Sánchez promete governo pró-europeu e deixa coligação em aberto

Socialistas vencem legislativas. Sem maioria. Pedro Sánchez recusa cordões sanitários. Líderes da Unidas Podemos avisam o líder do PSOE para não ceder à tentação laranja, numa referência ao Ciudadanos, com quem chegaria à maioria absoluta. Albert Rivera já indicou que tenciona ficar na oposição e Pablo Casado, apesar de admitir mau resultado, culpa fragmentação da direita

O PSOE venceu as eleições legislativas antecipadas deste domingo. Quando estão apurados 99,72% dos resultados, os socialistas de Pedro Sánchez surgem com 28,69% dos votos e 123 deputados eleitos. O PP de Pablo Casado aparece com 16,69% e 66 deputados, o Ciudadanos de Albert Rivera com 15,85% dos votos e 57 deputados, a Unidas Podemos de Pablo Iglesias com 14,31% e 42 deputados e o Vox de Santiago Abascal com 10,26% dos votos e 24 deputados eleitos para o Parlamento espanhol.

Assim, segundo estes dados, os socialistas, apesar de aumentarem deputados, muito para além dos 85 que têm atualmente, ficam aquém da maioria absoluta necessária para governarem sozinhos e que se situa nos 176 eleitos. Precisam, por isso, de parceiros de coligação. Os mais evidentes são a coligação Unidas Podemos, mas Sánchez, num dos muitos cenários de coligação, pode unir-se ao Partido Nacionalista Basco, que tem seis deputados, para já, bem como a Esquerda Republicana da Catalunha, que surge com 15 eleitos.

O PP, maior partido da oposição, surge com o seu pior resultado de sempre, referem os media espanhóis. Mesmo com o Ciudadanos e o Vox, o bloco da direita também não consegue chegar à maioria absoluta de deputados. Porém, na eventualidade de PSOE e Ciudadanos se juntarem num bloco de centro-direita liberal, aí sim haveria maioria absoluta. Problema: tanto Sánchez como Rivera descartaram a hipótese de uma aliança pós-eleitoral, além de se terem insultado de forma bastante dura durante a campanha e durante os dois debates televisivos. Se Sánchez surge como o vencedor da noite, Rivera surge como o segundo vencedor.

Afluência recorde em dia de sol

36,9 milhões de espanhóis foram chamados a votar nestas eleições antecipadas, depois de o primeiro-ministro não ter conseguido aprovar o Orçamento do Estado para 2019. Por falta de apoios. Os independentistas catalães, que ajudaram a aprovar a moção de censura socialista para tirar o PP e Mariano Rajoy do poder, em 2018, tiraram-lhe, então, o tapete debaixo dos pés.

Apesar de o sol convidar a um dia de praia, a taxa de afluência às urnas foi massiva, sobretudo em autonomias como a Catalunha. Às 14.00 a taxa de participação era a segunda mais elevada da democracia espanhola, ou seja, desde 1993 quando Felipe González arrecadou para o PSOE uma terceira vitória consecutiva. Às 18.00 - 17.00 em Lisboa - era a sexta mais elevada da história da democracia. Após o fecho das urnas, a taxa de participação situou-se em 75,75%, quase nove pontos a mais, em relação ao escrutínio de há três anos. É também superior à das eleições de 2015 (69,7%), de 2011 (68,9%) e de 2008 (73,8%), ultrapassando já a de 2004, de 75,66%, quando, três dias depois dos atentados terroristas de Madrid, o PSOE de José Luis Rodríguez Zapatero bateu o PP de José María Aznar. Fica aquém, porém, da de 1996, de 77,38%, bem como da taxa de participação de 1993, de 76,44%.

"É a primeira vez que tenho que estar numa fila para votar. Mas não me importa. Tenho consciência de que é o mais importante que vou fazer hoje", diz uma eleitora, citada pela reportagem do jornal El Mundo, no bairro de Son Espanyolet, em Palma de Maiorca. "Isto parece uma fila para um concerto de rock", dizia um outro, enquanto espera vez para votar, sublinhando que também nunca antes vira nada assim.

ERC faz história e Vox diz que veio para ficar

Na Catalunha, por exemplo, a votação foi mais expressiva, nas circunscrições em que os independentistas catalães gozam de maior apoio. A ERC de Oriol Junqueras, ganha, pela primeira vez uma legislativas na Catalunha, seguida dos socialistas, muito à frente da Junts per Catalunya, aliança dos independentistas mais radicais, de Quim Torra e Carles Puigdemont, atual e ex-presidentes do governo autónomo catalão. Junqueras é um dos políticos catalães presos por causa da organização do referendo ilegal sobre a independência da Catalunha a 1 de outubro de 2017. "Hoje é um dia de muita alegria, porque em 88 anos de história impoluta, este partido ganhou umas eleições legislativas. Mas amanhã continuará a haver nove democratas ma prisão. E também os nossos companheiros no exílio", declarou Gabriel Rufían, cabeça de lista da ERC. Torra, através do Twitter, felicitou a ERC pelo seus resultados "históricos".

"Agora haverá no Parlamento uma voz que não existia", começou por dizer o líder do Vox, Santiago Abascal, em Madrid, fortemente aplaudido pelos apoiantes. "Os 24 deputados nacionais defenderão o direito à vida no Parlamento e os interesses e as preocupações da Espanha vazia e do mundo rural". Apesar dos bons resultados, alguns apoiantes do Vox esperavam mais. "Espanha Unida jamais foi vencida e jamais será vencida", prosseguiu o líder do partido de extrema-direita espanhola, que cresceu sobretudo à custa do PP de Casado.

"Não triunfou a radicalização neste país", declarou Alberto Garzón, líder da Esquerda Unida, falando pela Unidas Podemos, dizendo esperar que Sánchez resista "à tentação laranja", numa referência ao Ciudadanos. "O peso parlamentar do bloco progressista supera o bloco das três direitas", avisou, por seu lado, Pablo Iglesias, incluindo nessas três direitas o partido de Rivera. O líder do Podemos disse ter falado com Sánchez no sentido de se formar uma coligação de esquerda e pediu paciência afirmando que há muito a negociar. Este resultado, assegurou, "é suficiente" para formar um governo de esquerda em Espanha.

Sánchez recusa cordões sanitários mas Rivera quer ficar na oposição

Em seguida, Sánchez, Casado e Rivera decidiram discursar em simultâneo, provocando um pandemónio entre os jornalistas que estavam a fazer o acompanhamento da noite eleitoral. "Não somos como eles, não vamos pôr cordões sanitários. Vamos respeitar a Constituição espanhola", começou por dizer o primeiro-ministro, referindo-se a declarações passadas de Rivera sobre pôr um cordão sanitário aos socialistas. "Formaremos um governo pró-europeu para fortalecer a Europa", prometeu, desde logo.

"11 anos depois voltamos a dizer que o PSOE ganhou as eleições legislativas. Demonstrou-se que Espanha tem uma democracia sólida, de qualidade, na qual participaram milhões e milhões de espanhóis", declarou Pedro Sánchez, amplamente aplaudido pelos militantes socialistas, reunidos na sede do PSOE, na calle Ferraz. Sánchez prometeu ainda "acabar com o confronto e a crispação territorial que corroeu Espanha e com a corrupção que nos últimos anos marcou a vida política". E pediu maioria socialista também para as eleições europeias e municipais de 26 de maio.

"Para o PP em primeiro lugar está Espanha. Sou uma pessoa que não foge das responsabilidades. O resultado foi muito mau. Vamos trabalhar para recuperar este apoio e para liderar o espaço de centro-direita", declarou, por seu lado, Casado, na calle Génova, culpando, em parte, a fragmentação à direita pelos maus resultados. "Quero felicitar Pedro Sánchez e o partido socialista. Tive a oportunidade de fazê-lo por telefone. Espero que possa chegar a acordos de governabilidade sem necessitar dos independentistas".

Rivera, por seu lado, também amplamente aplaudido, declarou: "Obrigado à minha equipa. Este é o projeto que mais de parece à sociedade civil de Espanha. Hoje o Ciudadanos ergue-se como um projeto vencedor. Hoje o Ciudadanos ergue-se como o futuro e a esperança de Espanha". Indicando que o Ciudadanos, que teve uma subida vertiginosa nestas eleições, tenciona ficar na oposição, o dirigente da direita liberal afirmou: "Vamos respeitar o resultado, apesar de não gostarmos dele. Como digo sempre a verdade, a má notícia é que o PSOE e o Podemos vão formar um governo".

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