo centro-africano controla cerca de um quinto do território. O resto é dividido por mais de 15 milícias que procuram obter dinheiro através de raptos, extorsão, bloqueio de vias de comunicação, recursos minerais (diamantes e ouro, entre outros), roubo de gado e abate de elefantes para venda de marfim.

O acordo de paz foi assinado em Cartum, capital do Sudão, no início de fevereiro pelo Governo da RCA e por 14 grupos armados. Um mês mais tarde, as partes entenderam-se sobre um governo inclusivo, no âmbito do processo de paz.

Portugal está presente na RCA desde o início de 2017, no quadro da MINUSCA, cujo 2.º comandante é o major-general Marcos Serronha, onde agora tem a 5.ª Força Nacional Destacada (FND) e lidera a Missão Europeia de Treino Militar-República Centro-Africana (EUMT-RCA), que é comandada pelo brigadeiro-general Hermínio Teodoro Maio.

A 5.ª FND, que tem a função de Força de Reação Rápida, integra 180 militares do Exército, na sua maioria elementos dos Comandos (22 oficiais, 44 sargentos e 114 praças, das quais nove são mulheres), e três da Força Aérea.

O general português acrescentou que existem também portugueses que integram a componente civil da MINUSCA em lugares de relevo.

"Desempenham a sua missão com muito profissionalismo e são muito considerados. Algumas das pessoas são responsáveis pelo funcionamento de funções logísticas cruciais para as forças no terreno", salientou.

Sobre a RCA, o general, que esteve 15 dias no terreno a percorrer todo o país, salientou que os aspetos mais marcantes são as condições de vida e a situação de insegurança em que vivem.

"Esta situação de insegurança é causada pelos grupos armados que resistem a cumprir os acordos que fizerem com o governo, acordos que já foram violados em outras circunstâncias", frisou.

Em relação às condições de vida, Carlos Branco apontou problemas em diversas áreas, como na saúde, água, luz ou ligações rodoviárias.

"Não existem estradas, o que dificulta a vida das pessoas e o apoio logístico das tropas, mas podemos alargar esta questão à saúde, porque a rede hospitalar é limitada. Existem alguns hospitais em Bangui, mas com poucas capacidades. É necessário realçar o trabalho das organizações não governamentais, nomeadamente os Médicos Sem Fronteiras, fazem em todo o território, construindo postos de saúde que conseguem mitigar o problema", salientou.

O general lembrou ainda as questões relacionadas como doenças tropicais, em especial a malária, mas também problemas no abastecimento de água e luz.

"A rede de água e luz funciona apenas em Bangui, no resto no país não existe, ou porque não existem instalações ou, se existe, não funciona há décadas", frisou.

Apoio logístico cumpre objetivos

Apesar de as condições serem "extremamente adversas", o general considera que o apoio logístico proporcionado pelas Nações Unidas cumpre a sua missão na República Centro-Africana.

"O balanço geral é extremamente positivo. Existem questões que devem ser melhoradas e problemas que devem ser mitigados, mas de uma forma geral a minha avaliação é muito positiva", disse o general em declarações à agência Lusa.

Carlos Branco salientou que as condições em que é prestado o apoio logístico são adversas, lembrando que em grande parte da RCA, que tem quase a dimensão da França, não existem estradas.

"As condições em que se proporciona o apoio logístico são extremamente adversas, pela inexistência de uma rede rodoviária, o que dificulta imenso a deslocação de viaturas para fornecer água, combustível ou rações de combate, mas também pela meteorologia. Na época das chuvas, muitas estradas estão impraticáveis e o apoio tem de ser efetuado pela via aérea o que, tendo em conta a dimensão do país, representa um enorme esforço, até a nível financeiro", frisou.

O general português lembrou ainda que muitos dos comboios da ajuda humanitária e comboios logísticos são assaltados durante os percursos que efetuam.

"A dimensão do território é enorme e é difícil proporcionar segurança. Muitos dos comboios são longos, com várias viaturas, e muitas das vezes está uma viatura a ser assaltada e é difícil que as forças de segurança cheguem a tempo de o evitar", defendeu.

Carlos Branco vai mencionar no seu relatório recomendações ao nível do apoio logístico, de modo a tentar resolver ou mitigar os problemas detetados.

"Muitas das recomendações não têm a ver com qualidade do desempenho da componente de apoio logístico, mas com um uma série de regras de funcionamento das missões que são determinadas por Nova Iorque. É neste domínio que tem de haver alguma reflexão, ela está a existir, porque Nova Iorque está muito atenta ao que existe no terreno, propondo recomendações, alterando normas e procedimentos, mas ainda existe um trabalho importante a fazer neste domínio", defendeu.

O general Carlos Branco assumiu vários cargos internacionais, tendo servido nas Nações Unidas, nos Balcãs, na EUROFOR e na Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). Ao serviço das Nações Unidas desempenhou funções no Médio Oriente, tendo assumido o cargo de porta-voz do comandante da Força Internacional de Assistência para Segurança (ISAF na sigla em inglês), no Afeganistão.

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