"Memória da Guerra Civil continua a envenenar a política espanhola"

O historiador britânico Paul Preston, autor de 'O Último Estalinista', biografia de Santiago Carrillo, fala da evolução dos comunistas espanhóis.

Deu como título à biografia de Santiago Carrillo O Último Estalinista, mas a ideia que temos em Portugal do político espanhol é que se destacou como um eurocomunista. No fundo, está a descrever o seu estilo de liderança, o método, não a ideologia, certo?

Sim. Estou a falar dos seus métodos cruéis. Não acredito que Carrillo alguma vez tivesse sido um ideólogo. Foi sempre um pragmático ao serviço da sua ambição. E penso que isso é tão verdade no seu eurocomunismo como no seu prévio estalinismo.

Carrillo não combateu na Guerra Civil de Espanha, nem depois durante a Segunda Guerra Mundial, mas durante a tentativa de golpe do coronel Tejero, em fevereiro de 1981, mostrou grande coragem ao não acatar a ordem para se baixar dada aos deputados. Foi o grande momento da sua vida?

Foi. Como afirmo no livro, quando Tejero e os outros guardas civis irrompem no Parlamento, Carrillo estava convencido de que, como uma das figuras mais odiadas pela extrema-direita em Espanha, ia ser morto. Ele contou mais tarde que o seu principal pensamento era que ninguém poderia dizer que o líder do Partido Comunista tinha morrido como um cobarde. Acredito nele. Carrillo não era um cobarde e o seu gesto garantiu a sua reputação em Espanha.

Quanto deve a democracia espanhola a esse homem, que morreu em 2012 com 97 anos?

A transição para a democracia não foi garantida graças a um triunfo da resistência anti-Franco mas sim através de uma transação ou negociação entre os elementos mais progressistas da classe política franquista e os elementos mais moderados da esquerda democrática. Acredito que o pragmatismo de Carrillo levou-o a facilitar a transação. Ao sacrificar as ambições republicanas do partido e ao aceitar a monarquia para obter a legalização do partido, ele foi um moderado quando isso importava. Assim, desempenhou um papel-chave na transição para a democracia ao ajudar a convencer a direita sobre a moderação da esquerda.

Existem semelhanças entre Carrillo e Francisco Franco? Parecem ambos tão espanhóis em tantos aspetos.

Sim, em termos de ambição pessoal quase ilimitada, crueldade implacável e interminável vontade de reescrever o próprio passado. Escrevi uma longa biografia de Franco mas também um livro muito mais curto sobre ele intitulado na edição espanhola El gran manipulador. Nesse livro podem ser vistas uma série de semelhanças com Carrillo.

Na atualidade, os comunistas estão em crise em Espanha. Nas últimas legislativas tiveram muito menos votos do que o PSOE ou o emergente Podemos. O PC português, que nunca foi eurocomunista, tem tido mais sucesso. Este fraco desempenho eleitoral dos comunistas espanhóis é ainda um legado dos acordos feitos entre Carrillo e o rei Juan Carlos para ajudar a transição democrática?

Não penso que o fraco desempenho dos comunistas em Espanha seja um legado do papel moderado de Carrillo durante a transição da segunda metade da década de 1970. Se ele não tivesse agido como agiu, não haveria uma democracia dentro da qual os comunistas pudessem desempenhar o seu papel. Acho que a fraqueza atual tem mais que ver com o colapso do comunismo na Rússia e o triunfo de uma cultura consumista em Espanha, como no resto da Europa.

Qual é a sua opinião sobre a popularidade da monarquia hoje em Espanha?

A base de qualquer popularidade da monarquia é sem dúvida o legado de Juan Carlos ao ajudar ao regresso da democracia. Nos seus últimos anos, escândalos financeiros e maritais ensombraram esse legado e, por essa razão, os seus conselheiros empurraram-no no sentido de abdicar para salvar a monarquia. Essa operação tem sido bem sucedida até certo ponto, apesar de Felipe VI não ter o carisma pessoal do pai, mas fez bem em afastar-se dos escândalos financeiros.

Sei que fala catalão, além de castelhano. Como historiador, imagina uma Espanha sem a Catalunha, agora que se fala tanto de independência?

Já tenho problemas suficientes em tentar interpretar o passado, sem tentar prever o futuro. É possível "imaginar" Espanha sem a Catalunha. E é evidente que o comportamento do governo de Madrid estimulou o sentimento independentista na Catalunha. Por outro lado, os obstáculos legais, logísticos e de contexto no caminho de um processo não-violento de independência tornam difícil de imaginá-lo a acontecer em breve.

Só para terminar, até que ponto é ainda importante em Espanha a memória da Guerra Civil de 1936-1939? Arturo Pérez-Reverte escreveu recentemente um pequeno livro dedicado aos jovens e com pretensão de ser independente, mas foi criticado até pela ilustração da capa, suspeita de ser pró-republicanos.

A memória da Guerra Civil é um fator que continua a envenenar a política espanhola. A lavagem cerebral a nível nacional levada a cabo pelo regime de Franco através dos media e do sistema de educação, e apoiado até meados dos anos 1960 pela Igreja Católica, ainda tem impacto hoje. Compreensivelmente, não houve contralavagem cerebral durante a transição porque a democracia trouxe liberdade de expressão e houve também grandes cautelas com o poder do franquismo residual. Guerras da memória têm sido feitas nos media, na internet e em livros, e continuam a ser combatidas. Apesar de a sua ferocidade ter diminuído durante a crise económica, persistem vários temas importantes. Não houve reconhecimento formal dos enormes crimes de Franco e do seu regime e muitos locais públicos ainda ostentam nomes a glorificar Franco e os seus colaboradores. São ainda colocados obstáculos à forma como os académicos podem investigar esses crimes. Interessantemente, as críticas que ouvi sobre o pequeno livro de Pérez-Reverte é por ele implicitamente aceitar os mitos franquistas sobre por que razões o golpe militar de 1936 aconteceu.

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