John Dillinger. O gangster que inspirou "Inimigos Públicos" vai ser exumado

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John Dillinger. O gangster que inspirou "Inimigos Públicos" vai ser exumado

Elevado à categoria de estrela pop americana, Dillinger roubava bancos nos anos 30 e ajudava quem mais precisava. Família diz que não é ele que está enterrado no cemitério de Crown Hill, em Indianópolis

Um texto sobre John Dillinger podia começar assim: "a sua vida dava um filme". Mas não, porque a vida do gangster - que se tornou numa figura pop americana - deu mesmo um filme: "Inimigos Públicos", de Michael Mann, com Johnny Depp a interpretar aquele que foi designado pelo FBI como o primeiro "inimigo público número um" da América.

Estava-se nos anos 30 e a América vivia a pior crise económica da sua história, a Grande Depressão. Dillinger roubava bancos mas ajudava os pobres. Por isso era amado e, por isso, foi elevado a figura pop americana - há várias referências musicais e literárias à sua pessoa, aparece num episódio dos Simpson e é referido em "Walking Dead" e até Humphrey Bogart interpretou uma personagem inspirada do criminoso.

A sua ligação ao cinema estava traçada pelo destino: depois de muito ludibriar as autoridades americanas, e de ter escapado da prisão com uma arma que ele próprio esculpiu em madeira com uma lâmina de barbear ou em sabão (há as duas versões), viria a ser morto pelo FBI quando foi ver o filme "Manhattan Melodrama", com Clark Gable - sobre gangsters , o que mais poderia ser? - no Biograph Teather, em Chicago. Estava acompanhado pela namorada e outra por outra mulher que o denunciou. A 22 de julho de 1934, quando foi abatido com três balas no coração, tinha 31 anos. Já se passaram 85 anos.

Duas toneladas de cimento sobre o caixão

John Dellinger tem sido notícia nos últimos tempos porque a família quer exumar os seus restos mortais depositados no cemitério de Crown Hill, em Indianópolis, a cidade onde nasceu. As autoridades do Indiana já autorizaram a exumação mas esta tem vindo a ser adiada - a nova data é 31 de dezembro de 2019, véspera do Ano Novo. A razão para desenterrar Dellinger é que os familiares entendem que não é o gangster que está no túmulo.

Os sobrinhos de Dillinger, Michael e Carol Thompson, acreditam que o FBI "matou o homem errado" em 1934. E garantem ter provas de que o impostor no túmulo tinha impressões digitais, cor dos olhos, dentes molares e formato da cabeça diferentes de Dillinger. O FBI responde que não passam de "teorias da conspiração". A verdade é que o cemitério tem lutado contra a decisão do tribunal de exumar o corpo.

Retirar o caixão da cova também não deverá ser uma tarefa fácil, já que o pai de John Dillinger pediu que fossem derramadas duas toneladas de cimento sobre o caixão. Receava que a urna fosse desenterrada para profanar ou roubar o cadáver.

São muitas as histórias sobre Jackrabbit (Coelho Jack), assim chamado pela rapidez com que executava os roubos a bancos. Diz-se que chegou a disfarçar-se de vendedor de alarmes de segurança ou até por diretor de uma companhia cinematográfica que queria encenar um assalto ao banco.

A traição da "lady in red"

A história da noite da sua morte também tem contornos hollywoodescos: Dellinger foi ao cinema com a namorada Polly Hamilton e a amiga Ana Cumpanas, conhecida por Anna Sage. Esta estaria com problemas com os serviços de imigração e decidiu fazer um acordo com as autoridades, nomeadamente com o agente Melvin Purvis para apanharem o gangster.

Como não havia a certeza se nesse domingo à noite iriam ao Biograph Theater ou ao Marboro, os agentes do FBI dividiram-se pelos dois locais. O sinal que tinham combinado com Anna Sage é que ela levaria uma blusa branca e uma saia laranja - as luzes distorceram as cores e ela acabaria por ficar conhecida por woman in red (mulher de vermelho).

Ao aperceber-se da situação, Dillinger ainda terá sacado da Colt que trazia e tentou fugir por um beco. Mas não teve escapatória possível e três tiros certeiros ao coração roubaram-lhe a vida.

Depois de ter cumprido com a sua parte, Anna Sage recebeu a combinada recompensa de cinco mil dólares. Mas não foi suficiente para se manter nos Estados Unidos e, dois anos depois, 1936 acabaria por ser deportada para a Roménia.

John Dillinger tinha uma figura eclética (na prisão revelou-se como jogador de basebol), preocupava-se com a aparência e vestia sempre fatos de qualidade. Um dos seus comparsas mais conhecidos na vida criminosa era "Baby Face Nelson" (Lester Gillis), com quem realizava os assaltos.

Uma vida de crime

Foi preso pela primeira vez em 1924, na Cadeia Estadual do Indiana, e foi lá que conheceu os primeiros assaltantes de bancos, como Harry Pierpont e Russel "Boobie" Clark, a quem ajudou a escaparem-se da prisão. Dillinger ficou lá até 1933, um ano antes de ter sido abatido pelo FBI.

Quando saiu em liberdade condicional, Dillinger juntou-se aos criminosos que tinha conhecido atrás das grades e em poucos meses voltaria a ser detido, desta vez no Ohio. O gangue a que pertencia ajudou-o a fugir da cadeia, tendo para isso assassinado o xerife Jessie Sarber.

No final do ano, voltava a ser detido em Tucson, no Arizona, durante um incêndio no Historic Hotel Congress. Foi então extraditado para Crown Point, no Indiana, o seu estado natal, para ser julgado pelo assassinato do oficial William Patrick O"Malley, morto durante o assalto ao Banco First National, em Chicago. À chegada, foi saudado por uma multidão de fãs no Aeroporto de Chicago, tal era a sua popularidade.

A 3 de março de 1934, Dillinger escapou da Prisão de Crown Point com uma arma falsa e obrigou o seu refém a levá-lo para o estado de Illinois, cometendo assim um crime federal, o que colocou o FBI no seu encalço. No verão desse ano instalou-se em Chicago com o nome de Jimmy Lawrance e conheceu Polly Hamilton, que desconhecia a sua verdadeira identidade. Nesta cidade seria abatido.

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