Marina Silva: a seringueira que pode acabar no Palácio do Planalto

Natural do estado do Acre, em criança colheu borracha e sobreviveu à malária, que dizimou a família. Na adolescência trocou a vida de freira pelo sacerdócio da ecologia e hoje lidera sondagens para as eleições presidenciais de 2018 no Brasil

Com a Operação Lava-Jato a dizimar políticos e partidos tradicionais do Brasil, Marina Silva, líder da Rede, uma nova força feita à sua medida, surge à frente das sondagens para as presidenciais de 2018 em todos os cenários. Bate Lula da Silva, o carismático líder histórico do PT, bate os três presidenciáveis do PSDB, Aécio Neves, Geraldo Alckmin e José Serra, e bate o ultradireitista Jair Bolsonaro. Será desta que a ecologista nascida há 58 anos entre as seringueiras do paupérrimo Acre chegará ao Palácio do Planalto, em Brasília?

Marina, que nasceu em Rio Branco, capital do Acre, num parto feito pela avó, começou a colher borracha das árvores no seringal aos 10 anos com a família, composta por seringueiros e domésticas. A vida miserável dos Silva matou os pais e três dos seus 11 irmãos por malária. Marina, que também contraiu a doença, além de hepatite, contaminação por mercúrio e leishmaniose, sobreviveu ao ser acolhida na casa Irmãs Servas de Maria. Enquanto trabalhava como empregada doméstica, os seus sonhos eram ser freira e estudar. Só aprendeu a ler aos 16 mas acabou licenciada em História.

Mudou de ideias em relação à carreira eclesiástica e seguiu outros sacerdócios: o do ambientalismo, seguindo o líder ecologista do Amazonas Chico Mendes, assassinado em 1988, e o da política, como devota de Lula, no PT, pelo qual foi vereadora, deputada, senadora e ministra do Ambiente, no primeiro governo do ex-metalúrgico. Com Lula partilha a persistência - o hoje ex-presidente perdeu três eleições antes de ganhar duas e a ambientalista vai a caminho da terceira corrida ao Planalto após duas derrotas -, as raízes humildes, o apelido mais português e brasileiro de todos, Silva, e a mudança de nome. Como a lei brasileira não permite que candidatos à presidência usem alcunhas, Luiz Inácio da Silva acrescentou o diminutivo Lula, assim como Maria Osmarina da Silva juntou Marina ao registo para se poder candidatar com o 'petit nom' com que a avó parteira a tratava.

Abandonou o governo Lula e o PT em 2008 ao sentir que o presidente tomava as dores da sua rival Dilma Rousseff. Enquanto ministra da Casa Civil, Dilma queria concluir obras numa hidroelétrica no rio Madeira, em Rondônia, mas Marina demorava em conceder as licenças ambientais. "Em nome de uma teoria dela sobre os bagres [peixe da América do Sul] não podíamos construir a hidroelétrica, deu um prejuízo danado", disse Lula. Dois anos depois de abandonar o executivo, Marina, já uma ambientalista de reconhecimento internacional, concorreu ao Planalto pelo Partido Verde (PV) e conquistou um eleitorado informado, urbano e jovem. A "onda verde", como chamaram ao percurso da ecologista, traduziu-se em quase 20 milhões de votos - insuficientes para a segunda volta, na qual Dilma bateria José Serra, do PSDB.

Na saída do PV, em 2011, disse que não era hora "de ser pragmática e sim "sonhática"". O neologismo colou-se à ambientalista para o bem e, sobretudo, para o mal desde então: opositores e colunistas chamam-lhe "sonhática" para sublinhar o carácter irrealizável das suas propostas em nome de "uma nova política em contraponto com a velha política", outras das suas frases de efeito. Marina construiu então um partido, o Rede, sob medida. Problemas burocráticos, no entanto, impediram-no de participar mas eleições de 2014 e a candidata ficou órfã. Já em pré-campanha, Eduardo Campos, do Partido Socialista Brasileiro, propôs-lhe uma candidatura à vice-presidência a seu lado.

O casamento por conveniência previu um acordo pré-nupcial em que ela se comprometia a não hostilizar os grandes latifundiários que o apoiavam e ele não insistiria em levá-la a ações de campanha com políticos de que ela não gostasse, como o governador de São Paulo Geraldo Alckmin. Campos, depois de dar uma entrevista ao Jornal Nacional da TV Globo, no Rio de Janeiro, insistiu mesmo assim que ela fosse no dia seguinte a Santos para encontrar Alckmin e empresários. À última hora, Marina disse que não embarcaria no Cessna que acabou por cair e matar Campos, em agosto de 2014.

Marina, que entretanto se tornou mística, evangélica e vegetariana, passou a candidata ao Planalto. Pela exposição pública da morte de Campos e por parecer destinada por forças superiores à presidência, ultrapassou Aécio Neves, do PSDB, e ameaçou Dilma, do PT, nas sondagens. Os dois, porém, usaram as suas enormes propagandas eleitorais (no país, cada força política vale o seu peso em tempo e tanto Aécio como Dilma eram apoiados por largo número de partidos) para derrubar Marina. "Mudança mas em segurança", reclamava o PSDB; o PT, do marqueteiro João Santana, sugeriu ligação da ecologista à banca, pelo facto de Neca Setúbal, herdeira do Banco Itaú, ser sua coordenadora de campanha.

A ex-seringueira, que guardava mágoa de Dilma desde o ministério Lula, superou a votação de 2010 mas os 22 milhões de votos não chegaram para passar à segunda volta, em que apoiou Aécio. O candidato agradeceu com um beijo na mão de uma Marina, pela primeira vez, vista em público de jeans e sem o cabelo preso. "O coque era muito careta, deu uma rejuvenescida de dez anos", comentou o estilista das famosas Marco Antonio de Biaggi, na ocasião.

É com novo visual, um partido personalizado e o vento político a favor que Marina, sem constrangimentos da Lava-Jato, vai aparecer em 2018. Menos de 50 anos depois de andar a colher borracha nos confins do Acre.

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