Por dois votos, Hunt é o adversário de Boris Johnson na corrida a líder dos Tories

O futuro líder do Partido Conservador será escolhido pelos 160 mil militantes numa votação cujo resultado será conhecido no final de julho... se nenhum dos candidatos desistir primeiro.

O atual chefe da diplomacia britânica, Jeremy Hunt, será o adversário do favorito Boris Johnson na corrida à liderança do Partido Conservador, batendo o ministro do Ambiente, Michael Gove, por apenas dois votos na quinta votação entre os deputados dos Tories.

Gove teve 75 votos na quinta votação, entre 313 votos possíveis (um deles nulo ou em branco). Hunt, que tinha ficado em terceiro lugar na votação anterior, conseguiu 77 votos. Boris Johnson, favorito desde o primeiro momento, conseguiu 162.

"Estou profundamente honrado por ter conseguido mais de 50% dos votos na votação final. Obrigado a todos pelo vosso apoio! Estou ansioso por percorrer o Reino Unido e explicar o meu plano para conseguir o Brexit, unir o nosso país e criar um futuro ainda mais brilhante para todos nós", escreveu Johnson no Twitter.

"Sou o underdog [o candidato com menos probabilidades], mas na política as surpresas acontecem como hoje. Não duvido da responsabilidade sobre os meus ombros -- para mostrar ao meu partido como podermos conseguir o Brexit e não uma eleição, mas também uma economia turbinada e um país que anda de costas erguidas no mundo", reagiu Hunt, que também já teve as pastas da Cultura, Media e Desportos, assim como da Saúde, na mesma rede social.

O futuro líder dos Tories será escolhido pelos 160 mil militantes do partido, com o vencedor a ser conhecido no final de julho. Isto se nenhum dos candidatos desistir.

Em 2016, após a demissão de David Cameron devido ao referendo do Brexit, Theresa May e Andrea Leadsom chegaram à última ronda na corrida para a liderança do Partido Conservador. May, então ministra do Interior, conseguiu 199 votos na última votação e Leadsom, que era ministra da Energia, conquistou 84. Mas quatro dias depois dessa votação, Leadsom desistiu, alegando que era "no melhor interesse do país" deixar May como única candidata.

Na quarta votação, esta tarde, o ex-chefe da diplomacia conseguiu 157 votos em 313 possíveis, tendo havido dois votos em branco ou nulos (pela primeira vez nestas votações). Michael Gove conseguiu 61 votos, mais dois do que Jeremy Hunt, surpreendendo o chefe da diplomacia que tinha sido segundo nas votações até aí. Sajid Javid ficou fora da corrida, com 34 votos.

A vingança de Boris

Boris Johnson, de 55 anos, foi um dos principais rostos da campanha do Brexit no referendo de há três anos. Mas quando o então primeiro-ministro David Cameron anunciou que se demitia, o ex-presidente da câmara de Londres viu os seus desejos de chegar ao número 10 de Downing Street gorados pelo próprio diretor de campanha: Michael Gove. No dia em que Johnson devia anunciar a sua candidatura, este antecipou-se, minando as suas possibilidades e levando-o a nem sequer entrar na corrida.

Entre os conservadores havia quem temesse um mês de campanha marcado pela luta cerrada entre os dois rivais, sendo falado nos corredores que Boris Johnson preferia ter Hunt, que lhe sucedeu na chefia da diplomacia britânica quando ele se demitiu em desacordo com Theresa May, como adversário.

Mas há anos que Johnson é falado como eventual primeiro-ministro -- deixou a câmara de Londres para ser deputado precisamente com isso em mente, já que os chefes de governo britânicos têm sempre que ser membros da Câmara dos Comuns. A avaliar pelas sondagens, Johnson é o único conservador capaz de vencer tanto o trabalhista Jeremy Corbyn, que surpreendeu com o resultado nas eleições gerais de 2017, como o novo Partido do Brexit, liderado por Nigel Farage, numa eventual eleição geral.

Uma sondagem ComRes para o The Telegraph, divulgada a 11 de junho, indica mesmo que Johnson à frente dos Tories seria capaz de conseguir uma maioria de 140 deputados. Em comparação, Hunt, perderia para o Labour por 242 contra 224.

Hunt, de 52 anos, votou pela permanência do Reino Unido na União Europeia, mas tem repetido que fará por respeitar a vontade que a maioria dos britânicos expressou a 23 de junho de 2016. Defende a renegociação do acordo de saída com a União Europeia, que May não conseguiu que os deputados britânicos aprovassem, apesar de até agora Bruxelas sempre ter negado essa possibilidade.

"Qualquer primeiro-ministro que prometesse deixar a UE até uma data específica -- sem tempo para renegociar e aprovar um novo acordo -- estaria, de facto, a submeter-se a eleições gerais no momento em que o Parlamento tentasse impedi-lo. E tentar não chegar a acordo através de eleições gerais não é solução; é suicídio político", escreveu Hunt num artigo no The Telegraph, no início da campanha. Apesar de se mostrar aberto a um eventual adiamento do Brexit, já deixou claro que prefere uma saída sem acordo do que suspender o Brexit totalmente.

Johnson diz estar determinado a conseguir o Brexit até 31 de outubro, com ou sem acordo, garantindo que "adiar significa perder". O ex-chefe da diplomacia alega que prefere a primeira opção, mas considera irresponsável o Reino Unido não se preparar para a segunda. Até porque a primeira opção depende sempre da boa vontade da União Europeia, que não se mostrou aberta a renegociar o acordo com Theresa May.

A principal mudança ao acordo da ainda primeira-ministra (continuará no cargo até ser escolhido o sucessor) que Johnson defende é em relação ao chamado backstop, o mecanismo de salvaguarda que pretende evitar o restabelecimento de uma fronteira física entre a República da Irlanda e a Irlanda do Norte. Ameaça suspender o pagamento da "conta de divórcio" de 39 mil milhões de libras caso não consiga um acordo melhor.

Personalidade: ponto fraco ou forte?

O atual chefe da diplomacia britânica é uma figura menos "colorida" e com menos carisma que o seu antecessor, que é popular entre os militantes conservadores apesar das várias gafes ou polémicas em que se viu envolvido. Hunt é conhecido em alguns círculos políticos como "Theresa May de calças".

Num evento para promover os Jogos Olímpicos de 2012, por exemplo, Johnson ficou pendurado no ar quando fazia slide. Em 2015, numa viagem ao Japão, derrubou uma criança de dez anos num jogo de rugby -- ambos os vídeos tornaram-se virais. No mesmo ano, teve que cancelar uma visita à Cisjordânia por segurança, após dizer em Telavive que seria "completamente maluco" um boicote comercial a Israel por causa da situação na Palestina. E não hesitou em dizer que o Ocidente tinha que "fazer um acordo com o diabo" -- referindo-se ao líder russo Vladimir Putin e ao sírio Bashar al-Assad -- se quisesse derrotar o Estado Islâmico.

Em outubro de 2017, quando esteve por Lisboa, também terá cometido algumas gafes, reveladas num documento de três parte da BBC. Entre elas terá dito que James Bond nasceu no Estoril.

Sobre as hipóteses de chegar a primeiro-ministro disse um dia que eram tão grandes como "encontrar Elvis em Marte" ou ele próprio "reencarnar numa azeitona".

Mas Hunt não está isento de polémicas ou gafes: comparou a União Europeia à União Soviética na conferência do partido no ano passado, tendo noutra ocasião, durante uma visita oficial à China, descrito acidentalmente a sua mulher, que é chinesa, como sendo japonesa. Quando num dos debates lhe perguntaram qual era a sua maior falha disse que, "alguns dirão que como chefe da diplomacia ter errado na nacionalidade da minha mulher". Já na semana passada, foi alvo de críticas quando disse que apoiava "150%" o presidente norte-americano, Donald Trump, na guerra de palavras com o presidente da câmara de Londres, Sadiq Khan.

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