Procuradora-Geral e Bolsonaro impugnam candidatura de Lula

Horas depois de registada no Tribunal Superior Eleitoral, a lista do antigo presidente já sofreu contestação de Raquel Dodge e da coligação do capitão do exército. Processo vai arrastar-se

Jair Bolsonaro foi o primeiro rival de Lula da Silva a pedir ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para não autorizar a candidatura do antigo presidente às eleições de 7 de Outubro. Horas antes, o ministério público, pela voz da Procuradora-Geral da República (PGR) Raquel Dodge, já protocolara pedido idêntico. Lula foi registado como candidato às 22 horas, hora portuguesa, de quarta-feira, apesar de estar preso, a cumprir pena de 12 anos e um mês de prisão por corrupção, e de ter sido condenado por órgão coletivo, o que o enquadra na Lei da Ficha Limpa.

"Restou comprovado que o antigo presidente participou de um grande esquema de corrupção", diz o documento apresentado pelo deputado pelo PSL e capitão do exército. "O candidato em questão, com o apoio dos seus seguidores, vem adotando uma postura de vítima", acusa ainda Bolsonaro. Já Dodge lembrou na sua argumentação que, por lei, só oito anos após o cumprimento da pena, Lula pode ser candidato a cargo elegível. Kim Kataguiri, líder do Movimento Brasil Livre, que organizou manifestações pela deposição da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), e o ator Alexandre Frota também questionaram formalmente o registo da candidatura.

Os advogados de Lula, em nota, disseram que vão "enfrentar com fundamento na lei os pedidos de impugnação".

Fernando Haddad, ex-prefeito de São Paulo, ocupará a vaga

O movimento da PGR e dos adversários de Lula, líder em todos os cenários de todas as sondagens, já eram esperados. Com esses pedidos de impugnação em mãos, a presidente do TSE vai agora nomear um relator do caso, ouvir testemunhas, juntar provas e dar um veredicto até dia 17 de Setembro, no máximo. Caso o veredicto seja contrário às pretensões do PT, o que de acordo com a maioria das opiniões jurídicas recolhidas na imprensa brasileira é o mais provável, Lula terá de ser substituído.

E Fernando Haddad, ex-prefeito de São Paulo, ocupará a vaga. Em ambos os casos, com Lula ou Haddad como candidatos à presidência, a deputada estadual Manuela D'Ávila, do PCdoB, será a concorrente à vice-presidência. A estratégia do PT é tentar protelar ao máximo o processo, ao ponto, de manter no eleitorado a expectativa da candidatura do ex-sindicalista. Quem sabe, levando a que nas urnas eletrónicas conste a fotografia de Lula, mesmo que Haddad seja o candidato.

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