Merkel e Schulz face à fadiga da Grande Coligação e à subida da AfD

Após quatro anos de aliança CDU/CSU e SPD e dada a ausência de confronto real entre Merkel e Schulz, muitos alemães não veem diferença entre a chanceler e o ex-presidente do Parlamento Europeu. Entre descontentamento e indecisão cresce o partido populista AfD. O que assusta boa parte do eleitorado

Amanhã Detlef Elbrandt não será um dos 60 mil participantes da 44.ª maratona de Berlim. "Apesar de treinar todos os dias, pelos menos 10 km, acho que não estou com preparação suficiente para o que exigem na seleção inicial e, por isso, nem sequer me inscrevi", explica ao DN o preparador físico, de 60 anos, que ao longo da vida já participou em 16 maratonas. O melhor tempo que conseguiu até hoje, nos 42 km, foi na sua décima, precisamente em Berlim, com 3 horas e 51 minutos.

Em frente ao centro de emprego de Pankow, em Berlim Leste, Elbrandt explica que vive numa espécie de limbo, pois aos olhos da lei é novo para se reformar, mas a maioria dos empregadores acham que é velho para lhe darem trabalho na área do desporto. Recebe apoios sociais, 400 euros por mês, mais ajuda para pagar a renda. E consegue viver com isso? "Eu cresci na ex-RDA, consigo viver com isso", diz em tom irónico, sublinhando que a verdadeira "reunificação alemã nunca aconteceu pois o Leste sempre foi colocado num nível mais baixo".

Em seu entender isso explica, em parte, para além da questão dos refugiados e imigrantes, a subida da AfD nas intenções de voto para as legislativas deste domingo na Alemanha. O partido populista de direita teve bons resultados nas regionais do ano passado em Berlim, sobretudo no Leste, já conseguiu representação em 13 dos 16 parlamentos regionais do país e, segundo as sondagens, terá 11% dos votos amanhã, depois de, em 2013, ter falhado a entrada no Bundestag. "Eu tenho um antigo vizinho, de 40 anos, que diz alto e bom som que vai votar na AfD apenas por protesto. As pessoas do Leste têm a estranha sensação de não pertencer a coisa nenhuma."

Elbrandt situa-se numa faixa etária onde a pobreza num país rico é evidente. Estimativas da Fundação Bertelsmann, citadas pela Deutsche Welle, apontam para que a pobreza entre os mais velhos aumente de 16% em 2015 para 20% em 2030. Num programa na ZDF, uma alemã de 75 anos deixou Angela Merkel sem reação ao considerar uma vergonha que, após 40 anos de trabalho, ganhe 654 euros de pensão e ainda tenha de pagar seguro de saúde. A Alemanha enfrenta também uma crise demográfica e estima-se, que em 2050, a população caia 7,7%. Estes números não incluem, porém, o impacto que poderá ter a imigração e a decisão de Merkel de subitamente deixar entrar no país mais de um milhão de refugiados. Tema que fez correr rios de tinta e serve também de combustível para a máquina da AfD.

Nora Freitag, de 30 anos, não gosta desse partido e, por isso, não vai deixar de ir votar amanhã. Assistente social, está com outros colegas em frente àquele centro de emprego com um autocarro que presta aconselhamento a quem precisa. É móvel. Nem sempre está no mesmo sítio. "É verdade que o desemprego diminuiu [é de 3,9%]. Mas também é verdade que muita gente tem minijobs e nem sequer desconta ou então tem empregos full-time de 600 euros que não chegam até ao final do mês", diz, lamentando que Martin Schulz, candidato do SPD, não tenha feito das questões sociais a sua bandeira de campanha para estas legislativas. "O SPD perdeu a sua reputação própria ao entrar na Grande Coligação com a CDU/CSU de Merkel. E também com o Hartz IV, reforma do mercado laboral que vem do tempo de Gerhard Schröder. Achei estranho que no debate televisivo com Merkel, Schulz não tenha referido o Hartz IV, parece que abandonou esse tema. Penso que Merkel vai ganhar um quarto mandato não porque seja muito forte, Schulz é que não soube afirmar-se como alternativa à chanceler". Elbrandt concorda. Para ele, "Merkel é uma pessoa incapaz de mostrar qualquer sinal de humanidade apesar de estar a fazer um bom trabalho. Schulz é um outsider. Na UE trabalhou bem mas não sabemos o que é capaz de fazer pela Alemanha".

Quem também não vê grandes diferenças entre a chanceler e o ex-presidente do Parlamento Europeu é Dorothee Sarr, especialista em controlo de tráfego e poluição do ar, que traba-lha para a organização ambientalista Deutsche Umwelthilfe.Em relação ao dieselgate, escândalo de manipulação das emissões poluentes por parte da Volkswagen, "não há muita diferença entre os dois partidos. SPD e CDU têm uma atitude de proteção um com o outro. E com a indústria automóvel. Os principais candidatos não falam muito deste tema porque não é bom para a imagem da indústria automóvel nem para a imagem da política na Alemanha", afirma ao DN, no momento em que governantes de várias cidades ameaçaram recorrer aos tribunais para que estes decretem o impedimento de certos carros a diesel poderem circular. E numa altura em que um relatório publicado na Environmental Research Letters associou ao dieselgate cinco mil mortes prematuras por ano no espaço da UE, na Noruega e na Suíça.

No debate de dia 3 entre Merkel e Schulz, que o jornalista Jeremy Cliffe, da Economist em Berlim, classificou como "um dos momentos mais deprimentes" da sua carreira, a chanceler conservadora e o rival social-democrata praticamente não discordaram e preferiram colocar o foco das atenções em questões externas como a da não adesão da Turquia à UE. Isto depois de o presidente turco ter pedido aos alemães de origem turca que não votassem na CDU, no SPD ou nos Verdes. Recep Tayyip Erdogan classificou estes partidos como "inimigos" da Turquia. Na Alemanha há cerca de três milhões de pessoas de origem turca e cerca de um milhão pode votar amanhã.

"Talvez haja uma minoria de pessoas que vá seguir o conselho de Erdogan. Mas o que ele diz, como Merkel e Schulz, são só palavras, soundbytes, a relação UE-Turquia é muito importante", refere ao DN Irfan Kizgin, enquanto bebe um chá e enrola um cigarro num café da zona turca de Neukölln. "As pessoas estão fartas da Grande Coligação. Merkel só vai ganhar porque não há alternativa. Schulz não é alternativa credível. Ninguém o conhece. As pessoas só conhecem uma cara e é a de Merkel", nota o alemão que nasceu há 60 anos na cidade turca de Erzincan e tem dupla nacionalidade. Atualmente trabalha no aconselhamento de refugiados, vindos de meia centena de países diferentes. "O importante é o que acontece na máquina do Estado e na estrutura da sociedade. E aí há elementos racistas", garante, constatando que "a AfD é resultado dessa estrutura".

Cighan Sinanoglu, porta-voz da organização Türkische Gemeinde in Deutschland, diz o mesmo. "Sempre soubemos que existia aqui um potencial para a extrema-direita aí de 20%, que antes conseguia ser contido pela CDU e pelo SPD. Agora, com a imigração e os refugiados, a situação saiu fora do controlo. Há racismo e, por isso, alguns votarão na AfD, que a meu ver é um partido que não aceitou a globalização. Mas também há os que votam por medo ou por fadiga dos grandes partidos", refere o alemão de origem turca, de 34 anos. Quanto ao abandono das negociações entre a Turquia e a UE, Sinanoglu acha que as declarações de Merkel e Schulz são um erro, "pois apesar de hoje em dia ser difícil argumentar a favor da Turquia de Erdogan, há forças democráticas lá que é preciso continuar a apoiar e, por isso, não se pode abandonar o diálogo".

Fartos da Grande Coligação - e não só - estão também Torben Donecke, Max Klinge e Julia Kölver, ambos com 34 anos, ela com 45 anos. São membros do Die Partei (O Partido), formação humorística fundada pelos criadores da revista satírica Titanic em 2004. Desde então já elegeram um eurodeputado e vários conselheiros municipais. Sentados no gabinete do partido na Yorkstrasse, com paredes pintadas a rosa e alcatifa rosa às bolinhas brancas, enumeram algumas das suas propostas, como a de reconstruir o muro, para "Fazer duas Alemanhas Outra Vez". "Esperamos que ao tratarmos as questões com sentido de humor isso faça as pessoas pensar", diz Torben, enquanto Julia nota que "as pessoas não gostam muito de pensar", pois pensar "dá muito trabalho".

Enviada especial a Berlim

Outras Notícias

Outros conteúdos GMG