Presidente do Equador acusa Assange de usar embaixada como "centro de espionagem"

Presidente do Equador, Lenín Moreno, acusou o fundador da WikiLeaks de não ter cumprido o acordo que lhe permitiu viver sete anos na embaixada do país em Londres. E diz ter recebido garantias por escrito do Reino Unido de que Julian Assange não será extraditado para países com a pena de morte.

Julian Assange violou várias vezes as condições que aceitou para poder ficar na embaixada do Equador em Londres e usou as instalações daquele país como "centro de espionagem".

Estas foram duas das justificações apresentadas pelo presidente do Equador Lenín Moreno numa entrevista ao diário inglês The Guardian em que disse ter recebido do Reino Unido, por escrito, o compromisso de que os direitos fundamentais de Assange serão respeitados e que o fundador da Wikileaks não será extraditado para nenhum país onde possa ser condenado a pena de morte.

Assange deixou a representação diplomática do Equador - onde viveu nos últimos sete anos - na quinta-feira, tendo sido de imediato detido pela polícia britânica. Agora pode ser condenado a 12 meses de prisão se for considerado culpado de violar as condições do asilo dado por aquele país. Pode ainda ser extraditado para o Suécia onde já foi acusado de violação, o que sempre negou e cuja investigação foi encerrada. No entanto, as autoridades suecas estão a ponderar a hipótese de reabrir o processo.

Em análise está ainda a possibilidade de ser extraditado para os Estados Unidos que alegam ter Assange feito parte de uma conspiração com a ex-analista do exército Chelsea Manning, condenada em 2013 por espionagem por ter cedido à WikiLeaks mais de 700 mil documentos, muitos deles classificados.

A decisão de entregar Julian Assange às autoridades inglesas mereceu várias críticas no Equador, nomeadamente por parte do anterior presidente Rafael Correa que acusou Moreno de estar a participar "num crime que a humanidade jamais esquecerá". Descreveu ainda Moreno como "o maior traidor da história equatoriana e latino-americana".

Na primeira entrevista a um jornal inglês após a expulsão de Assange da embaixada, Moreno negou que agiu como uma represália pela forma como foram conhecidos documentos sobre a sua família, frisando estar arrependido pelo facto de Assange ter supostamente usado a embaixada para interferir na política de países terceiros.

Também o facto de a WikiLeaks poder estar ligada a um site anónimo que publicou textos relacionando o irmão de Moreno com a criação de uma empresa offshore e de terem sido publicadas fotos privadas de Moreno e da família levaram a que surgissem teses a defender que a expulsão de Assange estará relacionada com estes episódios.

"Qualquer tentativa de desestabilizar é um ato condenável para o Equador, pois somos uma nação soberana e respeitamos a política de cada país", adiantou ao The Guardian numa entrevista por mail. "É lamentável que, do nosso território e com a permissão de autoridades do governo anterior, tenham sido fornecidas instalações dentro da embaixada equatoriana em Londres para interferir com outros estados", frisou.

"Não podemos permitir que na nossa casa, a casa que abriu as suas portas, se torne um centro de espionagem", adiantou Moreno, numa aparente referência às imagens divulgadas pelo diário espanhol El País este fim de semana. "Este ativista violou as condições do asilo. A nossa decisão não foi arbitrária, mas baseou-se no direito internacional", explicou o presidente do Equador.

Acrescentou que recebeu garantias em relação a uma possível extradição de Assange para os EUA: "Para nós, o direito máximo de proteção é a vida. Por essa razão, consultámos o governo do Reino Unido sobre a possibilidade de extradição de Assange para países terceiros, onde poderia ser torturado ou condenado à pena de morte. O Reino Unido deu garantias por escrito que se a extradição for solicitada, ele [Assange] não será extraditado para qualquer país onde possa sofrer maus-tratos ou ser condenado à pena de morte."

"Ele manteve um comportamento inadequado ao longo da sua estadia [na embaixada], o que afetou a sua saúde e o ambiente na missão diplomática. Além disso, tinha problemas de saúde que deveriam ser resolvidos. Nunca tentámos expulsar Assange, como alguns políticos querem fazer crer. Dadas as constantes violações de protocolo, o asilo político tornou-se insustentável", concluiu.

Já a advogada de Assange, Jennifer Robinson, contestou no domingo as acusações de mau comportamento por parte do seu cliente: "Acho que a primeira coisa a dizer é que o Equador fez algumas alegações muito ultrajantes nos últimos dias para justificar o que foi um ato ilegal e extraordinário ao permitir que a polícia britânica entrasse na sua embaixada."

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