Senado autoriza buscas nas casas de Kirchner por suspeita de corrupção

A própria ex-presidente cedeu, face à pressão das ruas, pedindo apenas que não haja "câmaras de televisão" para evitar que imagens possam ser divulgadas mais tarde "com intenção de humilhação e assédio".

O Senado argentino aprovou com 66 votos a favor e nenhum contra as buscas a casa da ex-presidente e senadora Cristina Kirchner, que o juiz Claudio Bonadio acusa de estar por detrás do esquema de corrupção que implicava a recolha de dinheiro de empresários que eram beneficiados com obras públicas durante a sua passagem pela Casa Rosada.

O escândalo dos "cadernos da corrupção", como é conhecido, rebentou depois de terem sido entregues ao juiz os cadernos onde Óscar Centeno, ex-motorista do número dois do Ministério do Planeamento, registou todas as malas de dinheiro que transportou, incluindo para a residência dos Kirchner, assim como as conversas que o seu patrão, Roberto Baratta, que era vice do ministro Julio de Vido.

Um esquema que funcionou não apenas durante os dois mandatos de Cristina (2007-2015), como antes, no mandato do seu já falecido marido, Néstor (2003-2007). Desde que o escândalo rebentou, vários empresários e ex-membros do governo já se declararam culpados de pagar ou receber subornos e estão a colaborar com a justiça em troca de penas mais reduzidas.

Por causa desses cadernos e porque Kirchner tem imunidade parlamentar, o juiz pediu autorização ao Senado para poder efetuar buscas nas casas da ex-presidente: um apartamento no luxuoso bairro de Recoleta, no centro de Buenos Aires, e duas mansões no sul do país, na região da Patagónia. O juiz já convocou a ex-presidente para testemunhas no caso, mas esta ficou em silêncio e respondeu por escrito.

Após um protesto na terça-feira à noite, durante o qual centenas de pessoas pediram ao Senado para tirar a imunidade à ex-presidente, a decisão de autorizar as buscas foi tomada por unanimidade.

A própria Kirchner disse que não vinha "inconvenientes" às buscas, reiterando que está a ser alvo de uma "perseguição judicial", que o juiz "não é imparcial", mas um "instrumento" do presidente Maurício Macri e que os "arrependidos" não estão a dizer a verdade.

Kirchner pediu contudo que essas buscas não sejam feitas "na presença de câmaras de televisão, para evitar a posterior difusão de imagens nos programas oficialistas [favoráveis ao governo] com clara intenção de humilhação e assédio". Pediu ainda que o juiz "não parta nada" nas suas casas.

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