Kenneth Starr está de volta, mas agora é para elogiar Bill Clinton

Foi o procurador que tentou usar o escândalo Lewinsky para destituir o presidente nos anos 1990. Agrada-lhe, porém, o desempenho do democrata desde que saiu da Casa Branca.

Não é a primeira vez que alguém chama a Bill Clinton "o político mais brilhante da geração baby boomer", mas agora as palavras foram ditas por Kenneth Starr, o procurador que investigou nos anos 1990 o caso Lewinsky e tudo fez para destituir o presidente democrata. O próprio New York Times, que ouviu o antigo procurador em Filadélfia, na apresentação de um livro sobre história presidencial, não escondeu a surpresa no título que deu à reportagem: "Kenneth Starr, que tentou enterrar Bill Clinton, agora só lhe faz elogios". E que elogios, sobretudo à filantropia desde a saída da Casa Branca, espécie de "redenção", segundo o homem que foi acusado de uma cruzada ao serviço dos republicanos.

As declarações de Starr surgem numa altura em que Donald Trump tem procurado recuperar os escândalos associados a Bill Clinton de modo a atingir a mulher deste, Hillary, prestes a ser a escolha do Partido Democrata para as presidenciais de novembro. Trump, que os republicanos começam a aceitar como candidato, tem-se esforçado por fazer crer que Hillary protegeu o marido, ignorando as supostas vítimas. Uma estratégia destinada a prejudicar a popularidade da antiga primeira-dama entre as americanas.

Starr foi até esta semana reitor da Universidade Baylor, uma escola batista em Waco, no seu Texas natal. Nascido a 21 de julho de 1946, é um baby boomer tal como Clinton, que nasceu no vizinho Arkansas, menos de um mês depois. Filho de um pastor protestante, o jovem Ken chegou a vender bíblias de porta em porta para ajudar a pagar os estudos superiores. Membro da geração nascida logo a seguir à Segunda Guerra Mundial, numa época de grande prosperidade dos Estados Unidos, licenciou-se na Universidade George Washington e prosseguiu os estudos de Direito na Brown e depois na Duke, onde se doutorou. Chegou a trabalhar para o Supremo Tribunal e como conselheiro do Procurador-Geral (o equivalente a ministro da Justiça) durante o primeiro mandato do republicano Ronald Reagan. Mas só se tornou figura pública quando assumiu em 1994 os vários processos de investigação que de uma forma ou outra iam parar a Clinton.

Starr começou por investigar o caso Whitewater, relacionado com uma venda de terras no Arkansas no tempo em que Clinton era governador. Depois investigou o suicídio de um conselheiro da Casa Branca e alguns outros casos menores, até se fixar na relação entre o presidente e Monica Lewinsky, uma estagiária da Casa Branca.

Interrogado por ordem de Starr, Clinton pediu uma definição de ato sexual e logo de seguida desmentiu ter tido sexo com Lewinsky. Starr não desistiu de acumular provas, até um vestido com sémen presidencial guardado por uma amiga da estagiária. E acusou Clinton de perjúrio, abrindo um processo de destituição que foi votado em 1998 pela Câmara dos Representantes, mas rejeitado no ano seguinte pelo Senado. Na época, o centrista Clinton era um alvo a abater pelos republicanos e não faltou quem visse em Starr um conservador ao serviço dos interesses do partido.

Ficou também célebre o relatório batizado com o seu nome que tinha tanto de detalhe jurídico como de revelação de pormenores sobre os encontros sexuais entre o presidente e Lewinsky na Sala Oval. A acusação contra o presidente era que este tinha mentido sob juramento sobre o sexo oral e depois tudo ter feito para encobrir provas. Starr acabaria por expandir a investigação para incluir o caso Paula Jones, a denúncia por uma antiga funcionária do Arkansas de assédio pelo então governador.

Starr demitiu-se em 1999 e a investigação a Clinton prosseguiu mais três anos até ser arquivada, já com este fora da Casa Branca.

O bom exemplo de Carter

É a carreira pós-presidencial de Clinton que merece fortíssimos elogios: "O presidente Carter estabeleceu um patamar muito elevado, e claramente o presidente Clinton está a segui-lo", afirmou Starr, referindo-se a Jimmy Carter, democrata que saiu do poder com péssima imagem mas que nas últimas décadas se tornou a referência moral da América e recebeu o Nobel da Paz.

Starr admitiu também remorso por a sua investigação a Clinton ter demorado tanto e ter "trazido grande dor a muita gente" e até lamenta que aquilo a que chamou "coisas desagradáveis" tenham prejudicado o legado de Clinton. Sobre a campanha em curso, falou pouco e sem citar nomes, notou o NYT. Pareceu aludir a Trump criticamente quando se disse preocupado com "a emergência transnacional de um populismo quase radical". Mas também pareceu concordar quando falou das mudanças demográficas (leia-se imigração) como fonte de "instabilidade".

Aos 69 anos, Starr teve que lidar com os escândalos na Baylor, onde vários jogadores da universidade têm sido acusados de assédio. Por isso deixou de ser reitor, mesmo que continue professor.

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