Surpresa no Eurogrupo: autor do "milagre irlandês" é o sucessor de Centeno

Paschal Donohoe sucede a Mário Centeno como líder do fórum de ministros das Finanças da zona euro

O irlandês Paschal Donohoe é o novo presidente do Eurogrupo, ao vencer hoje a eleição para a liderança do fórum de ministros das Finanças da zona euro, anunciou o presidente cessante Mário Centeno.

"Parabéns ao novo presidente do Eurogrupo", escreveu Centeno na sua conta oficial na rede social Twitter, numa publicação ilustrada com uma fotografia do ministro das Finanças irlandês, que derrotou na segunda volta a espanhola Nadia Calviño - a candidata apoiada por Portugal -, depois de o luxemburguês Pierre Gramegna ter abdicado cumprida a primeira volta.

Numa eleição realizada por voto eletrónico e secreto durante uma reunião do Eurogrupo celebrada por videoconferência e dirigida, pela última vez, desde Lisboa, Donohoe, ministro de centro-direita, surpreendeu a favorita Nadia Calviño (socialista), que tinha o apoio declarado dos dois 'pesos pesados' da zona euro, Alemanha e França.

Donohoe, 45 anos e ministro desde 2017, tomará oficialmente posse na próxima segunda-feira, para um mandato de dois anos e meio, tornando-se o quarto presidente do fórum de ministros da zona euro, depois do luxemburguês Jean-Claude Juncker, do holandês Jeroen Dijsselbloem e do português Mário Centeno, que no mês passado abdicou de concorrer a um segundo mandato ao abandonar o cargo de ministro das Finanças.

O recém-eleito presidente do Eurogrupo participará já na conferência de imprensa por videoconferência que se celebrará de seguida, e que assinalará a despedida de Centeno, no final de uma reunião que assinalou também a estreia europeia do ministro português das Finanças, João Leão.

Costa elogia mandato de Centeno e felicita Donohoe

O primeiro-ministro, António Costa, saudou "calorosamente" o mandato que esta quinta-feira terminou do seu ex-ministro das Finanças Mário Centeno na presidência do Eurogrupo e felicitou a eleição para este cargo do irlandês Paschal Donohoe.

Saúdo calorosamente Mário Centeno pelo seu trabalho no Eurogrupo. A sua liderança foi essencial à aprovação do pacote do Eurogrupo para responder à crise económica e social", escreveu António Costa na sua conta pessoal na rede social Twiiter.

Na sua mensagem, o primeiro-ministro português deu em seguida os parabéns ao novo presidente do Eurogrupo, o irlandês Paschal Donohoe, desejando-lhe "felicidades" para o seu mandato.

Perfil: Donohoe, o autor do "milagre irlandês"

Paschal Donohoe, 45 anos, hoje eleito para a presidência do Eurogrupo, é conhecido por ter recolocado em ordem as finanças públicas do seu país e de ser pouco entusiasta com a ideia de taxar os 'gigantes' digitais norte-americanos.

De centro-direita, Donohoe, do partido Fine Gael (Partido Popular Europeu), é ministro das Finanças irlandês desde 2017 e, tal como Centeno em Portugal, foi o grande protagonista do primeiro excedente orçamental da Irlanda desde a crise financeira de 2008, que atingiu igualmente com particular dureza o seu país, que sofreu uma longa recessão.

Com 'tiques' então de "Ronaldo das Finanças" da Irlanda, Donohoe liderará nos próximos dois anos e meio o Eurogrupo, em pleno esforço de recuperação da economia europeia, com a particularidade de ser contra uma medida defendida por muitos para aumentar os recursos financeiros da Europa, um imposto digital sobre os 'gigantes' da Internet, e isto porque a Irlanda é o 'refúgio' europeu de muitos gigantes tecnológicos dos Estados Unidos.

Dos três candidatos à sucessão de Centeno, Donohoe é quem tem menos experiência de Bruxelas -- a espanhola Nadia Calviño trabalhou 12 anos em postos-chave na Comissão Europeia antes de ser convidada para ministra e o luxemburguês Pierre Gramegna leva já sete anos no Eurogrupo -, mas o apoio do PPE, a maior família política europeia, revelou-se decisivo para contrariar o favoritismo da candidata socialista, que tinha o apoio declaração de Alemanha e França (além de Portugal).

Antes de assumir a pasta das Finanças, em junho de 2017, Donohoe, classificado como "um gestor prudente", foi ministro para os Assuntos Europeus, dos Transportes e Turismo, e ainda da Despesa Pública e Reformas.

"Estou profundamente honrado por ter sido eleito novo presidente do Eurogrupo. Estou desejoso de trabalhar com todos os meus colegas do Eurogrupo nos anos que se seguem, para assegurar uma recuperação justa e inclusiva para todos, enfrentando os desafios pela frente com determinação", escreveu na sua conta oficial na rede social Twitter após a eleição.

Num novo ciclo político, resultante das eleições europeias do ano passado, em que pela primeira vez as presidências da Comissão Europeia e do Banco Central Europeu foram assumidas por mulheres -- Ursula von der Leyen e Christine Lagarde, respetivamente -, Donohoe impediu que também o Eurogrupo tivesse a sua primeira liderança feminina, ao derrotar Nadia Calviño na segunda volta da eleição.

Donohoe tomará oficialmente posse na próxima segunda-feira, para um mandato de dois anos e meio, tornando-se o quarto presidente do fórum de ministros da zona euro, depois do luxemburguês Jean-Claude Juncker, do holandês Jeroen Dijsselbloem e de Mário Centeno, que abdicou de concorrer a um segundo mandato ao abandonar o cargo de ministro das Finanças.

Centeno: "Vai ser um excelente presidente do Eurogrupo"

O presidente cessante do Eurogrupo, Mário Centeno, disse não ter dúvidas de que o seu sucessor, o irlandês Paschal Donohoe, vai ser um "excelente" líder do fórum de ministros das Finanças da zona euro.

"Tínhamos três excelentes candidatos, todos muito competentes, ministros experientes e membros do Eurogrupo altamente considerados. Não tenho de vos apresentar o Paschal, mas deixem-me apenas dizer que foi um verdadeiro prazer trabalhar com o Paschal nos últimos dois anos e meio. Os seus contributos para os trabalhos do Eurogrupo foram muito valiosos", declarou Centeno, na conferência de imprensa após a eleição.

"Não duvido que o Paschal vai ser um excelente presidente do Eurogrupo, e desejo-lhe todo o sucesso", declarou.

Na despedida da Europa, dirigindo pela última vez, desde Lisboa, os trabalhos do Eurogrupo, realizado ainda por videoconferência, Centeno garantiu ainda ter sido "uma honra" trabalhar no fórum, como ministro e como líder, observando que quase todo o seu mandato como presidente decorreu entre crises.

"Podemos dizer que os últimos dois anos e meio foram, na maior parte, um intervalo entre duas crises, a soberana e a pandémica. Usámos este período de forma sábia, moldando um novo papel para o Eurogrupo", apontou.

Garantindo que "foi uma honra participar no importante trabalho do Eurogrupo nos últimos cinco anos, primeiro como membro, e depois como presidente", Mário Centeno apontou que "também foi um prazer trabalhar com colegas talentosos de todo o continente num verdadeiro espírito de cooperação europeia".

* notícia atualizada às 20.40 com as declarações de Mário Centeno

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