Sara, a ex-feminista radical que agora organiza um congresso anti-feminista

Liderou "beijaços gay" em frente a igrejas e simulou castrar Bolsonaro. Hoje, diz reger-se pelos 10 mandamentos

O 1º Congresso Anti-feminista do Brasil, realizado num sábado à noite do mês passado na Igreja de Sant"Ana, no Rio de Janeiro, não foi novidade apenas por ser o primeiro. Foi sobretudo notícia por ser organizado por Sara Winter, a ex-representante no país do grupo feminista radical Femen e fundadora do coletivo de ativistas locais "Bastardxs", que hoje abomina o que ainda há menos de três anos defendia com unhas e dentes.

Os brasileiros habituaram-se a ver Sara Fernanda Giromini, de seu nome verdadeiro, em topless ou completamente nua em artérias centrais, como a Avenida Paulista, em São Paulo, ou a Avenida Atlântica, no Rio de Janeiro, quando era (ainda) mais nova - tem 26 anos. Com os seios destapados - prática proibida nas praias do Brasil - e pintados com a frase, em inglês, "enquanto a sua seleção está jogando, brasileiros estão morrendo" protestou em Ipanema, no Rio, contra a realização do Mundial-2014 no país. Dois anos antes já fora detida, na Ucrânia, em manifestação contra o Euro-2012, co-organizado pelo país de leste.

Apareceu completamente nua, em 2014, no centro da Cidade Maravilhosa, amarrada a uma grade, suja de tinta encarnada a simular sangue, e com um cartaz a seus pés onde se lia "machismo mata", como resposta ao comentário "um pouco de machismo até faz bem", de Bruno Gissoni, ator de uma novela então em exibição na Globo. Na Avenida Atlântica, ainda em 2014, promoveu o evento "Cortar o Mal Pela Raiz" onde simulou, através de um boneco a ilustrar Jair Bolsonaro, a castração do deputado e ex-capitão do exército. "Queremos mostrar ao Bolsonaro que nem mulher nua merece ser estuprada".

Na Avenida Paulista, fez um ato, ao lado do grupo feminista "Bastardxs", que fundou depois de romper com o Femen, pelo parto livre. Ao longo de três anos repetiu "beijaços gay" em frente a igrejas nas duas principais cidades brasileiras, atou-se a uma cruz ao lado de uma outra ativista com a sigla LGBT, pintou nos seios e no ventre palavras de ordem como "eu sou gay", "fui prostituta: mereço morrer?", "legalize aborto", "por livre e espontânea vontade" ou "free fuck".

Ponto de viragem

Mas a partir de 2015 transformou-se: partilhou um vídeo onde pedia perdão aos cristãos, surgiu na Câmara dos Deputados com um rosário na mão, disse reger a sua vida pelos 10 mandamentos, por Jesus e pela Virgem Maria, tornou-se férrea ativista contra o aborto, lançou-se na política pelo DEM, um dos partidos mais conservadores do parlamento, e agora quer ver no Palácio do Planalto o homem que um dia quis castrar, Bolsonaro.

Porquê? Sara recusou quatro pedidos de entrevista do DN mas no Congresso Anti-feminista que organizou, e que foi acompanhado pela revista Época, deixou algumas pistas à plateia, composta maioritariamente por homens a rezar o pai-nosso, a cantar o hino nacional brasileiro e a tomar café ao lado de pequenos fetos de borracha, símbolos da luta pela criminalização do aborto.

"Demorei cinco segundos para me perder nas garras do feminismo quando li a manchete "feministas protestam de topless na Ucrânia"; eu não sabia onde era a Ucrânia mas sabia o que era topless, sou de uma geração fracassada, né?", começou por dizer

Depois contou que aprendeu em Kiev com as líderes do Femen os fundamentos básicos dos protestos feministas: não sorrir, mentir aos polícias em depoimento e fingir dor ao ser confrontada pelos agentes nas manifestações por causa das fotos na imprensa. No essencial, sublinhou, o feminismo que lhe ensinaram visa a revolução comunista e fazer com que uma mulher veja em cada homem um potencial violador.

Publicou, entretanto, o livro Vadia Não! Sete vezes que fui traída pelo feminismo mas o instante que mudou a sua perceção da vida surgiu depois de fazer um aborto e de se sentir "tudo menos empoderada". A luta contra a interrupção voluntária da gravidez é o principal tema da sua campanha.

A transformação de Sara Winter de feminista radical em anti-feminista não foi, no entanto tão repentina. Em entrevista de 2013 ao portal UOL a líder do Femen Anna Shevchenko, revelara que Winter fora expulsa do cargo de representante do grupo no Brasil. "Já não faz parte do Femen, tivemos muitos problemas com ela, não está pronta para ser líder".

Bruna Themis, sua número dois no país, acusou-a de "centralização, autoritarismo e simpatia com o nazismo" - Sara admitiu que aos 15 anos participou de grupos de internet neo-nazis, mas que depois se arrependeu. E reconheceu admiração por Plínio Salgado, fundador do Ação Integralista, um partido brasileiro de extrema-direita da década de 30, durante a adolescência.

Veja o seu vídeo de apresentação como candidata a deputada no seu canal de YouTube:

Causaram confusão noutros grupos feministas do Brasil e do mundo, por sua vez, publicações da então ativista do Femen, elogiosas para a antiga primeira-ministra britânica Margaret Thatcher.

Entretanto, nas eleições de daqui a três semanas, Rodrigo Maia, presidente da Câmara dos Deputados e liderança destacada do DEM, acredita que Winter valha 50 mil votos e consiga chegar ao parlamento.

Em São Paulo

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