Massacre de Manaus deixa sob fogo ministro da Justiça de Temer

Alexandre de Moraes desdenhara, em outubro, da guerra entre fações criminosas nas prisões. Especialistas dizem que é "um incapaz"

A tragédia no Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj), em Manaus, no Amazonas, que causou 60 mortos, intensificou o coro de críticas ao ministro da Justiça do governo de Michel Temer, do PMDB. Alexandre de Moraes dissera em outubro que a guerra entre organizações criminosas nas prisões brasileiras não passava de uma "bravata" ("fanfarronice") desses mesmos grupos. Ontem, apesar de a generalidade dos especialistas terem atribuído à guerra em causa o massacre de segunda-feira, voltou a defender o seu ponto de vista, o que motivou mais críticas.

"É uma questão muito mais profunda do que essa guerra, que tem que ver com a entrada de armas nas penitenciárias, em virtude da corrupção, e a possibilidade de presos ficarem submetendo, independentemente de fações, outros presos", disse o ministro, que pertence ao parceiro governamental PSDB, à Rádio Estadão. Moraes acrescentou ainda que não acredita numa "retaliação" do Primeiro Comando da Capital (PCC), grupo a que pertencia a maioria das vítimas, mortas, esquartejadas, decapitadas e carbonizadas por membros da fação rival Família do Norte (FDN).

Os especialistas em segurança pública dos principais jornais do país, Marcelo Godoy, de O Estado de S. Paulo, e Fabiano Maisonnave, do Folha de S. Paulo, discordam de Moraes. "Conflito é reação ao monopólio do PCC", escreveu Godoy. "É mais um capítulo na guerra entre fações do crime, não foi surpresa para ninguém a matança no Amazonas, a não ser para o ministro que ainda em outubro considerava a disputa "uma mera bravata"", acrescentou Maisonnave.

Temer resiste a deixar cair ministro da Justiça, pois em sete meses já perdeu seis ministros

Camila Nunes Dias, autora do livro PCC: Hegemonia nas Prisões e Monopólio da Violência, lembra que o PCC, com base em São Paulo, e o Comando Vermelho (CV), com base no Rio de Janeiro, romperam relações em julho e que a FDN é aliada do CV. "Nos estados dominados pelo CV, como o Amazonas, os presos do PCC estão numa região da cadeia chamada seguro mas numa rebelião é fácil chegar a ele, foi o que aconteceu". "O seguro na Compaj, por exemplo, era muito precário", confirma Guaracy Mingardi, analista criminal que visitou prisões por todo o Brasil.

Em declarações ao DN, Rafael Alcadipani, especialista em segurança pública da Faculdade Getú-lio Vargas, considerou o ministro "completamente incapaz para o cargo que ocupa". "Esta é a crónica de uma tragédia anunciada, a FDN vingou-se da expansão do PCC para a região de atuação dela, em mais um episódio de uma guerra com outros episódios só este ano", afirmou Alcadipani. "E o ministro a única que coisa que faz é recusar-se a dizer o nome das fações criminosas quando fala, como se elas desaparecessem só porque não as nomeia, não está à altura dos desafios e não é de hoje, o problema da segurança pública no Brasil precisa de alguém mais capacitado, morrem 70 mil cidadãos por causa do crime por ano, mais do que em todo o conflito na Síria".

E o ministro vem colecionando gafes, como quando se propôs erradicar toda a maconha do Brasil, motivando reações de espanto e gozo. Ou quando em comício de um candidato autárquico do PSDB revelou que estava a chegar uma notícia-bomba na Operação Lava-Jato, horas antes de o ex-ministro do PT Antonio Palocci ser detido, no que foi entendido como uma fuga de informação. Ou ainda quando fez uma declaração sobre o procurador-geral da República e foi imediatamente desautorizado pelo presidente do Brasil.

É aliás de dentro do governo liderado por Temer, mais do que na oposição, que surgem vozes off the record a aconselhar a sua demissão, aproveitando as críticas após o massacre de Manaus. O Palácio do Planalto, porém, hesita, uma vez que em sete meses já perdeu seis ministros. Alexandre de Moraes, de 48 anos, além da carreira política, é um jurista consagrado - foi defensor do ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha, hoje detido na Operação Lava-Jato, que aliás o indicou a Temer para o governo.

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