Legado de João Paulo II novamente em causa. Sabia ou não dos abusos sexuais?

Esta semana, um editorial da National Catholic Reporter desafiou os bispos norte-americanos "a suprimir o culto do falecido pontífice". Parte da ala católica contesta os processos de beatificação e canonização de João Paulo à luz do que agora se sabe sobre o relatório que implica o ex-cardeal Theodore McCarrick, expulso do sacerdócio da Igreja por abusos sexuais.

O relatório publicado na semana passada sobre o caso do ex-cardeal Theodore McCarrick, expulso do sacerdócio da Igreja por abusos sexuais, está a ensombrar o legado do Papa João Paulo II e a levantar dúvidas sobre o seu processo de beatificação (2011) e canonização (2014). Isto porque Karol Wojtyła foi decisivo na ascensão do cardeal norte-americano na hierarquia da Igreja, chegando a arcebispo de Washington num momento em que já recaíam sobre eles várias suspeitas.

Estas acusações, que fazem parte de uma investigação da Santa Sé, reavivaram o debate em torno da canonização de João Paulo II, com alguma ala católica a colocar em causa a rapidez do processo que permitiu que em 2014 fosse proclamado Santo. Assim como antes também foram levantadas dúvidas sobre a rapidez do processo de beatificação.

Grupos que representam vítimas de abuso sexual por padres católicos disseram que ele não fez o suficiente para erradicar um escândalo de pedofilia que surgiu no final do seu pontificado e que tem pairado sobre a Igreja desde então.

No relatório de 450 páginas sobre a investigação, o Vaticano negou ter ignorado ou encoberto os abusos sexuais cometidos pelo ex-cardeal norte-americano Theodore McCarrick, admitindo, porém, que existiram erros cometidos em avaliações feitas com base em "informações imprecisas e incompletas".

A Santa Sé considerou, em particular, que vários bispos norte-americanos há muito que forneciam informações "inexatas e incompletas" sobre a "má conduta" sexual de McCarrick.

Os rumores sobre os convites do ex-cardeal norte-americano a jovens seminaristas e padres adultos para dividirem a cama consigo, divulgados na década de 1990, e a denúncia feita por um outro cardeal sobre tais abusos não impediram o influente McCarrick de ser nomeado arcebispo de Washington, no final de 2000, num processo sob a égide do então papa João Paulo II.

Depois de uma investigação no Vaticano que alertou para o risco de um escândalo sexual, o papa João Paulo II decidiu confiar em McCarrick, que alegou sempre a sua inocência.

Quando morreu em 2005, João Paulo II gozava de uma enorme popularidade. E seis anos depois foi-lhe concedida a beatificação. Um espaço temporal demasiado curto, pois até então, segundo as regras da Igreja, era necessário esperar cinco anos após a morte só para o processo se iniciar. Mas neste caso o processo começou logo após a sua morte, graças ao facto de o Papa Benedicto XVI ter levantado a norma dos cinco anos.

Esta discussão em torno do legado de João Paulo II não é de agora, mas foi reavivada com a publicação do relatório sobre Theodore McCarrick. O influente portal National Catholic Reporter chegou mesmo a publicar há dias um editorial no qual desafiava os bispos norte-americanos "a suprimir o culto do falecido pontífice".

"Não há mais como escapar da verdade. João Paulo II, em muitos aspetos um homem admirável, era deliberadamente cego em relação ao abuso de crianças e jovens. Suprimir o culto do falecido pontífice não significaria dizer às pessoas que elas precisam de deitar foras as suas relíquias ou medalhas. Mas para as vítimas de abusos, para os seus defensores e muitos outros, a memória de João Paulo II não é mais uma bênção", pode ler-se no editorial datado de 13 de novembro.

"É tempo para um difícil acerto de contas. Esse homem, proclamado santo pelo papa Francisco em 2014, deliberadamente colocou em risco crianças e jovens adultos na Arquidiocese de Washington, D.C., e em todo o mundo. Ao fazer isso, também destruiu o testemunho global da Igreja, quebrou a sua credibilidade como uma instituição, e aponta um exemplo deplorável para os bispos em ignorar os relatos das vítimas de abuso", podia ler-se ainda.

Outros analistas são da opinião que de facto não houve tempo suficiente para estudar o legado de João Paulo II. O padre jesuíta Thomas Resse, que tem uma coluna de opinião no jornal Religion News, escreveu que o recente relatório sobre os abusos sexuais cometidos pelo ex-cardeal McCarrick demonstram que foi um erro canonizar João Paulo II cedo demais.

Mas também existem os defensores de João Paulo II, que argumentam que o Papa foi enganado por McCarrick, que jurou numa carta enviada a João Paulo II que era inocente. O biógrafo George Weigel também saiu em defesa de João Paulo II, lamentando que o relatório ordenado pelo Papa Francisco tenha dado lugar "a conclusões precipitadas".

"Não existe absolutamente nenhuma evidência no relatório que prove que João Paulo II nomeou deliberadamente um predador sexual para arcebispo de Washington", referiu o biógrafo, admitindo, contudo, que João Paulo II se equivocou: "Mas os santos são seres humanos e a santidade não é por si só uma garantia de um juízo infalível sobre pessoas ou situações."

A Santa Sé optou sempre ao longo dos anos por não realizar qualquer julgamento devido à ausência de vítimas menores. Mas em 2017 o escândalo rebentou novamente, com a primeira denúncia por agressão sexual revelada por um rapaz com 16 anos.

Foi então que o Papa Francisco ordenou em 2018 que se fizesse uma investigação, tendo Theodore McCarrick visto o seu título de cardeal retirado no verão de 2018, antes de ser destituído no início de 2019, uma sanção quase sem precedentes no historial da Igreja Católica.

No outono de 2018, o Papa Francisco prometeu fazer uma investigação completa sobre os atos praticados por McCarrick, que, durante a sua carreira religiosa, foi bispo de Nova Iorque, Metuchen e Newark (Nova Jersey).

Desde então, as associações de defesa das vítimas de abuso sexual por parte de padres não deixaram de exigir conclusões à hierarquia da Igreja Católica.

O relatório sobre a carreira do cardeal norte-americano chegou a motivar duras críticas do prelado ultraconservador italiano Carlo Maria Vigano, que pediu ao Papa Francisco que renunciasse em agosto de 2018, acusando-o de ter protegido Teodore McCarrick por muito tempo.

O relatório sobre o comportamento de McCarrick danificou a imagem da Igreja, ao indicar depoimentos de muitas pessoas que alegam ter mantido contacto físico com o prelado norte-americano, descrevendo "abusos e agressão sexual", atividades sexuais indesejadas" e outros contactos físicos íntimos.

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