Vaticano nega acusações de Viganò e acusa-o de enganar a instituição

Através de uma publicação oficial, Frederico Lombardi e Thomas Rosica contradizem a polémica levantada pelo arcebispo Carlo Maria Viganò contra o líder da igreja católica.

O Vaticano respondeu este domingo, pela primeira vez, às acusações do arcebispo e ex-núncio Carlo Maria Viganò.

Foi durante a visita do Papa Francisco à Irlanda, para o encontro Mundial de Famílias, já numa altura em que a Igreja Católica se deita sob os holofotes de escândalos de abusos sexuais, que a carta de Viganò chegou a público. Entre outras coisas, o ex-núncio acusava o líder da igreja católica de ter silenciado o caso do cardeal Theodore McCarrick - investigado por abusos sexuais e, em junho passado, afastado do colégio cardinalício - e de ter enganado os fiéis quando se encontrou com Kim Davis, uma ativista contra o casamento homossexual. No mesmo documento, o arcebispo pediu a demissão do Papa Francisco.

Depois do silêncio prometido pelo líder, o Vaticano responde finalmente às acusações, através de uma nota conjunta dos sacerdotes Federico Lombardi e Thomas Rosica. No documento, a instituição contradiz as acusações apontadas pelo ex-núncio, que garantia que, assim que a notícia acerca do encontro com a ativista - organizado por Viganò - chegou ao domínio público, o arcebispo foi chamado pelo líder da igreja católica para uma reunião de emergência, mas este terá apenas elogiado a forma como organizou a viagem de outubro de 2015, sem mencionar a reunião com Davis. De acordo com Rosica - que apresentam como provas umas anotações manuscritas durante um encontro entre Viganò e Lombardi -, Viganò disse a Lombardi que a reunião serviu como repreensão por este ter organizado o encontro com Davis sem o seu conhecimento e ter até escondido o facto de que Davis se tinha casado quatro vezes.

Sem responder às acusações sobre o encobrimento do escândalo sexual de MacCarrick, o Vaticano acusa ainda Viganò de ter consciência do impacto do encontro com a ativista assim que o organizou, bem como de não ter informado devidamente a instituição sobre o mesmo.

Os sacerdotes garantem que, durante a reunião, não foi proposto nenhum apoio papal à ativista. Além disso, o único encontro previamente marcado em Washington que Francisco esperava era com um ex-aluno, homossexual, e o seu parceiro.

Roma tem conhecido uma nova era sob a alçada do Papa Francisco, que tem vindo a quebrar alguns dogmas tomados até então como regra católica, com o aborto e a homossexualidade a tornarem-se toleráveis. A discussão contribuiu para uma rutura que agora se abre entre católicos progressistas e conservadores, com os primeiros a denunciar Viganò de estar a utilizar estes temas apenas para chegar à demissão do Papa Francisco. Para os mais conservadores, o líder do Vaticano não está a respeitar os ideais católicos.

O conhecimento sobre o encontro entre Davis e o Papa Francisco veio ameaçar as intenções do Vaticano. Para os conservadores americanos, ficou inclusive visto como um selo de aprovação perante os ideais da ativista, funcionária do condado em Kentucky, que esteve presa por se recusar a assinar as licenças de matrimónio entre casais homossexuais.

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