Katie Hill despede-se do Congresso. "Não quero ser usada como moeda de troca"

A democrata Katie Hill diz-se vítima do marido e dos meios de comunicação da direita e despediu-se do Capitólio com um discurso em que aproveitou para lembrar que o presidente dos EUA tem dezenas de mulheres a acusá-lo de agressão sexual.

"Vou-me embora porque só há uma investigação que merece a atenção deste país, aquela em que votámos", disse Katie Hill, de 32 anos, sobre a formalização do inquérito à destituição de Donald Trump, no último discurso que proferiu na Câmara dos Representantes. A democrata apresentou a demissão no domingo após ter sido alvo de uma campanha em que foram divulgadas fotografias íntimas e mensagens que insinuam uma relação com um subordinado.

Katie Hill começou por assumir as suas responsabilidades "por este fim repentino", para logo apontar o dedo a outros responsáveis e a uma cultura que continua a reprimir as mulheres. "Parto agora por causa da dualidade de critérios. Parto porque já não quero ser utilizada como moeda de troca. Parto porque não queria ser vendida por jornais, blogues e sites, usada por operacionais sem escrúpulos para fazer a política mais suja que já vi e por media de direita que capta cliques e expande a audiência ao distribuir fotos íntimas minhas tiradas sem o meu conhecimento, muito menos o meu consentimento, para entretenimento sexual de milhões", disse.

"Eu parto por causa de uma cultura misógina que alegremente consumiu minhas fotos nuas", prosseguiu Hill, na quinta-feira, que revelou ter recebido milhares de mensagens e telefonemas "vilmente ameaçadores", os quais fizeram temer pela sua vida e pela dos seus próximos.

"As forças de vingança de um homem amargo e ciumento, a exploração cibernética e a humilhação sexual que visam o nosso género e um grande segmento da sociedade que teme e odeia mulheres poderosas combinaram-se para expulsar uma jovem mulher do poder e dizer que ela não pertence aqui", afirmou, antes de fazer de Donald Trump o seu alvo: "Ainda assim, um homem que se gaba da sua predação sexual, que teve dezenas de mulheres que se apresentaram para acusá-lo de agressão sexual, que promove políticas que são particularmente prejudiciais para as mulheres e que preenche os tribunais com juízes que orgulhosamente decidem privar as mulheres do direito mais fundamental de controlar o seu próprio corpo, fica no cargo mais importante da nação."

"Temos homens que foram acusados, de forma credível, de actos intencionais de violência sexual e permanecem nas salas dos conselhos de administração, no Supremo Tribunal, neste mesmo local e... na Sala Oval."

Katie Hill, que aproveitou o momento para pedir desculpas à família, amigos e apoiantes, viu a Comissão de Ética da Câmara dos Representantes abrir um inquérito por suspeitas de manter uma relação com um funcionário do seu gabinete. Em fevereiro de 2018 entraram em vigor as novas regras do Capitólio, as quais proíbem relações íntimas entre eleitos e seus assistentes ou funcionários com o objetivo de lutar contra o assédio sexual e o abuso de poder.

"Disseram-me que ficaram em fúria depois de eu ter mantido firme em resultado da publicação do primeiro artigo e que tinham centenas de outras fotos e de mensagens de texto e que iria publicá-las a conta-gotas até me desfazerem", disse na despedida. No domingo, sabendo que outras fotografias podiam ser publicadas, acabou por pedir a demissão.

Katie Hill negou qualquer relacionamento com o funcionário em questão, Graham Kelly. Admitiu, sim, uma relação com a assistente da campanha (que não trabalha no Congresso), com a qual terá sido fotografada pelo marido, numa aparente relação a três. Katie Hill, que se assume como bissexual, estará a divorciar-se do marido e deverá processá-lo.

Pai quer ex-marido punido

É esse o desejo do pai de Katie, Michael. "Permaneci em silêncio e vi como Katie e a nossa família inteira tiveram que suportar o espetáculo criado quando o seu ex-marido enviou 'pornografia de vingança' para a RedState e ou outro tablóide britânico", comentou à ABC News, antes de dizer que "por cometer este crime, Kenny [Heslep] merece ser punido na sua máxima extensão prevista por lei".

E sustentou a sua declaração, ao dizer que a ação de Heslep violou o código penal da Califórnia ao distribuir imagens íntimas de Katie. "Não vamos fingir que a sua demissão é algo mais do que o resultado direto das ações de um homem mau, cujo único propósito na vida, depois de ter sido deixado, era ferir a minha menina. O mal tem muitos rostos e este é um deles", concluiu.

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG