Plebiscito online confirma Di Maio no 5 Estrelas

Os maus resultados das eleições europeus levaram o vice-primeiro-ministro de Itália a testar a sua liderança no Movimento 5 Estrelas. Luigi Di Maio recolheu o apoio de 80% dos participantes, na votação mais concorrida de sempre do partido.

Ainda a lamber as feridas do resultado das eleições europeias, o líder do Movimento 5 Estrelas (M5E) devolveu aos militantes o seu destino. O voto decorreu de forma virtual, como é prática neste partido antissistema fundado em 2009, através de uma plataforma dedicada. À pergunta "Confirma Luigi Di Maio como líder do Movimento 5 Estrelas?" responderam 56.127 militantes, um recorde de participação, segundo o bogue do partido. A favor da continuidade do dirigente votaram 44.849 e contra 11.278.

"A ratificação do meu cargo é apenas o primeiro passo para iniciar uma organização profunda do M5S, para o aproximar dos cidadãos e acentuar a nossa identidade", reagiu no Facebook Luigi Di Maio.

A votação sobre o homem que é líder do partido, mas também vice-primeiro-ministro, ministro do Desenvolvimento Económico, do Trabalho e das Políticas Sociais seguiu-se a uma reunião dos senadores e deputados do M5E e a várias críticas que vieram a público na senda da noite eleitoral. O M5E, que venceu as eleições legislativas com 32,6% em março de 2018, trocou de posição com a Liga de Matteo Salvini, que recebera então 17% dos votos e agora alcançou 34,3%. Com 17,1%, o 5 Estrelas foi ultrapassado pelo Partido Democrático.

E há mais motivos para preocupação. Segundo uma sondagem realizada pelas universidades de Milão, Siena e Turim, quase um terço dos ex-eleitores do 5 Estrelas mostra-se inclinado em votar na Liga em futuros escrutínios.

"A generosidade de Luigi Di Maio em acumular três, quatro tarefas, de alguma forma deve ser revista. Para reiniciar o M5E precisamos de liderança política, não digo 24 horas por dia, mas quase", afirmou o senador Gianluigi Paragone ao Fatto Quotidiano. "Se queremos agir como um super-homem, temos de demonstrar que realmente o somos", disse ao Corriere della Sera.

"A votação foi um grande desastre pelo qual Luigi Di Maio deve assumir toda a responsabilidade", disse por sua vez a senadora Elena Fattori. Em declarações ao Corriere della Sera antecipara que iria pedir na reunião parlamentar a demissão de Di Maio dos cargos ministeriais. E também se mostrava favorável à solução de devolver aos militantes a decisão sobre a chefia do partido. "Os erros foram muitos, começando com o facto de que foi dado muito espaço a Salvini", e a mudança de rumo foi "tardia e não convincente".

"Hoje, tenho o direito de saber o que vocês pensam das minhas ações. Quero ouvir a voz dos cidadãos que me elegeram como líder político", escreveu no Facebook Di Maio, de 32 anos, ao anunciar o plebiscito. "Nunca fugi dos meus deveres e se há algo a mudar, vamos fazê-lo. Porque é correto que sejam vocês a exprimir-se. São os únicos a quem tenho de responder pelo meu trabalho", afirmou aos membros do movimento.

A jogada do vice-primeiro-ministro resultou, tendo esvaziado a reunião de seis horas dos deputados e senadores, que decorreu na quarta-feira à noite. No fim da reunião o deputado Alessandro Di Battista defendeu que "uma melhor organização não será tarefa só para Di Maio, mas a confiança nele deve ser reafirmada".

Roberto Fico, presidente da Câmara dos Deputados, mostrou-se contra o plebiscito, tendo alegado que questionar o líder político na sequência de uma derrota "é uma prática antiquada".

Tensões com a Liga

As relações com o aliado governamental são o grande problema do Movimento 5 Estrelas. Há divergências em temas essenciais como a política económica e fiscal - o líder da Liga, Matteo Salvini, por exemplo, insiste da adoção de um imposto único de 15% -, ou nas políticas sociais e ambientais - o 5 Estrelas está contra a ligação a França por TGV. O problema agravou-se ao longo dos meses com a crescente popularidade de Salvini, graças à retórica contra os imigrantes e a criminalidade. Popularidade que foi confirmada nas eleições de dia 26, com a Liga a duplicar em percentagem e com o M5E a mirrar quase para metade.

Com a ambição do líder da Liga a estender-se para lá das fronteiras dos Alpes, ao querer refundar os movimentos nacionalistas europeus e combater as políticas de Bruxelas a partir do Parlamento, os rumores de que a coligação pode romper-se são recorrentes. E tem sido posta à prova quando dirigentes da Liga são apanhados nas malhas da justiça. Aconteceu no início de maio com o sub-secretário de Estados das Infraestruturas, Armando Siri. Acusado de suborno, os partidários do movimento que foi liderado por Beppe Grillo pediram a demissão do governante. Acabou exonerado pelo primeiro-ministro Antonio Conte, mas Salvini não escondeu a irritação pela "emboscada do 5 Estrelas" e pela "crise" aberta em período de campanha eleitoral.

E voltou a acontecer nesta quinta-feira com a condenação por peculato e falsificação do vice-ministro das Infraestruturas Edoardo Rixi. "O programa de governo não deixa margem a interpretações e não tenho dúvidas de que Matteo Salvini vai comprometer-se em cumprir o acordo assinado", disse um dos dirigentes do 5 Estrelas, Stefano Buffagni, em alusão à demissão de Rixi. No Twitter, o senador Nicola Morra também traçou o destino do governante. "Condenado, Rixi não pode ficar no governo".

Mais uma vez a contragosto, Salvini reagiu. "Aceito [a demissão] apenas para protegê-lo e às atividades do governo de ataques e de controvérsias sem sentido", e tentou desviar as atenções com uma generalização: "Acho incrível que haja traficantes de drogas à solta, e que haja presidentes de câmara, administradores e deputados acusados ou condenados sem um mínimo de provas."

Berlusconi na equação europeia

Também na Europa Liga e M5E divergem. Salvini está em negociações com Nigel Farage e o seu Partido do Brexit para aumentar o novo grupo que conta com a União Nacional de Marine Le Pen (23 deputados) e da Lega (28). Salvini tem também seduzido o primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán para que este retire o seu partido, Fidész, do Partido Popular Europeu (PPE). No entanto, outro italiano vai tentar impedir essa movimentação: Silvio Berlusconi. O ex-primeiro-ministro, que em 2003, comparou o então eurodeputado social-democrata Martin Schulz a um nazi, mostra-se agora um adepto dos valores europeus. "Estou seguro de que vou convencer Orbán em manter-se no PPE, bem como os outros membros do PPE em manter o seu partido", disse Berlusconi, aludindo também às vozes nas fileiras conservadoras que defendem a expulsão do Fidész devido às políticas iliberais e contrárias ao espírito europeu.

Refira-se que o 5 Estrelas deverá também tentar criar um novo grupo no Parlamento Europeu, baseado nos valores da democracia direta, do ambientalismo e da reforma da zona euro, afastando-se de partidos eurocéticos mais radicais como a AfD, da Alemanha.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Margarida Balseiro Lopes

Legalização do lobbying

No dia 7 de junho foi aprovada, na Assembleia da República, a legalização do lobbying. Esta regulamentação possibilitará a participação dos cidadãos e das empresas nos processos de formação das decisões públicas, algo fundamental num Estado de direito democrático. Além dos efeitos práticos que terá o controlo desta atividade, a aprovação desta lei traz uma mensagem muito importante para a sociedade: a de que também a classe política está empenhada em aumentar a transparência e em restaurar a confiança dos cidadãos no poder político.