"A matemática continua a ser vantajosa para a reeleição de Trump"

Em Lisboa para o V Luso-American Legislator's Dialogue da FLAD, Jim Costa fala ao DN de Trump, do impeachment e dos candidatos às presidenciais de 2020 nos EUA. O congressista democrata da Califórnia, neto de açorianos, não afasta um segundo mandato de Trump se a oposição não tiver a atitude certa.

Depois das declarações do procurador-especial Robert Mueller, o impeachment do presidente Donald Trump voltou a estar em cima da mesa?
Há perspetivas diferentes. O impeachment tem estado em cima da mesa desde que começaram as várias investigações e os julgamentos. O processo de impeachment faz parte da Constituição americana. Mas também é um processo muito político. Para ser efetivo, tem de ter apoio bipartidário e Nancy Pelosi [a presidente da Câmara dos Representantes] já deixou isso claro. Se for apenas um esforço político de um único partido, então não vai conseguir o apoio da maioria do povo americano. Independentemente das violações da lei e das obstruções à justiça em que o nosso presidente se possa ter envolvido e que são apontadas no relatório Mueller, fica claro no documento que houve uma tentativa de agir nesse sentido mas que não se chegou a concretizar. Para que se concretizasse, algumas pessoas tinham de agir e não o fizeram. Por isso entramos numa área cinzenta. Acho que a maioria dos americanos quer que nos empenhemos em conseguir objetivos concretos. E o presidente torna isso difícil, todos os dias. Devido à forma pouco convencional como age. Mas temos um país para gerir e é preciso tomar decisões muito importantes. E nós, democratas, corremos o risco de parecer totalmente obcecados com o processo de impeachment e não nos empenharmos em reduzir o preço dos medicamentos, em proteger o acesso das pessoas a um seguro de saúde, de não fazermos esforços bipartidários para aprovar o pacote para as infra-estruturas ou em aprovar o orçamento a tempo para evitar outro shutdown do governo. Se não cumprirmos os nossos deveres enquanto Congresso, os americanos vão achar que não estamos a fazer o nosso trabalho.

Primeiro cumprir esses deveres e depois pensar no impeachment, então?
Nesse aspeto, há uma expressão americana que diz que podemos "caminhar e mastigar pastilha ao mesmo tempo", ou seja, fazer uma coisa não invalida que se faça a outra. As investigações vão continuar, seguir o seu caminho e talvez cheguemos a um ponto nos próximos dois a quatro meses em que pareça haver um apoio crescente que permita iniciar o processo de impeachment. O processo de audições é apenas o primeiro passo, que conclui ou não haver motivo para invocar os artigos do impeachment. O outro desafio, no que se refere a aprovar o orçamento a tempo, aprovar o pacote das infra-estruturas ou a reforma da imigração ou da saúde, é que o Senado continua sob controlo dos republicanos. Além disso, é importante que as pessoas percebam que o impeachment não tira o presidente do cargo - é mais como uma acusação. E há um julgamento que se realiza no Senado. Vimos isso no impeachment a Bill Clinton. Na altura não houve apoio para acusar o presidente, por isso ele saiu do processo de cabeça erguida e ainda mais popular quando deixou a presidência do que quando foi eleito. A questão é saber se havia ou não verdadeiras bases para um impeachment - a sua conduta pessoal era condenável mas o que aconteceu, lembraram muitos, envolvia dois adultos que deram o seu consentimento. Hoje a verdade é que Mitch McConnell [o líder da maioria republicana no Senado] tem tido uma liderança muito partidária. Em 2016 recusou sequer ouvir um juiz muito respeitado que fora nomeado para o Supremo porque estava para acontecer uma eleição. Mas esta semana veio dizer que se o mesmo acontecesse agora, claro que avançaria com o processo de audição. Isso devia fazer com que todos percebessem que se invocássemos os artigos para o impeachment, ele diria: "Caso encerrado!" Foi o que disse depois do relatório Mueller. O próprio presidente poderia dar o caso por encerrado, argumentando que o Senado não vê razões para invocar os artigos do impeachment, porque não houve conluio, não houve obstrução à justiça. São os argumentos dele. Como membros do Congresso temos de ter isto tudo em conta antes de avançar para o impeachment.

Portanto, a melhor forma de tirar Trump da Casa Branca será mesmo ganhar as presidenciais de 2020...
É o que espero que aconteça. Para isso precisamos de um ticket [a dupla de candidatos a presidente e vice-presidente] forte.

A campanha já começou. Ter tantos candidatos à nomeação do partido pode prejudicar os democratas?
Acho que temos candidatos muito talentosos e o processo está a avançar. Vai dar aos americanos um leque de escolhas que reflita a diversidade do Partido Democrata. Esperamos ter os nomeados mais fortes possível.

Quando estive no seu gabinete em Washington em janeiro de 2018, contou-me que Joe Biden costuma brincar consigo dizendo: "Jim, se tivesse o teu cabelo era presidente dos EUA". Continua a não ter o seu cabelo, mas é agora que é presidente dos EUA?
[Ri] Talvez venha a ser. Quem sabe!

Essa diversidade de que estava a falar, pode ser o segredo para o sucesso dos democratas nas próximas presidenciais?
Conheço a maioria dos candidatos e tenho uma boa relação com algumas destas pessoas talentosas. Na verdade estou convencido que alguns deles estão mais a concorrer à vice-presidência, outros estão a ganhar experiência e nome para se candidatarem a governadores ou a outros cargos. Alguns estão a posicionar-se para ocuparem um lugar na Administração. Há dois níveis. O nível A e o nível B... Gosto do mayor Pete [Buttigieg], este tipo surgiu vindo do nada. É uma lufada de ar fresco.

Acha que é apenas isso, uma lufada de ar fresco?
Acho que é mais do que isso. O mais provável é que ele tenha bons resultados, mas não suficientemente bons para obter a nomeação. Por isso pode acabar por ficar em boa posição para se candidatar a governador do Indiana.

Quem colocaria no nível A e quem ficaria no B. Joe Biden, Bernie Sanders, Elizabeth Warren no A?
Não só. Eu colocaria uns oito a dez candidatos no nível A? Acho que Bernie Sanders está a perder gás. Ele e Elizabeth Warren ocupam a mesma faixa nesta corrida. Sanders umas vezes é democrata, outras é independente, agora é democrata de novo. Mas acho que muita da excitação que causou está a passar. Há outras pessoas na mesma faixa que ele: Warren, mas também Kirsten Gilibrand, também Kamala Harris, senadora do meu estado, a Califórnia. Harris tem raízes diferentes, sendo indiano-afro-americana, além de ter sido procuradora geral do estado, o que lhe dá uma experiência diferente. A faixa de Biden não está verdadeiramente ocupada por mais ninguém, apesar de Amy Klobuchar gostar de o fazer. Mas tem sido ultrapassada. Cory Booker está a tentar... muitos deles estão a tentar perceber onde conseguem descolar. Quando chegarmos a janeiro já deverá ter reduzido o número de candidatos. Significativamente. E depois da superterça-feira, a primeira terça-feira de março, quando a Califórnia organiza as suas primárias, já devemos estar reduzidos a três a cinco candidatos.,

Com toda a sua experiência, o que acha desta vaga azul que depois das intercalares de novembro varreu o Congresso, com muitas vozes femininas fortes?
Acho ótimo. Temos agora 102 mulheres no Congresso - claro que ainda estamos longe da paridade, mas estamos a caminhar no bom sentido. Temos ótimas congressistas que poderão ter carreiras longas e e significativas no Congresso. É importante perceber que a maioria que acabamos de recuperar na Câmara se deve muito a várias mulheres que conseguiram vencer lugares que eram de republicanos. As atenções estão muito concentradas em três das novas congressistas mas todas elas venceram lugares que já eram democratas, não vieram ajudar a recuperar a maioria.

Alexandria Ocasio-Cortez surpreendeu ao vencer a primárias democrata, não o lugar no Congresso, por exemplo...
Sim, Joe Crowley já detinha esse lugar há muito tempo. Todos sabiam que ia continuar democrata, o que não sabíamos era que Joe estava tão vulnerável. O mesmo acontece com Rachida Tlaib em Detroit, Michigan, que é um lugar dos democratas há 60 anos. Tal como no Minnesota, com o lugar de Ilhan Omar. Mas Mikie Sherrill em New Jersey recuperou um lugar aos republicanos. Ela é piloto da marinha. O lugar de Abigail Spanberger na Virgínia também foi recuperado aos republicanos pela ex-agente da CIA. Se não fossem estas mulheres fortes e talentosas, vindas das mais diversas origens, não teríamos recuperado a maioria. Estas vão ser as futuras líderes da Câmara dos Representantes.

Portanto, nem quer pensar num segundo mandato de Donald Trump?
Não, não é isso. Nancy Pelosi tem feito um ótimo trabalho a aproveitar as melhores competências de cada membro da Câmara. Ela lida com Trump há 30 anos, desde os tempos em que ele era democrata e doava dinheiro para as campanhas dela. E sabe como mexer com ele! Está preparada para lidar com um bully, que é o que o presidente é. Mas a nossa maioria não está garantida. Temos de garantir que estes novos membros vão ser reeleitos. Só na Califórnia temos sete novos democratas. A speaker Pelosi sabe que não pode dar a sua maioria como um dado adquirido. E queremos ganhar o Senado. Para que Mitch McConnell não ponha mais juízes muito conservadores nos cargos. Mas a matemática em termos de colégio eleitoral continua a ser vantajosa para Trump e para a sua reeleição. Se não tivermos um ticket que seja capaz de ganhar o Wisconsin, Michigan, Pennsylvania, abre-se caminho a que Trump seja reeleito mesmo que não tenha a maioria do voto popular. Muitos de nós têm esse receio. Por isso temos de nos concentrar e ser responsáveis na escolha dos nossos nomeados. E de garantir que mantemos ou até ganhamos mais lugares no Congresso. Por isso quando me falam em impeachment, respondo que estamos concentrados em 2020.

E para terminar com uma pequena provocação: qual seria o seu ticket perfeito para 2020?
O meu ticket perfeito? Um candidato a presidente e um candidato a vice que possam ganhar.

Que resposta tão diplomática...
Há vários candidatos que se encaixam nessa descrição. Claro que Joe Biden tem de ser tido em conta, tal como Kamala Harris. Mas há outros com potencial. E acho que tem de haver uma mulher no ticket. Para manter o equilíbrio. Sobretudo tendo em conta o que os republicanos estão a fazer em relação aos direitos reprodutivos. Ter uma mulher no ticket é essencial para articular os assuntos. Quer seja a candidata a presidente ou a vice-presidente.

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG