Irão assina acordos milionários na visita de Rouhani a Paris

Empresas francesas conseguiram contratos em quase todas as áreas de atividade económica. Visita marcada por diferendo de protocolo sobre bebidas alcoólicas.

A importância e dimensão da visita do presidente iraniano, Hassan Rouhani, a Paris avalia-se em milhares de milhões de euros, em dezenas e dezenas de contratos assinados com empresas francesas que incidem sobre quase todos os setores de atividade económica e num número que diz tudo: ontem de manhã, 320 empresários franceses estiveram reunidos com 200 homólogos iranianos na sede da confederação patronal Medef, na presença do primeiro-ministro Manuel Valls, para identificar possibilidades de negócios.

No seguimento do encontro da manhã, à tarde, Rouhani esteve presente numa espécie de cimeira empresarial, acompanhado pelos ministros dos Negócios Estrangeiros e da Economia franceses, respetivamente Laurent Fabius e Emmanuel Macron, na presença do presidente da Medef, Pierre Gattaz, num grande hotel de Paris, para a assinatura de uma série de contratos.

Contratos, quase todos eles milionários, que abrangem desde a compra de 118 Airbus - no valor estimado de 25 mil milhões de euros - à criação de parcerias no setor automóvel e na venda à petrolífera francesa Total de 150 mil a 200 mil barris de petróleo por dia. Pois se Rouhani veio à Europa, essencialmente, fazer aquisições, a economia iraniana necessita, e muito, de divisas.

Ainda que Teerão tenha recuperado os cerca de 30 mil milhões de euros bloqueados fora do país devido às sanções, precisa "absolutamente de atrair investimentos estrangeiros", explicava um advogado de negócios iraniano, Ardavan Amir-Aslami, citado pelo La Croix. Uma aposta longe de estar ganha, pois não é possível no Irão realizar qualquer tipo de transações em dólares, "o sistema bancário é arcaico e existe um alto nível de corrupção e burocracia", explicou o jurista. Este é um dos desafios a superar pelo regime. Prova de que é real o problema, foi no setor bancário francês que se evidenciou menos entusiasmo com a visita de Rouhani. Como sublinhava ontem a Reuters, da longa lista de encontros agendados não constava nenhum com dirigentes de grandes bancos. Apenas encontros com entidades bancárias de menor dimensão.

Além da frieza dos banqueiros gauleses, o outro detalhe menos brilhante da visita de Rouhani foi o de, devido a um diferendo de protocolo, não ter almoçado nem jantado no Eliseu, como seria normal numa visita oficial de um chefe de Estado. A exigência iraniana de não ser servido qualquer tipo de bebida alcoólica nem esta ser usada na confeção dos pratos, levou a que Rouhani fosse recebido por Hollande a seguir à hora de almoço e num encontro mais breve do que o normal. O Eliseu recusou ceder às exigências do Irão, invocando os fundamentos republicanos e laicos do Estado francês.

Outros contratos incidiram na construção e reparação de infraestruturas de transportes (aeroportos, estações e vias ferroviárias), serviços essenciais, como a distribuição de águas, e o setor da saúde.

No seguimento do encontro do dirigente iraniano com o presidente da Medef e os ministros Fabius e Macron, foi anunciada a deslocação em setembro de uma missão empresarial gaulesa a Teerão. Ontem, estavam já inscritos mais de cem chefes de empresas, revelou um porta-voz da Medef.

Missão empresarial em setembro

A missão que se desloca ao Irão em setembro irá privilegiar as pequenas e médias empresas (PME), apontando para áreas onde os principais nomes da economia francesa estão presentes, como visará também setores onde terá mais sentido a atuação das PME.

Se o valor do contrato dos Airbus chama a atenção, há outro setor com tanta ou mais importância, o da indústria automóvel. Os construtores gauleses sempre foram os principais fornecedores do mercado iraniano, uma situação só alterada com a entrada em vigor das sanções das Nações Unidas, em 2006, e da UE, em 2012. Era ontem recordado em França que o mercado automobilístico iraniano apresenta um potencial índice de crescimento, existindo hoje uma média de cem veículos por mil habitantes - seis vezes menos do que a média na UE. Com um potencial de crescimento das vendas na ordem de um milhão de unidades por ano, como sucedeu em 2014, o mercado iraniano será um real balão de oxigénio para as marcas francesas.

Os grupos Peugeot-Citroën (PSA) e Renault apostaram forte na visita de Rouhani, tendo o PSA assinado um acordo para a produção no Irão dos modelos Peugeot 208, 301 e 2008, prevendo-se uma média de 200 mil veículos por ano a partir de finais de 2017. A Renault, presente há mais de uma década no mercado iraniano, anunciou ontem ter vendido "51 500 viaturas" em 2014 e, agora, com o fim das sanções, espera aumentar o número de veículos produzidos e vendidos, apostando no modelo de baixo custo Logan.

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