Representante do Parlamento Europeu diz que os brexiteers até o inferno eram capazes de dividir

Depois de Donald Tusk, agora foi a vez de Guy Verhofstadt atacar os defensores do Brexit, na véspera de a primeira-ministra britânica, Theresa May, voltar a Bruxelas para tentar renegociar o acordo e, em particular, o backstop

Esta manhã, o presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, gerou uma onda de indignação ao fazer a seguinte afirmação durante a conferência de imprensa conjunta com o primeiro-ministro irlandês Leo Varadkar: "Tenho estado a pensar se há um lugar especial no inferno para aqueles que promoveram o Brexit sem ter um plano para o executar de forma segura".

Esta tarde, o negociador do Parlamento Europeu para o Brexit, Guy Verhofstadt, mandou mais achas para a fogueira. "Bem, duvido que Lucifer os quisesse lá, depois do que fizeram aos britânicos, até o inferno iriam conseguir dividir", escreveu no Twitter o eurodeputado liberal e líder do grupo ALDE no Parlamento Europeu.

Crítico dos brexiteers, o ex-primeiro-ministro belga, conhecido federalista europeu, tem sido uma das vozes que têm insistido em dizer que o acordo do Brexit foi fechado em novembro entre Londres e a UE27 não é renegociável, tal como o ponto do backstop, mecanismo de salvaguarda destinado a impedir o regresso de uma fronteira física entre as Irlandas no pós-Brexit, que quem tem que apresentar ideias alternativas são os britânicos depois de, a 15 de janeiro, a câmara dos Comuns ter chumbado - por uma margem de 230 votos - aquele acordo de saída do Reino Unido da UE.

Na semana passada, num debate sobre o Brexit no Parlamento Europeu, depois da câmara dos Comuns ter rejeitado também a solução do backstop para evitar o regresso da fronteira entre a Irlanda do Norte e a República da Irlanda, Verhofstadt disse na eurocâmara, em Bruxelas, que Theresa May é sempre bem-vinda em Bruxelas, mas que não sabe o que ela lá vai fazer. Efetivamente, foi anunciado esta quarta-feira, a chefe do governo britânico, do Partido Conservador, vai reunir-se esta quinta-feira com Tusk e com o presidente da Comissão Europeia Jean-Claude Juncker. No dia seguinte, à noite, vai a Dublin jantar com o seu homólogo Varadkar para discutir o dossiê do Brexit.

Questionado sobre as declarações de Tusk, o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, respondeu: "Sou menos católico do que o meu amigo Donald. Ele acredita que há o céu e o inferno. Eu acredito no céu, mas não no inferno, apesar daquilo em que estou a trabalhar agora, que é o inferno".

Em relação às afirmações feitas por Donald Tusk, o porta-voz do Partido Democrático Unionista para o Brexit, Sammy Wilson, classificou o presidente do Conselho Europeu como um "euromaníaco diabólico", acusando-o a ele e aos "seus negociadores arrogantes da UE" de "inflamar as chamas do medo" numa tentativa de "tentar reverter o resultado do referendo" de 23 de junho de 2016, que deu 52% para o Brexit, 48% contra o Brexit. "Evidentemente que a pressão está a aumentar em Bruxelas. Uma declaração deliberadamente provocatória e desrespeitosa sobre os 17,4 milhões de pessoas que votaram para sair. É tempo para soluções e uma diplomacia genuína e não insultos", declarou, também no Twitter, Arlene Foster, líder do DUP.

O Sinn Féin, partido republicano da Irlanda do Norte, oposto do DUP, concordou, por sua vez, com Tusk, dizendo que entre os brexiteers que vão arder no inferno estão claramente os deputados e os líderes do DUP. "Não me queiram convencer de que qualquer coisa que Donald Tusk possa dizer vai endurecer a posição de Boris Johnson e Jacob Rees-Mogg. Eles são pessoas que agiram com total menosprezo em relação à experiência do povo britânico, do norte e do sul, com desprezo pelo processo de paz que foi construído coletivamente durante décadas", declarou a líder do Sinn Féin, Mary Lou McDonald. Referia-se ao ex-minsitro dos Negócios Estrangeiros de May e defensor do Leave e ao líder dos rebeldes eurocéticos do Partido Conservador e líder do think tank European Research Group.

Também o Partido Nacionalista Escocês, através do seu porta-voz para os Assuntos Europeus, Stephen Gethins, aplaudiu Tusk: "Os charlatães que lideraram a campanha do Leave nem sequer tiveram a decência de desenhar os seus planos antes do voto, que levou diretamente à incerteza e ao prejuízo que enfrentamos hoje em dia. O presidente do Conselho pôs o dedo na ferida com as declarações que fez", afirmou Gethins, citado pelo Guardian.

Andrea Leadsom, líder da da câmara dos Comuns, que foi um dos rostos da campanha pelo Brexit no Reino Unido, disse que Tusk deveria pedir desculpa por declarações "miseráveis" e "completamente inaceitáveis". Um porta-voz da primeira-ministra britânica, Theresa May, considerou, por seu lado, que esta subida de tom não ajuda a encontrar soluções. "Cabe a Donald Tusk dizer se ele considera o uso deste tipo de linguagem útil - penso que deve ter sido uma manhã difícil, uma vez que ele não aceitou perguntas. Tivemos um referendo neste país. As pessoas votaram para sair da UE. E aquilo em que todos deviam estar concentrados é em arranjar maneira de cumprir essa decisão do povo britânico, para que possamos sair da UE de forma ordenada, com um acordo, um acordo que seja do melhor interesse do Reino Unido e da UE", afirmou o porta-voz de Downing Street citado pela editora-adjunta de Política do Guardian Heather Stewart. O ministro do Interior de May, Sajid David, afirmou, por seu lado, que as declarações de Tusk "não estão a funcionar".

Ler mais

Exclusivos

Premium

Pedro Lains

O Banco de Portugal está preso a uma história que tem de reconhecer para mudar

Tem custado ao Banco de Portugal adaptar-se ao quadro institucional decorrente da criação do euro. A melhor prova disso é a fraca capacidade de intervir no ordenamento do sistema bancário nacional. As necessárias decisões acontecem quase sempre tarde, de forma pouco consistente e com escasso escrutínio público. Como se pode alterar esta situação, dentro dos limites impostos pelas regras da zona euro, em que os bancos centrais nacionais respondem sobretudo ao BCE? A resposta é difícil, mas ajuda compreender e reconhecer melhor o problema.